Termina assim um poema de Juan Bonilla intitulado “El combate del siglo” – e podia ter terminado assim uma conversa:
Nuestra única tarea es conseguir
que cuando la campana anuncie
el final del combate,
el árbitro levante el brazo vencedor de la alegría.
Porque después vendrá la nada:
esa escuadrilla
de limpiadoras
que dejará el pabellón
como si nunca se hubiera celebrado tu combate.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
B de Brincar com ossinhos
Quand le monde sera réduit en un seul bois noir pour nos quatre yeux étonnés, - en une plage pour deux enfants fidèles, - en une maison musicale pour notre claire sympathie, - je vous trouverai.
Qu'il n'y ait ici-bas qu'un vieillard seul, calme et beau, entouré d'un "luxe inouï", - et je suis à vos genoux.
Que j'aie réalisé tous vos souvenirs,- que je sois celle qui sait vous garrotter, - je vous étoufferai.
*
Quando o mundo estiver reduzido a um só bosque negro para os nossos olhos espantados - a uma praia para duas crianças sinceras, - a uma casa musical para a nossa clara simpatia - encontrar-vos-ei.
Quando aqui só haja um velho, belo e calmo, rodeado de um "luxo inaudito" - ajoelhar-me-ei.
Quando for eu toda a vossa memória - seja aquela que sabe garrotar-vos - estrangular-vos-ei.
Jean-Arthur Rimbaud, Illuminations
[Trad. Mário Cesariny]
Qu'il n'y ait ici-bas qu'un vieillard seul, calme et beau, entouré d'un "luxe inouï", - et je suis à vos genoux.
Que j'aie réalisé tous vos souvenirs,- que je sois celle qui sait vous garrotter, - je vous étoufferai.
*
Quando o mundo estiver reduzido a um só bosque negro para os nossos olhos espantados - a uma praia para duas crianças sinceras, - a uma casa musical para a nossa clara simpatia - encontrar-vos-ei.
Quando aqui só haja um velho, belo e calmo, rodeado de um "luxo inaudito" - ajoelhar-me-ei.
Quando for eu toda a vossa memória - seja aquela que sabe garrotar-vos - estrangular-vos-ei.
Jean-Arthur Rimbaud, Illuminations
[Trad. Mário Cesariny]
S de Satisfação (II)
Termina assim uma das cartas de Emily Dickinson:
No Rose, yet felt myself a'bloom,
No Bird - yet rode in Ether.
No Rose, yet felt myself a'bloom,
No Bird - yet rode in Ether.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
A de Amor (X)
RÊVE OUBLIÉ
Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti
Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna
Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo
Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada
Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro
E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.
- António Maria Lisboa
Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti
Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna
Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo
Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada
Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro
E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.
- António Maria Lisboa
S de Segunda-feira
ESTAR
En cenas familiares y anchos domingos sórdidos,
en aulas medio llenas donde mi voz no es mía,
en la consulta del doctor sonriente
que firma unas recetas,
sobre el cuerpo desnudo en el que me demoro
para salir de mí transformado en temblor,
en los ojos de un niño en los que nado
hacia una costa ilusa donde el tiempo es mentira,
en las cafeterías donde los ceniceros atestados
medieron otra vez la victoria del tedio,
en álbumes de fotos que historian las huidas
que me condenan hacia el mismo punto
donde empeza a huir,
fulge constante una pregunta, cada letra
un colmillo ensagrentado:
qué estoy haciendo aquí?
Y cuando en la mañana me repito en el espejo
con cara de superviviente único de un accidente aéreo,
y cuando me reflejo en los escaparates
camino de una noche poblada de relámpagos,
y cuando la memoria me nubla el paladar
con el sabor de una boa ya muerta,
brotando de mi piel como uma picadura
otra vez la pregunta que no anhela respuestas:
qué estoy haciendo aquí?
Pero luego una voz dice mi nombre
y yo me reconozco, o sé vivir en los amplios salones
de una canción o sabe bien un cigarrillo
después de tanta nicotina para nada,
y la mano del mundo ordena sus tesoros
y todo está en su sitio formulando un temblor de sí rotundo
y la pregunta pierde sus garfios y las cosas
responden al unísono: Estar es suficiente.
El sol del mediodía santifica las cosas,
convierte lo que baña en um milagro,
pone coraza a la conciencia irresponsable
de ser eternos, hila un cuento antiguo
en el que se derriten las preguntas,
y en todos los espejos desafías
el frío de las cenas familiares,
futuros sórdidos domigos anchos,
tu voz no tuya poyectando ansiosa
a los espectros de la nada y los gigantes del pasado
que estoy haciendo aquí?
No anheles la respuesta:
Estar es suficiente.
