segunda-feira, 18 de março de 2013

A de "As Manhãs do Eterno Nada"


REFLEXÃO N.º 1
 
 
 
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
É a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
 
 
Murilo Mendes

domingo, 17 de março de 2013

S de Separadas à Nascença






§




Max Ernst, Uma semana de bondade
Lisboa: &etc, 2010


§




sexta-feira, 15 de março de 2013

E de Espera (XXIX)


ANONIMATO
 
 
 
Uma mulher na varanda
Se debruça sobre o mar
Contempla as gaivotas gêmeas
Espera uma carta de amor
 
Brilha o cemitério aéreo
As nuvens jogam boxe
 
Passam meninas cantando
 
Não sabem que sou poeta
E o amor que existe em mim
 
 
Murilo Mendes, Poesia,
Rio de Janeiro: Agir, 1983
 

quinta-feira, 14 de março de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

A de Aniversário (III)

NECROFILIA



Estás morto. Eu sei. Mas amo-te.
Os meus amigos tentam distrair-me
com jogos, festas, copos e viagens.
Os meus pais sugerem-me com doçura
que podia consultar algum psiquiatra
de renome. Meu amor, que absurdo tudo isto.
Só tenho certeza de uma coisa:
não voltarei mais ao cemitério
até que o meu telefone toque
e a tua voz me peça um encontro.


Amalia Bautista, Cárcel de Amor,
Sevilla: Editorial Renacimiento, 1988

[trad. ID]

P de "Pelos caminhos da manhã" (III)






John Rogers Cox, "Gray and Gold", 1942

terça-feira, 12 de março de 2013

L de Leituras paralelas


DIZER NÃO AOS BONS OFICIAIS COMO OFÍCIO,
à sua máscara e ao seu enjoo.
Dizer basta à sua organização, à sua ordem,
acabou-se a tanto arcanjo diplomático.
Saber que cada abraço é um selo na boca
e que os nossos silêncios são comprados com pancadinhas
nas costas e nos ombros. Não hesitar na hora
de reprimir um lampejo das nossas vaidades.
A beatice mordeu-me em jovem
e converti o amor em meu inimigo.
Prometeram-me mundos e fundos
e dormi com a ambição, essa amante com espinhos.
Depois disse até aqui, e não era tarde
porque estremeci na magia
de um fio que me prendia à origem do mundo
e até lá passava pelas coisas secretas.
Mas vieram outra vez os bons com as suas músicas,
vestiram-me de limpo, casaram-me
com a decência e o decoro
e em troca cobraram-me muito sangue.
Já basta de Verdade com os seus remendos.
Já basta de chantagem, morte à sua derrota,
que a ameaça não prolongue a minha vida.
À hora da sesta, quando tudo é sonolência
e recupera a paisagem a sua nudez antiga,
como Gregory Corso subi ao sótão
e abri a janela para atirar as coisas
mais importante por ela: a Verdade, com a sua impostura,
disse-me: “Não faças isso, senão denuncio-te;
direi que foste infiel aos teus amigos,
à tua mulher, desleal com os teus pais,
uma má pessoa”. Fora!
E logo Deus a jurar por si mesmo
através dos seus templos e dos seus corifeus
isso do livre arbítrio, que Ele não teve culpa,
que está inocente
porque na sua essência sem contradição
não é capaz de mentir, nem dividir-se
no seu todo absoluto, excepto
quando ao sétimo dia
encarregou Heine de criar as nuvens.
E depois o Amor a prometer a sua felicidade
como um bolo de cascas,
enjoativo primeiro e depois sujo.
Livre!, sim, na condição de não obter
tal liberdade de joelhos fincados.
Livre!, mas de tanta liberdade,
essa que liga Deus às contradições
dos seus operários especializados, não às do santo
ou às do missionário que estão feitas de pão,
de vinho e de reunião:
a liberdade da sabedoria como uma circunferência,
a liberdade da razão sempre a duvidar,
a da fé não submetida ao seu dogma.
Ramos sem tronco floridos,
no extremo erigida a flor
como o sangue elevado no beijo,
sem a sua raiz a rosa na liberdade azul,
os pássaros com mãos ou os homens com asas.
E o seu fulgor como de feitiçaria.
Um sonho em que gire o universo.
Eu e a minha luz em solene despedida de tudo o que me prende,
à margem da lei, do seu artifício, do seu clã;
da justiça, que nunca enforca
os bolsos cheios.
Eu voando, voando onde não
há choro, voando no esquecimento.

