DIZER NÃO AOS BONS OFICIAIS COMO
OFÍCIO,
à sua máscara e ao seu enjoo.
Dizer
basta à sua organização, à sua ordem,
acabou-se a tanto arcanjo diplomático.
Saber que cada abraço é um selo na
boca
e que os nossos silêncios são
comprados com pancadinhas
nas costas e nos ombros. Não
hesitar na hora
de reprimir um lampejo das nossas
vaidades.
A beatice mordeu-me em jovem
e converti o amor em meu inimigo.
Prometeram-me mundos e fundos
e dormi com a ambição, essa amante
com espinhos.
Depois disse
até aqui, e não era tarde
porque estremeci na magia
de um fio que me prendia à origem
do mundo
e até lá passava pelas coisas
secretas.
Mas vieram outra vez os bons com
as suas músicas,
vestiram-me de limpo, casaram-me
com a decência e o decoro
e em troca cobraram-me muito
sangue.
Já basta de Verdade com os seus
remendos.
Já basta de chantagem, morte à sua
derrota,
que a ameaça não prolongue a minha
vida.
À hora da sesta, quando tudo é
sonolência
e recupera a paisagem a sua nudez
antiga,
como Gregory Corso subi ao sótão
e abri a janela para atirar as
coisas
mais importante por ela: a
Verdade, com a sua impostura,
disse-me: “Não faças isso, senão
denuncio-te;
direi que foste infiel aos teus
amigos,
à tua mulher, desleal com os teus
pais,
uma má pessoa”. Fora!
E logo Deus a jurar por si mesmo
através dos seus templos e dos
seus corifeus
isso do livre arbítrio, que Ele
não teve culpa,
que está inocente
porque na sua essência sem
contradição
não é capaz de mentir, nem
dividir-se
no seu todo absoluto, excepto
quando ao sétimo dia
encarregou Heine de criar as
nuvens.
E depois o Amor a prometer a sua
felicidade
como um bolo de cascas,
enjoativo primeiro e depois sujo.
Livre!, sim, na condição de não
obter
tal liberdade de joelhos fincados.
Livre!, mas de tanta liberdade,
essa que liga Deus às contradições
dos seus operários especializados,
não às do santo
ou às do missionário que estão
feitas de pão,
de vinho e de reunião:
a liberdade da sabedoria como uma
circunferência,
a liberdade da razão sempre a
duvidar,
a da fé não submetida ao seu
dogma.
Ramos sem tronco floridos,
no extremo erigida a flor
como o sangue elevado no beijo,
sem a sua raiz a rosa na liberdade
azul,
os pássaros com mãos ou os homens
com asas.
E o seu fulgor como de feitiçaria.
Um sonho em que gire o universo.
Eu e a minha luz em solene
despedida de tudo o que me prende,
à margem da lei, do seu artifício,
do seu clã;
da justiça, que nunca enforca
os bolsos cheios.
Eu voando, voando onde não
há choro, voando no esquecimento.
Mas como costuma acontecer nos
sonhos felizes
acordei nesse ponto,
quebraram-me de repente o
mealheiro
como o entardecer o céu puro do
oeste.
Antonio Hernández, O Mundo Inteiro,
Lisboa: Língua Morta, 2012