- Juan Bonilla, Buzón Vacío, Valência: Pre-Textos, 2006
En cenas familiares y anchos domingos sórdidos,
en aulas medio llenas donde mi voz no es mía,
en la consulta del doctor sonriente
que firma unas recetas,
sobre el cuerpo desnudo en el que me demoro
para salir de mí transformado en temblor,
en los ojos de un niño en los que nado
hacia una costa ilusa donde el tiempo es mentira,
en las cafeterías donde los ceniceros atestados
medieron otra vez la victoria del tedio,
en álbumes de fotos que historian las huidas
que me condenan hacia el mismo punto
donde empeza a huir,
fulge constante una pregunta, cada letra
un colmillo ensagrentado:
qué estoy haciendo aquí?
Y cuando en la mañana me repito en el espejo
con cara de superviviente único de un accidente aéreo,
y cuando me reflejo en los escaparates
camino de una noche poblada de relámpagos,
y cuando la memoria me nubla el paladar
con el sabor de una boa ya muerta,
brotando de mi piel como uma picadura
otra vez la pregunta que no anhela respuestas:
qué estoy haciendo aquí?
Pero luego una voz dice mi nombre
y yo me reconozco, o sé vivir en los amplios salones
de una canción o sabe bien un cigarrillo
después de tanta nicotina para nada,
y la mano del mundo ordena sus tesoros
y todo está en su sitio formulando un temblor de sí rotundo
y la pregunta pierde sus garfios y las cosas
responden al unísono: Estar es suficiente.
El sol del mediodía santifica las cosas,
convierte lo que baña en um milagro,
pone coraza a la conciencia irresponsable
de ser eternos, hila un cuento antiguo
en el que se derriten las preguntas,
y en todos los espejos desafías
el frío de las cenas familiares,
futuros sórdidos domigos anchos,
tu voz no tuya poyectando ansiosa
a los espectros de la nada y los gigantes del pasado
que estoy haciendo aquí?
No anheles la respuesta:
Estar es suficiente.
- Juan Bonilla, Buzón Vacío, Valência: Pre-Textos, 2006
domingo, 17 de abril de 2011
sábado, 16 de abril de 2011
S de Solidão (ou C de Comunidade) XVII
Se o rosto que é teu não sabe filtrar
o que és - as dores maiores, mais puras
e fatais - esquece-o, deita fora e esquece
e inventa outro, mais feliz, mais longe
o que és - as dores maiores, mais puras
e fatais - esquece-o, deita fora e esquece
e inventa outro, mais feliz, mais longe
Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado, 1989
[O manuscrito deste poema faz parte da exposição "Hand Made",
no Bartleby Bar]
no Bartleby Bar]
sexta-feira, 15 de abril de 2011
B de Balbuceio
[...]
Mas quando o tempo se desliga do tempo
e se transforma em boca,
grandes molares negros
e garganta sem fundo,
queda animal num estômago
animal sempre vazio,
engano com canções selvagens a sua fome.
Face ao céu, equipado para o nada,
canto o canto do tempo.
No dia seguinte, nada me fica
destes gargarejos.
E digo-me: a hora não é de canções,
mas de balbuceios.
Deixa-me contar as minhas palavras,
uma a uma.
Arrancadas à insónia e à cegueira,
à cólera e ao nojo
- são tudo o que possuo,
tudo o que possuímos.
[...]
Octavio Paz
(trad. Mário Cesariny)
Mas quando o tempo se desliga do tempo
e se transforma em boca,
grandes molares negros
e garganta sem fundo,
queda animal num estômago
animal sempre vazio,
engano com canções selvagens a sua fome.
Face ao céu, equipado para o nada,
canto o canto do tempo.
No dia seguinte, nada me fica
destes gargarejos.
E digo-me: a hora não é de canções,
mas de balbuceios.
Deixa-me contar as minhas palavras,
uma a uma.
Arrancadas à insónia e à cegueira,
à cólera e ao nojo
- são tudo o que possuo,
tudo o que possuímos.
[...]
Octavio Paz
(trad. Mário Cesariny)
S de Solidão (ou C de Comunidade) c
La strada sgombra
non è una via, solo due mani, un volto,
quelle mani, quel volto, il gesto di una
vita che non è un’altra ma se stessa
Eugenio Montale
non è una via, solo due mani, un volto,
quelle mani, quel volto, il gesto di una
vita che non è un’altra ma se stessa
Eugenio Montale
Lisboa, 14/04/11
[É bom quando os amigos nos dão a mão e alguns versos.]
quinta-feira, 14 de abril de 2011
terça-feira, 12 de abril de 2011
B de Biorritmo (LXXIV)
[...]
Send in a cloud with a silver linin',
Take me to paradise.
Show me that river,
Take me across,
Wash all my troubles away
Like that lucky old sun give me nothing to do
But roll around heaven all day.