Mas como costuma acontecer nos sonhos felizes
acordei nesse ponto,
quebraram-me de repente o mealheiro
como o entardecer o céu puro do oeste.


Antonio Hernández, O Mundo Inteiro,
Lisboa: Língua Morta, 2012

domingo, 10 de março de 2013

C de Cicatriz

"[...]
vivo para coser a pele com cuidado."

João Almeida, A Formiga Argentina,
Lisboa: Averno, 2005




Roland Topor
(1938-1997)

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLIV)


SERPENTES AURIVERDES



As fotografias ardem nas horas que ardem em mim
pele, carne, uma boca branca com bagas de insónia. Atirado com pedras
coloco a cabeça nos orifícios da fuga. E quando chegas e abres a porta
a árvore onde o sol brilha e que olho há 50 horas
desaparece debaixo do teu desespero

o trabalho e a casa sem mundo, o barulho do êxodo que lá fora entra
nas tuas e nas minhas mãos

para fugir não temos força, ganhámos o torpor amarelo da rendição
como quem come carne de semelhantes. Olhamo-nos 
e bolinhas de algodão caem à nossa volta,
pólens de luz eléctrica

a nossa voz sem palavras e sem fim
não é capaz de parar o murro que nos vicia 
pergunto se vais ajudar no piquete
já lá estive, o povo que se foda, só lá estamos nós a pregar aos peixinhos
que se incendeie tudo com gasolina e espanquemos o governador civil.


João Almeida, A Formiga Argentina,
Lisboa: Averno, 2005

Y de "y el sol era un domingo" (II)


seis horas
parece domingo   parece sempre domingo
quando se ouve a feira das gaivotas
e o infinito cheira a peixe
e ainda não nasceu o aroma dos cafés de máquina
as lojas da baixa fechadas
o casario despintado a sujar o olho
os pombos do largo são muitos
engordam com o ar da festa e das farturas
mas isto mais para diante
quando a manhã for mais clara
e a procissão estiver no adro
hão-de vir os comissários do cortejo   os acólitos
e mais pessoas investidas
os seráficos bombeiros
primeiro o andor da senhora com rosas
depois o senhor da cruz com rosas brancas
e o mirone do transístor na orelha com os pés no bordo do passeio


Abel Neves, Quasi Stellar,
Lisboa: Língua Morta, 2013

sábado, 9 de março de 2013

W de Wild is the wind (IX)


"Mendigo", disse Deus,
"ando de lixo em lixo.
Um cão morreu.
Alguém perdeu a carteira.
Uma criança chora
arranhada por um cometa.
Se peço esmola, faço-o
com um olhar amoroso.
Pesco um sapato no lago.
Não sei, ao certo, em que ano estou.
Consta que a primavera
se fez assassinar, além, entre os pinheiros.
A tempestade assobia,
que nem um deus se atreve a ir lá fora.
Dêem-me um pulover
mesmo com buracos."



Alain Bosquet, O Tormento de Deus,
trad. Jorge Guimarães,
Lisboa: Quetzal Editores, 1992

quinta-feira, 7 de março de 2013

R de Rezar na era da técnica - XI b


"Café-creme com travo de desânimo,
já provei", disse Deus.
"Como as horas de neura, que suporto,
ou não tivesse andado já para aí
a apanhar as beatas da existência.
O absurdo, às vezes, impacienta-me:
em que rails de que metro
encontra Deus,
dentes e rótula inidentificáveis?
A alva cheira a teia fresca.
A música é mais barata do que o vinho.
Chamam-me por socorro:
um assassino encarniça-se
sobre o orvalho."