N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (V)
14
Quantas palavras para completar o silêncio? Quantas folhas? Quantos cadernos? Quantos armários para os arrumar? Quantos aniversários? (o jantar no restaurante, o esforço de um sorriso a maquilhar a angústia, quantos anos tenho?, e contudo por dentro, o silêncio a doer, quantos anos faço?) Quantos verões? Quantos invernos? (os dias junto à janela onde a água escorre, os dias sucessivos, uma manhã um intervalo de sol, uma flor soerguida entre as ervas, sorri?, e saber que é outro verão que chega, outro inverno que nele se prepara) Quanto tempo?
- Jorge Roque, O chão serviu-lhe de céu (1999)
S de Solidão (ou C de Comunidade) XVI
HOMENAGEM A ALLEN GINSBERG
“Vi os melhores espíritos da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo à fome histéricos nus”
uiva Allen Ginsberg, poeta americano de S. Francisco,
com os cabelos em desalinho
Eu vi a mesma coisa por cá, Allen,
e penso que acontece assim em toda a parte
Era um grupo, não pròpriamente um grupo, mas
um grupo que se sentava
sempre de costas, ou de lado, sob a chuva
torrencial que algumas palavras provocavam ao abrir-se
Bebia-se muito bagaço, cafés uma vez por outra,
o sangue podia beber-se à vontade:
bastava cortar as veias às mulheres que se aproximavam
Uns escreviam livros que rasgavam
devia ser numa praia para a maré levar as folhas
e de noite, sem lua, bem no alto do rochedo
Outros publicavam nos jornais, raramente
Havia, claro, o papa, os papas, já os escritores
com oficina montada para as bandas da Sé Velha
E os que não morreram, não enlouqueceram ou não se suicidaram
e os que não traíram
esses vão vivendo como podem
e são agora papas cardeais arcebispos
Alguns forçados a voto de pobreza
arrastando-se pela Europa como o meu amigo
Manuel de Castro
um dos melhores espíritos da minha geração, Allen Ginsberg,
que embora não acredites, ainda resiste,
árabe na linha do seu destino infalível
acendedor de palavras
visionário de técnicas amorosas, combativas, mágicas
Mas como ia dizendo, Allen, era um grupo, não pròpriamente
mas um grupo
cujos elementos talvez se odiassem
ou então era amor, sobretudo raiva
contra a cidade senil
Ninguém trabalhava
e os poucos que trabalhavam eram despedidos no dia seguinte
ameaçavam (murmurava-se) as famílias, as instituições,…
Eles
uma família azul que fumava cigarros baratos
que se embebedava com muitas prostitutas
e da qual, desregradamente, certos membros
praticavam a homossexualidade por esteticismo
Era um grupo, não pròpriamente, mas
um grupo, Allen Ginsberg,
de anjos caídos, trémulos, atrás duma nota de vinte
para jantar
- António Barahona, Impressões Digitais (1968)
“Vi os melhores espíritos da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo à fome histéricos nus”
uiva Allen Ginsberg, poeta americano de S. Francisco,
com os cabelos em desalinho
Eu vi a mesma coisa por cá, Allen,
e penso que acontece assim em toda a parte
Era um grupo, não pròpriamente um grupo, mas
um grupo que se sentava
sempre de costas, ou de lado, sob a chuva
torrencial que algumas palavras provocavam ao abrir-se
Bebia-se muito bagaço, cafés uma vez por outra,
o sangue podia beber-se à vontade:
bastava cortar as veias às mulheres que se aproximavam
Uns escreviam livros que rasgavam
devia ser numa praia para a maré levar as folhas
e de noite, sem lua, bem no alto do rochedo
Outros publicavam nos jornais, raramente
Havia, claro, o papa, os papas, já os escritores
com oficina montada para as bandas da Sé Velha
E os que não morreram, não enlouqueceram ou não se suicidaram
e os que não traíram
esses vão vivendo como podem
e são agora papas cardeais arcebispos
Alguns forçados a voto de pobreza
arrastando-se pela Europa como o meu amigo
Manuel de Castro
um dos melhores espíritos da minha geração, Allen Ginsberg,
que embora não acredites, ainda resiste,
árabe na linha do seu destino infalível
acendedor de palavras
visionário de técnicas amorosas, combativas, mágicas
Mas como ia dizendo, Allen, era um grupo, não pròpriamente
mas um grupo
cujos elementos talvez se odiassem
ou então era amor, sobretudo raiva
contra a cidade senil
Ninguém trabalhava
e os poucos que trabalhavam eram despedidos no dia seguinte
ameaçavam (murmurava-se) as famílias, as instituições,…
Eles
uma família azul que fumava cigarros baratos
que se embebedava com muitas prostitutas
e da qual, desregradamente, certos membros
praticavam a homossexualidade por esteticismo
Era um grupo, não pròpriamente, mas
um grupo, Allen Ginsberg,
de anjos caídos, trémulos, atrás duma nota de vinte
para jantar
- António Barahona, Impressões Digitais (1968)
segunda-feira, 11 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
A de "Ash Wednesday"*
[O poema belíssimo do post veio do sítio do costume. * O título do post veio de um poema belíssimo de T. S. Eliot.]