Alain Bosquet, O Tormento de Deus,
trad. Jorge Guimarães,
Lisboa: Quetzal Editores, 1992 

quarta-feira, 6 de março de 2013

R de Rezar na era da técnica (XI)

III


- o deus é tigre
- eu persigo-o
- o deus é trigo
- ele será o meu festim
- o deus é neve
- eu sujo-o
- o deus é ouro
- eu gasto-o
- o deus é rio
- eu desvio-o
- o deus é riso
- eu aceito-o se ele matar os outros deuses



Alain Bosquet

[Trad. ID]

R de Regresso ao real - VI b


"[...] viu, com os olhos que este mesmo sol há-de ver fecharem-se, os desenhos fora do desenho."

terça-feira, 5 de março de 2013

R de Regresso ao real (VI)

[...]
 
Tenho uma recordação de mim em criança, a afagar um pormenor num romance. Recordar o momento é outra forma de restaurar a fé na ficção. A experiência foi hipnótica, com consequências para toda a vida, porque me mostrou como os mundos dos factos e da ficção podem interpenetrar-se. Eu tinha 13 anos, estava sozinho na biblioteca da escola, fascinado com The Go-Between, de L. P. Hartley. O herói, Leo, filho de uma família pobre, passa as férias de verão de 1900 com um colega, cuja família tem uma grande casa de campo. O cerne da acção é, claro, o papel de Leo como mensageiro numa relação amorosa ilícita. Mas o que me envolveu foi a onda de calor daquele mês de julho e o fascínio do rapazinho pelo termómetro da estufa, sempre à espera que o mercúrio atingisse os 100 graus. O exemplar dessa semana da revista satírica Punch chega à casa e, lá dentro, um desenho mostra "O Sr. Punch debaixo de uma sombrinha, franzindo o sobrolho, enquanto o Cão Toby, com a língua de fora, se arrasta atrás dele."
 
Lembro-me de pôr o livro de parte e, num movimento inspirado, atravessar a biblioteca até às prateleiras onde as velhas edições de Punch estavam guardadas, tirar o volume de 1900 e abri-lo no mês de julho. E lá estavam eles, o cão sobreaquecido, a sombrinha e o Sr. Punch a limpar a testa com um lenço! Era verdade. Senti-me cativado, deliciado, com o poder de algo simultaneamente imaginado e real. E por instantes senti uma tristeza inabitual, nostalgia por um mundo de que fora excluído. Por um momento, eu tinha sido Leo, a ver o que ele via, e era de novo 1962 e eu estava na escola interna, sem onda de calor, apenas com este pequeno vestígio de uma revista que amarelecia.
 
[...]
 
 
 
Ian McEwan, "Apostasia Ficcional"
(trad. de António Costa Santos)
in Atual/Expresso, 2 de Março de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

S de "Semantics won't do" (XVII)




[...]
and the wind going wild 
in the trees
[...]

domingo, 3 de março de 2013

P de Poética - XLII c


UM ADEUS



não te verei mais
há o mar a esvaziar
há o céu a vestir
o teu rosto atinge já as árvores
e durante quinze séculos
procurarei o teu riso 
sob os objectos saqueados
não te verei mais
há a lua a recolher
há o espaço e os outros espaços 
a abrigar nas minhas veias
os teus joelhos deslizam sob o rio
as tuas clavículas brilham
sobre a pele das falésias
não te verei mais
há a morte a enganar
há o planeta a morder
com os mil dentes que me deu a ausência


Alain Bosquet

[Trad. ID]

sábado, 2 de março de 2013

S de "Semantics won't do" (XVI)


"[...]
Le futur sera mieux
Tellement mieux que ça
[...]"