sábado, 9 de abril de 2011
P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXIV)
[Obrigada, David - e prometo que vou tentar manter a minha obsessão por pássaros sob controlo...]
sexta-feira, 8 de abril de 2011
F de Fazer Fotografia (XLIV)
[Gosto muito da luz, das sombras e, sobretudo, dessa outra espécie de sombra - o gatinho preto que dorme ao sol em segundo plano]
quinta-feira, 7 de abril de 2011
T de Tratado de Pedagogia (XXII)
– E era boa no que fazia? – perguntou Pinata.
– Excelente. Doce, compreensiva, de confiança. Oh, por vezes tinha tendência para se enervar e perder um pouco a cabeça em situações de emergência, mas nada de sério. E todos os miúdos a adoravam. Tinha jeito, como acontece com muitas mulheres sem filhos, para fazer com que os miúdos se sentissem muito importantes e especiais, em vez de algo que acontecera devido ao encontro casual de um espermatozóide e de um óvulo. Uma boa pessoa, a Sra. Harker. Tivemos pena de ficar sem ela.
– Excelente. Doce, compreensiva, de confiança. Oh, por vezes tinha tendência para se enervar e perder um pouco a cabeça em situações de emergência, mas nada de sério. E todos os miúdos a adoravam. Tinha jeito, como acontece com muitas mulheres sem filhos, para fazer com que os miúdos se sentissem muito importantes e especiais, em vez de algo que acontecera devido ao encontro casual de um espermatozóide e de um óvulo. Uma boa pessoa, a Sra. Harker. Tivemos pena de ficar sem ela.
Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Averno
V de Vista para um saguão
Com a tarde
cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
Esta noite a luz, o claro círculo,
não domina o seu espaço.
Pátio, céu demarcado.
O pátio é o declive por onde se derrama o céu na casa.
Serena,
a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.
Grato é viver na amizade escura
de um saguão, de uma latada e de uma cisterna.
- Jorge Luis Borges
[O saguão do poema é do sítio do costume. O saguão da fotografia é da casa do gato que gosta de olhar para o pássaro.]
[O saguão do poema é do sítio do costume. O saguão da fotografia é da casa do gato que gosta de olhar para o pássaro.]
quarta-feira, 6 de abril de 2011
segunda-feira, 4 de abril de 2011
W de Women's Studies
"A mulher levou uma mão ao peito como se alguma coisa tivesse rebentado debaixo do vestido, o coração ou, se calhar, apenas uma alça do sutiã."
Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Averno
P de Prazeres (III)
[...]
And all I do is pour
Black coffee
Since the blues caught my eye
I'm hangin' out on Monday
My Sunday dreams to dry
[...]
And all I do is pour
Black coffee
Since the blues caught my eye
I'm hangin' out on Monday
My Sunday dreams to dry
[...]
domingo, 3 de abril de 2011
S de Solidão (ou C de Comunidade) XIV
The bats are in the belfry
The dew is on the moor
Where are the arms that held me
And pledged her love before
And pledged her love before
It's such a sad old feeling
The hills are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream
I made a golden promise
That we would never part
I gave my love a locket
And then I broke her heart
And then I broke her heart
And it's such a sad old feeling
The fields are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream
Innocent when you dream
Running through the graveyard
We laughed my friends and I
We swore we'd be together
Until the day we died
Until the day we died
And it's such a sad old feeling
The fields are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream, when you dream
TOM WAITS
(autor de uma epígrafe de José Miguel Silva)
The dew is on the moor
Where are the arms that held me
And pledged her love before
And pledged her love before
It's such a sad old feeling
The hills are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream
I made a golden promise
That we would never part
I gave my love a locket
And then I broke her heart
And then I broke her heart
And it's such a sad old feeling
The fields are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream
Innocent when you dream
Running through the graveyard
We laughed my friends and I
We swore we'd be together
Until the day we died
Until the day we died
And it's such a sad old feeling
The fields are soft and green
It's memories that I'm stealing
But you're innocent when you dream, when you dream
You're innocent when you dream, when you dream
TOM WAITS
(autor de uma epígrafe de José Miguel Silva)
B de Biorritmo (LXIX)
[...]
What are we coming to
No room for me, no fun for you
I think about a world to come
Where the books were found by the Golden Ones
Written in pain, written in awe
By a puzzled man who questioned
What we were here for
All the strangers came today
And it looks as though they're here to stay
[...]
sábado, 2 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
B de Biorritmo (LXVIII ou Págs. 167 e 168*)
Soft over the fountain,
Lingering falls the southern moon;
Far over the mountain,
Breaks the day too soon!