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLIII)


combate por mil desertores
a recusa da recusa
é um miosótis
o homem perdeu a carne do verbo
como se perde num campo
a coroa de um rei ainda não inventado



Alain Bosquet

[Trad. ID]

S de "Semantics won't do" - XV b


sexta-feira, 1 de março de 2013

S de "Semantics won't do" (XV)


P de Poética - XLII b


Tratam mal a vossa linguagem:
é por isso que
as vossas framboesas dão víboras,
os vossos arquipélagos tossem sangue,
as vossas colinas se quebram
como copos de licor,
os vossos sóis estão doentes
e se vão sentar em camas desfeitas.
A vossa linguagem
trata-vos mal: irão morrer
logo ao primeiro ataque de prosa.


Alain Bosquet
 
[Trad. ID]
 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

F de "Ferrugem e osso" (IV)


[Lisboa, Dezembro 2012]

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

S de "Solo se pierde lo que no se ama" (II)


NÃO TEMOS MUITO TEMPO PARA AMAR



Não temos muito tempo para amar
a luz vai desaparecendo,
as coisas que amamos são as mesmas
que em breve perderemos

Os piores vestidos são os que
diariamente se vão usar.
Os teus cabelos já te vi pentear,
em silêncio - íntimo,
escuro e caloroso.

Tentaria tocar-te num braço,
mas escolhi não o fazer.

Podia, mas não quis, quebrar
aquilo que se mantém imóvel.
(O mais ténue suspiro
quase seria um estridente grito).

Por isso, os momentos passam
como se quisessem ficar
E não temos muito tempo para amar
Uma noite. Um dia...


Tennessee Williams, Alguns Poemas
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 2011

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

M de Museu Imaginário (XXVII)


Lubin Baugin, "Le dessert de gaufrettes", c. 1630-1635

H de Humanidade (IV)


Ao longe esse gato enferrujado. Ao longe
essa árvore que se coça. Ao longe
essa ilha que se prostitui
para comprar um nome de mulher.
Ao longe esse azul prisioneiro.
Ao longe esses vulcões rabugentos.
E aqui nada! nem a tristeza,
nem o suspiro, essas palmeiras nuas.
Aqui cada um de nós morreu
ao longo de vinte séculos tantas vezes,
que já não sabe o que fazer
para morrer de uma morte que mate.


Alain Bosquet
[Trad. ID]

domingo, 24 de fevereiro de 2013

C de "C'était lors de mon premier arbre" *




* O 1º verso de um poema de Jules Supervielle.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

F de Fazer Fotografia - XIII g *


 
 
*
 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A de "até que os fios do coração" - b




[Dezembro 012]


C de Começar o dia com um livro novo (XXIV)






                                                                                                                                                       Neste caso, (re)começar o mesmo dia, 140 anos depois:

Selma Lagerlöf, The Diary of Selma Lagerlöf,
trad. de Velma Swanston Howard,
Londres: T. Werner Laurie, 1937

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

T de "(um) torso dobrado pela música" (XII)



Robert Doisneau, "Tapisserie des Gobelins - la harpe de laine", Paris, 1945


[Obrigada, Daniela]

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LV


“não, afasta qualquer dúvida, a verdade não pode ser gravada em fita magnética como fez o teu pai não pronuncies o seu nome com o canto dos pássaros mortos ou feridos de morte a verdade não faz ninho nas palavras agoniza nas palavras e morre com elas na melhor das hipóteses a verdade não habita em lado nenhum nem sequer no silêncio que fica por debaixo das palavras cospes sangue em silêncio e é verdade morre-te um irmão em silêncio e é verdade sentes uma dor aguda em silêncio e é verdade uma dor aguda no coração e num braço mas não o digas fecha-te dia após dia cada vez mais no silêncio na sua profunda trincheira quando ao homem lhe falta o suporte da palavra assemelha-se aos deuses mas não sabe dizê-lo não pode dizê-lo não deve querer dizê-lo […]”