In thy dark eyes' splendor,
Where the warmlight loves to dwell,
Weary looks, yet tender,
Speak their fond farewell.
Nita!Juanita!
Ask thy soul if we should part!
Nita!Juanita!
Lean thou on my heart.
[...]
"Juanita" is a love song subtitled "A Spanish Ballad". It was first published in 1855 attributed to Mrs. Norton, with music arranged by T.G May. The opening four-bar phrase of the song is taken from Handel's aria "Lascia ch'io pianga" from the opera Rinaldo, although the subsequent melody differs from that of the aria.
* Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Lisboa: Averno, 26 de Março de 2011
Lingering falls the southern moon;
Far over the mountain,
Breaks the day too soon!
In thy dark eyes' splendor,
Where the warmlight loves to dwell,
Weary looks, yet tender,
Speak their fond farewell.
Nita!Juanita!
Ask thy soul if we should part!
Nita!Juanita!
Lean thou on my heart.
[...]
"Juanita" is a love song subtitled "A Spanish Ballad". It was first published in 1855 attributed to Mrs. Norton, with music arranged by T.G May. The opening four-bar phrase of the song is taken from Handel's aria "Lascia ch'io pianga" from the opera Rinaldo, although the subsequent melody differs from that of the aria.
* Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo, Lisboa: Averno, 26 de Março de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
C de Culinária Mediterrânea
EMENTA 27.03.11
Parábola da culinária mediterrânea
A poesia é como as ovas de ouriço-do-mar
sabe melhor com um pouco de acidez
David Teles Pereira
A poesia é como as ovas de ouriço-do-mar
sabe melhor com um pouco de acidez
David Teles Pereira
Entrada [Obrigada, Rui]:
Cogumelos com manteiga de ervas aromáticas e amêndoas
Espargos com molho de iogurte
Acompanha: Lenz Moser Prestige, 2007
Cogumelos com manteiga de ervas aromáticas e amêndoas
Espargos com molho de iogurte
Acompanha: Lenz Moser Prestige, 2007
Foto de RMR
Prato Principal [Obrigada, Maria Antónia]:
As melhores francesinhas do mundo
Acompanha: Koeher-Ruprecht, Riesling, 2007
Sobremesa [Obrigada, Miguel]:
Tarte de pêra
Acompanha: Averna e digestivos. E uma roda de amigos, e um gato de sono tranquilo, e muitas rosas amarelas.
Foto de Rui Miguel Ribeiro
S de Solidão (ou C de Comunidade) XIII
AMIGO
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta,
que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O’Neill,
in No Reino da Dinamarca
quarta-feira, 30 de março de 2011
P de (Dois Anos de) Pássaros (XXXIII)
PÁJARO
Escúchale, ya que no puedes verle
en la pineda oscura.
Lleva cantando un siglo
y ninguna palabra de las suyas
ha sido pronunciada
más alta que la otra. Así su música
el camino te enseñe hacia la sombra
que en la sombra tú buscas.
Andrés Trapiello, Habla y otros poemas,
col. "A Quien conmigo va", Sevilha: Renacimiento, 2003
(300 exs)
col. "A Quien conmigo va", Sevilha: Renacimiento, 2003
(300 exs)
terça-feira, 29 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
B de Biorritmo (LXVI)
What power art thou,
Who from below,
Hast made me rise,
Unwillingly and slow,
From beds of everlasting snow!
See'st thou not how stiff,
And wondrous old,
Far unfit to bear the bitter cold.
I can scarcely move,
Or draw my breath,
I can scarcely move,
Or draw my breath.
Let me, let me,
Let me, let me,
Freeze again...
Let me, let me,
Freeze again to death!
[Música de Henry Purcell / Letra de John Dryden]
domingo, 27 de março de 2011
P de (Dois Anos de) Pássaros (XXX)
Linhas no caminho para o lançamento de Linhas de Hartmann, ontem:
[Agradecemos que não atirem pedras às andorinhas; só à fotógrafa.]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
T de Tratado de Pedagogia (XXI)
Era a partir desta morna que eu costumava explicar a lírica camoniana aos meus alunos:
Oh camponesa formosa
De olhos gentis de matar
Vem clarear-me a tristeza
Vem clarear-me a tristeza
Com a luz do teu olhar
Mostra-me o trilho florido
Que ao teu afecto conduz
Dá-me o teu braço amorável
Dá-me o teu braço amorável
Sou um ceguinho sem luz
Tu que descalça e risonha
Percorres montes e vales
Deixa que eu siga os teus passos
Deixa que eu siga os teus passos
Deixa que esqueça os meus males
Leva-me assim pela mão
Lá pelos romances da serra
Tira-me tudo, a cidade
Tira-me tudo, a cidade
Que me entristece a terra
Quero ser para ti como Jacob a Raquel
Quero morrer a teus pés
Quero morrer a teus pés
Como teu cão mais fiel
Oh camponesa formosa
De olhos gentis de matar
Vem clarear-me a tristeza
Vem clarear-me a tristeza
Com a luz do teu olhar
Mostra-me o trilho florido
Que ao teu afecto conduz
Dá-me o teu braço amorável
Dá-me o teu braço amorável
Sou um ceguinho sem luz
Tu que descalça e risonha
Percorres montes e vales
Deixa que eu siga os teus passos
Deixa que eu siga os teus passos
Deixa que esqueça os meus males
Leva-me assim pela mão
Lá pelos romances da serra
Tira-me tudo, a cidade
Tira-me tudo, a cidade
Que me entristece a terra
Quero ser para ti como Jacob a Raquel
Quero morrer a teus pés
Quero morrer a teus pés
Como teu cão mais fiel
sábado, 26 de março de 2011
A de Aniversário (IV)
Some people become so expert at reading between the lines they don’t read the lines.