Camilo José Cela, Oficio de Tinieblas 5,
Barcelona: Plaza & Janés Editores, 1989

domingo, 17 de fevereiro de 2013

P de "Para realizar um fantasma entrevisto" (V)



[Lisboa, 15/02/13]

P de (The) Privacy of rain (XLV)



"It can rain and it can blow - these are not the things that count; often on a rainy day a small joy possesses one so that one retires into a private happiness. One stands looking straight ahead, laughing softly now and then and glancing around. What is one thinking of? A clear pane in a window, a ray of sunlight on the pane, a view across to a little stream and perhaps to a break of blue in the sky. It need not be more.
At other times even unusual events cannot jolt a man out of a dreary and cheerless mood; in the middle of a ballroom he can sit unmoved, indifferent , and impassive. For it is within ourselves that the sources of joy and sorrow lie. [...]"


Knut Hamsun, Pan,
trad. James W. McFarlane, 
Londres: The Folio Society, 1983

sábado, 16 de fevereiro de 2013

P de Poética (XLI)

[...]

A poesia não existe para ornamentar, consolar ou sequer servir de contraponto às dificuldades do trabalho. Ela só existe se se dissolver no ar. Se se oferecer à respiração. Precisamos de oxigénio, da falha que é a construção do poema enquanto busca de luz e salvaguarda da noite que há na noite, essa que se dá sempre de maneira única e intempestiva. [...]


Silvina Rodrigues Lopes
in Telhados de Vidro  n.º4,
Lisboa: Averno, Maio de 2005

C de Cicatriz - X c

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

C de Cicatriz - X b

VERÃO



a paisagem dissolve-se
na cintilação. Cresce a cobra
na vereda de som a explodir
na carqueja. Fecha-se a poeira
gota a gota na luz. Abre-se 
na pedra a ruga. O seu gume
sorri na boca. Um nome
suporta a voz. A trepadeira. 


Rui Nunes
in Telhados de Vidro n.º4, 
Lisboa: Averno, Maio de 2005

C de Cicatriz (X)

[Hoje, em Lisboa]

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A de Amor - XXI b


A de Amor (XXI)

BEIJOS, PEDRADAS



Juntando-nos, afastamos a fera às pedradas. Enquanto foge por entre os matos da nossa tensa idade, que é na verdade um fantástico restolho, sorrimos imbuídos de gratidão e de um premonitório terror. Porque já não é a primeira vez que afastámos a fera e sorrimos, e receámos o seu regresso: e voltou. Agora apertamo-nos, mordemo-nos de amor, e falamos de esperança com lacónicas e furiosas braçadas - sem soltar as últimas pedras. A nossa sabedoria e a nossa tristeza tocam-se nos seus extremos: estamos sempre à espera de um novo ataque. Má fera feita do metal do nada, não-ser feito fera, alimária maior do que a aversão que inspira, com músculos tão poderosos como as dobradiças dos anos. Prisão que se move até hoje, da amplidão de um deserto, matemática, rigorosa. Precisa fera que se arrasta sob a lua, olhando-nos com a avareza sonolenta de um dinossauro entre os lodos da pré-história.

Ameaçando-nos com o seu estereofónico rugido listrado de estridências de nascença, a fera olha-nos e prolonga a sua espera imortal antes do salto. Tu vês como ela nos olha, tu bem o vês; o que interessa se a carne se rasga entre os seus dentes. Com o sangue derramado no amor pelo terror poderíamos cobrir esta região que olhamos apaixonados, abraçados pela cintura como elos. Arranha o que quiseres, sejamos tão ferozes como o nosso destino.

Nunca te disseram que o amor é essa desgraça?



 Félix Grande, Biografía (1958-2010),
Barcelona: Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 2011

[Trad. ID]
 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O de "O mar, o mar"


[Santa Cruz, 12/02/13]

M de Música para os meus olhos (XXXVII)


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

M de Museu Imaginário (XXV)




Rafael, "Retrato de Bindo Altoviti", 1514

S de Solidão (ou C de Comunidade) - XXIII b


332. jogaste sempre com as cartas viradas para cima e perdeste lutaste sempre de peito nu e perdeste nunca duvidaste da palavra escutada e perdeste agora já é tarde para voltar atrás e até para fazer um exame de consciência não pactuaste com os anjos nem com os demónios e perdeste não te rias de ti deixa que sejam os outros a rir de ti com justa causa agora tens de cumprir a penitência que corresponde a quem teima em construir mundos cimentados no ar de criança sonhavas com teias de aranha e redes que te apanhavam depois dedicaste-te a tecer teias de aranha e redes e agora sentes-te a agonizar porque caíste na tua própria armadilha já tiveste tudo e por isso podes deitar fogo a tudo isto ofereço a fulano isso a sicrano aquilo a beltrano dirás eu nada quero porque também não preciso de nada dirás para morrer basta um metro quadrado de terra alheia e um coração que queira parar a tempo também se pode caminhar vivo e despido logo te ladrarão os cães logo te apedrejarão os vizinhos não será necessário esforçares-te para provocar as suas iras porque a raiva contra o derrotado está sempre à flor da pele, não, não queres morrer mas vais morrer tu notas que vais morrer escolhe um cenário neutro uma decoração confusa nunca nada deve ficar demasiado diáfano são agora seis menos vinte da manhã sobre o horizonte amanhece um dia que se prevê belo estás triste muito triste mas sente que te invade uma paz infinita faz um esforço para não dispores da tua vida deixa que seja a morte a organizar a sua própria representação os amigos ficarão surpreendidos com a notícia de que o sangue das tuas veias não se derramou sobre as lajes do teu estúdio morreu de morte natural dirão uns aos outros mas nem uns nem outros acreditarão no que ouvem é mais engraçado que a coisa se passe desta simples maneira no estômago não tinha veneno nos pulmões não tinha água no corpo não tinha uma única bala nem um só golpe nem um só corte sabe-se que morreu de fastio é pena que as janelas do outro mundo estejam fechadas de pedra e cal de qualquer modo seria melhor imaginá-las abertas e povoadas de anjos curiosos de demónios curiosos de fantasmas desorientados e curiosos também é pena que não tenhas tido mais fé é um subterfúgio consolador mas na tua derrota não te resta sequer isso amas todos os que te rodeiam e apenas sentes desprezo por ti mesmo também invejas todos os que te rodeiam e sentes uma infinita compaixão por ti mesmo, não, deves evitar essa atitude ninguém deve desprezar ninguém nem ter compaixão de ninguém quem perde paga e tu perdeste e pagas a coisa não tem grande mistério nem deves dar mais voltas à cabeça é provável que todos os finais sejam assim falta-te experiência em finais próprios [...]



Camilo José Cela, Oficio de Tinieblas 5
Barcelona: Plaza & Janés Editores, 1989

domingo, 10 de fevereiro de 2013

B de Biografia (V)


"Não posso ter a certeza de nenhum acontecimento ou lugar a não ser da minha solidão."

Anaïs Nin


§




"Um homem só é verdadeiramente solidário com a sua solidão."

Dennis McShade
(Dinis Machado)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

S de "Semantics won't do" (XIII)

P de Poesia - XI b




Brassaï, "Papillon à la lampe", c. 1934

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

F de "Ferrugem e Osso" (III)

 
PAINÉIS DE VIGILÂNCIA
 
 
 
Amava-a e pela eternidade
irei dilacerá-la,
o punhal que embrenhei
nas aurículas
cerceando o riacho
das veias
será agora amante
de Rosalia,
penetrará as costas
buscando o coração,
a redoma da morte
não é refúgio
suficiente,
no Inferno não há
meias medidas.
Ficámos juntos
em território danado.
Apesar da matilha de cães,
o dilaceramento,
a bruta repetição do crime
pelos séculos dos séculos,
eu e a minha amada
estamos livres de Deus
até ao fim do mundo.
 