MARGARET MILLAR(5 de Fevereiro de 1915 - 26 de Março de 1994)
S de Santa Cruz
VIDA SOCIAL
Idealizavas uma solidão
de música e leitura,
de passeios de Inverno junto ao mar.
Mas a solidão
é a chuva que mancha os vidros
deste comboio dos anos.
A solidão é a palavra dura
do mau humor acre da família.
É a lei do acaso, obscura, injusta.
É não ter dinheiro. É ter medo.
É o sexo, uma estranha pista falsa
que leva até ao mais cruel dos espelhos.
É não ter desculpa pelo que não se viveu
nem esperança no que não se viverá.
Joan Margerit, Aguafuertes,
Sevilla: Renacimiento, 1998
[trad. ID]
sexta-feira, 25 de março de 2011
S de Solidão (ou C de Comunidade) X
MEMÓRIA DE JEAN COCTEAU
O amor está tão perto de ser ódio.
Não dispenso a cratera dos boémios,
onde se encontram místicos e génios
unidos ao distúrbio.
O ódio está tão perto do amor.
Não dispenso a cratera d'homens santos,
onde se encontram bons boémios bentos
bem unidos à dor.
Os extremos não se tocam: fundem--
-se até se tornarem num só traço,
muito cingido, em truculento abraço
d'infinita vertigem.
Dificuldade de ser: não mentir,
não escrever mais poemas, não falar;
apenas, ao de leve, expirar
e morrer a sorrir.
António Barahona, O Som do Sôpro,
Lisboa: Poesia Incompleta, 2011
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
quinta-feira, 24 de março de 2011
P de (Dois Anos de) Pássaros (XXIX)
Uma pomba
alanceando a luz
isenta-se da terra;
sem prendê-la, sustém
a sombra que despiu
e voa livre sob ela.
alanceando a luz
isenta-se da terra;
sem prendê-la, sustém
a sombra que despiu
e voa livre sob ela.
José Bento, Sítios,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2011
[Primeiro ensaio de fotografar a sombra de um pássaro a voar]
P de (The) Privacy of Rain (XI)
B de Biorritmo (LXIII)
"Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura"
quarta-feira, 23 de março de 2011
terça-feira, 22 de março de 2011
T de Tratado de Pedagogia (XX) - No fundo, é isto:
ADENDA
Para a Inês e à memória
de quantas andorinhas matei
Como a fotografia que tiras, a pedra
que vos lancei desde essa primavera
da minha infância
tinha (se me perdoares a franqueza)
a mesma intenção: capturar o momento.
Mas um jeito rude, cretino, o desejo
quando só sabe ser grosseiro, antes
de ganhar bons modos, mais artísticos.
Em vez de «para sempre»
ou apenas «para mais tarde recordar»,
ali mesmo se precipitava, atropelando
a realidade nesse seu golpe possessivo.
Não sabendo reproduzir, criar igual,
vai destruir – para ter pelo menos
mão na coisa, um papel qualquer
ainda que seja o de vilão.
Não espero que o entendas. Por sorte,
eu entendo-te. E o que nos separou
talvez recorde aos dois o nosso papel.
Chama-se educação, professora.
Diogo Vaz Pinto
in AAVV, A propósito de andorinhas,
Lisboa, 18 de Abril de 2011
in AAVV, A propósito de andorinhas,
Lisboa, 18 de Abril de 2011
P de (Dois Anos de) Pássaros - mais andorinha, menos andorinha... (XXVIII)
"Les vrais enfants sont ceux qui ont passé leur enfance dans les arbres à dénicher des nids, et perdu leur vie."
segunda-feira, 21 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
sábado, 19 de março de 2011
M de Música para os meus olhos (XI)
E para os meus dedos:
Giovanni Girolamo Kapsberger: "Libro Primo d'Intavolatura di Lauto"
(onde se lê alaúde, leia-se agora harpa)
O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XII)
NOCHE
Qué imposible la noche que no venía contigo
ni llegaba por ti. Qué imposible,
y que lentos
sus dedos de cuchillo arañando mi espalda,
destrozando mi espalda,
que no supo más noche que la luz de tus dedos.
Ángel Mendoza, Cercanías,
Valência: Editorial Pre-Textos, 2002
sexta-feira, 18 de março de 2011
quinta-feira, 17 de março de 2011
Q de Quem te avisa teu amigo é
Mais do que o filme que acabei de rever,
há momentos/dias que deviam chegar com um aviso destes:
quarta-feira, 16 de março de 2011
T de Tratado de Pedagogia (XIX)
HABLANDO EX CATHEDRA
Es la classe. Y explico a mis alumnos, seriamente,
cosas creíbles en que yo no creo.
Que el hombre del Barroco, por ejemplo,
es distinto y distante de aquel de la Edad Media.
Que algo cambia
si unos hombres deciden ser vanguardia
o publicar un manifiesto.
Que la vida se afecta si el hormigón desplaza al arquitrabe.
Ellos toman apuntes y parecen creerlo.
Pero, como explicarles, contra toda evidencia,
que el tiempo nunca pasa?
Como decirles eso? Contra toda evidencia,
que aqui estaremos sempre. Y que seremos
no más de lo que hoy somos y ayer fuimos.
Y continúo monótono y cansino,
hablándoles de cambios y rupturas.
Porque al mirar sus rostros com acne y maquillaje,
su soñolienta piel elástica, sus piercings,
sus cuadernos apenas comenzados,
no acabo de atreverme
a decirles que el tiempo nos entierra
capa tras capa sobre el mismo sitio,
que somos substitutos del soldado que cae,
e del actor que enferma,
que jugamos una misma comédia com arreglos,
que Edad Media, Barroco, Ilustración, Romanticismoson tan sólo migajas
del pavor en el bosque del tiempo
y continúo
dictándoles apuntes,
explicándoles crisis, y cortes, y rupturas,
y finalmente
no, no me decido
– no sé si es compasión o es puro miedo,
Y no sé si por ellos o por mí
– a romper los esquemas,
a salirme ni un pelo del programa.
Enrique BaltanásIn Isla de Siltolá – Revista de Poesía, I, Sevilla, 2010
P de (Dois Anos de) Pássaros (XXVII)
Home is a place
To get a letter
If they can find you
I have heard
Because you can't
Send a letter
To a bird
You can't send a letter
To a bird.
To get a letter
If they can find you
I have heard
Because you can't
Send a letter
To a bird
You can't send a letter
To a bird.
Tom Waits, Seeds on Hard Ground (2011)
terça-feira, 15 de março de 2011
N de "Notre Dame des Gargouilles"
O Rei da Catalunha - IV
para a Inês
Sombra de ninguém, gémeo
do Unicórnio que há séculos desafia
um céu feito de injúrias e promessas.
Sobreviverás, de pé, à última noite
do mundo?
Manuel de Freitas
[Para o Ricardo, a minha gárgula preferida, na Catedral de Barcelona.]
B de Biorritmo (LIX)
EL PASO DE LA SIGUIRIYA
Entre mariposas negras
va una muchacha morena
junto a una blanca serpiente
de niebla.
Tierra de luz,
cielo de tierra.
Va encadenada al temblor
de un ritmo que nunca llega;
tiene el corazón de plata
y un puñal en la diestra.
¿Adónde vas, siguiriya,
con un ritmo sin cabeza?
¿Qué luna recogerá
tu dolor de cal y adelfa?
Tierra de luz,
cielo de tierra.
Federico García Llorca
segunda-feira, 14 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
B de Biorritmo (LVIII)
[Ao vivo é tão mágico que saí hoje do concerto a achar que conseguia dançar.]
B de Biorritmo (LVII)
EL EQUILIBRIO
La tuya era de un verde tristón, casi oxidado.
Sobre aquel armatoste de huesos de metal yo te veía
perderte hacia el trabajo con las primeras luces.
La mía era de un rojo vivo alegre
(los Reyes la trajeron un buen año de pagas).
Me dejé las rodillas, tú la voz, intentando
aprender la imposible lección del equilibrio.
Sueño que es tarde y llega tu hora de volver,
que se acerca, cansada, la bicicleta verde,
y que estoy esperando, ansioso por contar
que ya he logrado conducir la mía.
ÁNGEL MENDOZA
V de Vida (V)
MESA DOS SONHOS
Ao lado do homem vou crescendo
Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente
Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas
Ao lado do homem vou crescendo
E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida.
ALEXANDRE O'NEILL
[Quanto a ontem, do início do jantar até ao fim da noite,
apetecia-me dizer isto aos amigos,
mas fiquei, como sempre, sem jeito:
obrigada por me deixarem crescer ao vosso lado,
dando-me vontade de ser um dia da vossa altura.
Assim vale a pena ter novos sonhos.]
sexta-feira, 11 de março de 2011
E de Espera (XII)
SÁBADOS DE AMOR
Preparabas los labios por si llegaba el beso,
dormido entre sus piernas.
Olías los perfumes de la noche más dulce,
antes de que viniera.
Repasabas canciones que en la orilla, al relente,
quemarías por ella,
deseando en el fondo la asfixia de no hallarla,
y vivir en los ritos hermosos de la espera.
Ángel Mendoza, Pájaro Negro (2010)
C de Chocolate Jesus (II)
B de Biorritmo (LVI)
sentada na tua cama
a vida infantil da morte
tem a graça das histórias mecânicas
Francis Picabia
a vida infantil da morte
tem a graça das histórias mecânicas
Francis Picabia
Nas costas do postal que tinha e onde cai
desde há muito, não sei em que cidade,
uma tarde de chuva insuperável,
larguei apressado contorno à chama
desse homem que fez a noite ajoelhar-se.
Cambado corpo, sonoro, num colete
sem botões para cores de mau vinho.
Aquele ombro descaído, debicado
por generosos pássaros,
sustinham juntos o ofego do acordeão,
decente e triste, de uma presteza viajada.
Sua infecção calma abrindo-nos
poços de ar no sangue, lento e impuro,
mendigando mais a leste um novo embalo.
Os ossos vibrando, frágeis, ocos,
como flautas para o sopro de um deus.
E os três euros, um insulto não sei
se a nós mesmos, se a este mundo
que se faz caro
para o vazio nos parecer chique.
Espirais de fumo, um frasco de tinta
tombado e a mancha cega que aos poucos
levará a memória disto, este encontro
de amigos, este bar.
Voltarei a ter encostada à minha
a carne áspera da solidão, voltarei
a esse sim-não-sim-não-sim: perdido
para segundas escolhas,
reflexos abolidos entre estranhas
gravidades, entretido com rudes
brincadeiras e esses sonhos nocturnos
precisos e práticos neste estupor
de corpos que vão ficando de sobra
uns para os outros. Poesia nenhuma,
matemática, simples e atroz.
Faço o caminho de volta, demoro
esses cansados fins de ruas e a linha
de candeeiros, sua líquida luz misturada
de urina, onde perdem a pele as imagens
e oferecem a sua carne aflita ao delírio
que me leva pela mão.
Atravessando jardins suspensos
no assombro monocórdico das flores,
perfume frio e gesto prolongado,
essa vénia num jeito doce e final.
No quarto, enquanto o silêncio rói,
escava os seus buracos, bato uns versos,
extraindo à máquina de escrever
essa grave caligrafia,
como um piano rematando outra
das suas canções de abandono e morte.
Estou só cigarro nos lábios e espero.
Olho as mãos, a marca de um anel
que nunca pus no dedo e que me intriga,
dói-me a sua mordedura e veneno.
Sentada na cama, lá esta ela
de chinelos, balouçando os pés frios,
com o seu ar trágico e indeciso.
Diogo Vaz Pinto
[AQUI]
quinta-feira, 10 de março de 2011
T de Tratado de Pedagogia (XVIII)
LEER POESÍA
Cuando acabo este libro de poemas
de Paul Celan, no sé ni qué me ha dicho
ni qué quiso decirme. Ni tan sólo
si pretendió decirme alguna cosa.
Hay tanto miedo en un poeta hermético.
Dejo la mano encima del libro ya cerrado,
y juro rechazar para sempre este miedo.
La poesia, que puede ser primeiro
un paisaje al que a veces se há llegado de noche,
acaba siendo sempre un espejo
donde uno ha de ler sus propios labios.
Y qué razón de ser
tiene el contenedor si está vacío?
Silencios y vacíos están hechos
sólo para los ángeles. Contienen
el miedo a la basura. La basura del miedo.
Joan Margarit, Misteriosamente Feliz,
Madrid: Visor, 2009
B de Biorritmo (LV)
SEIS SUITES
Durante mucho tiempo casi me arrepentí
de no haberme comprado una versión más
limpia,
más moderna,
de las Seis Suites de Bach para cello solo
(Yo Yo Ma, por ejemplo, tan brillante).
Hoy, mientras vibran duras, misteriosas,
las cuerdas y las manos de Pau Casals, su vieja
grabación de los años treinta, París y Londres,
sé, con firmeza, que el rumor ahogado,
los pequños crujidos, el volumen
un tanto desigual de esta lejana música,
son el eco más cierto,
el sonido más claro, el himno roto,
de un paisaje que enferma dentro del corazón.
Ángel Mendoza, Pájaro Negro (2010)
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