 
Fátima Maldonado, Caça e persuasões,
com desenhos de Paula Rego,
Lisboa: Comissariado para a Europália, 1991
 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

T de Tratado de Pedagogia (LIX)

 

 

P de Perder a cabeça - V b



Man Ray, Jean Cocteau esculpindo a sua própria cabeça em arame, c. 1926

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A de Amor - XIX b

[...]

No amor não existe
o verdadeiro sem o irreparável.



Félix Grande

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

sábado, 2 de fevereiro de 2013

E de Estado da nação (IV)


P de (The) Privacy of rain (XLIV)


[Lisboa - Nazaré, hoje]

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O de Out of focus


NA ILHA DE CALIPSO



De súbito, parecia
que nada nos faltava:
andorinhas, oliveiras, hortelã.

A brisa no meu rosto é a brisa
no teu rosto. A 110 à hora,
quem se lembra 
de uma vinha destruída?

São 3 e 25
e nenhuma autoridade nos daria 
mais de 15 anos.


José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui,
Lisboa: &etc, 2002

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

C de Começar o dia com um livro novo (XXIII)


Na manhã em que me levantei para começar este livro tossi. Algo estava a sair-me da garganta, a estrangular-me. Rasguei o cordão que o retinha e arranquei-o. Voltei para a cama e disse: Acabo de cuspir o coração.
 
Existe um instrumento chamado quena que é feito de ossos humanos. Tem origem no culto que um índio dedicou à sua amante. Quando ela morreu ele fez dos seus ossos uma flauta. A quena tem um som mais penetrante, mais persistente do que a flauta vulgar.
 
Aqueles que escrevem sabem o processo. Pensei nisto enquanto cuspia o coração.
 
Só que eu não estou à espera da morte do meu amor.
 
 
 
Anaïs Nin, A Casa do Incesto,
trad. Isabel Hub Faria, 2ª ed.,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1984

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

F de "Ferrugem e osso" (II)



"[...] d'un rouge pareil
à son coeur invisible."

Jean Follain

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

L de Lost in translation (II)

NUMA BIBLIOTECA


(Versão de uma poema de Zbigniew Herbert)



Uma  rapariga loura está  inclinada sobre  um  poema. Com o  bisturi
de um  lápis  afiado  transfere as  palavras  para uma  folha  branca e
converte-as em acentos, cadências, cesuras. O lamento de um poeta
caído assemelha-se agora a uma salamandra devorada por formigas.

Quando o levámos sob o fogo das metralhadoras eu pensei que o seu
corpo ainda cálido ressuscitaria nas palavras. Agora que  vejo a morte
das palavras, sei que não há limites para o declínio. Tudo o que
deixaremos  atrás de nós sobre a terra escura serão sílabas dispersas.
Acentos sobre o pó e o nada. 



José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui,
Lisboa: &etc, 2002

R de Regresso ao Trabalho (XLIX)

 
IN A STATION OF THE METRO



The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.

Ezra Pound

domingo, 27 de janeiro de 2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

S de "Semantics won't do" - XI c


S de "Semantics won't do" - XI b


 

S de "Semantics won't do" (XI)


1988, CHET BAKER




Prometeu que tocaria My
Funny Valentine
como nunca
o fizera. E foi, também na voz,
verdade (a verdade é sempre
uma coisa muito triste;
faltavam-lhe duas semanas para morrer).


Comprei o disco quase vinte anos
depois, e só por difícil acaso
o fiz naquela cidade, com a
mesma ou nenhuma vontade de morrer,
agora que volta a dizer "Stay
little valentine" e a chuva torna
as bicicletas uma metáfora evitável,
contrária à ferrugem do que sinto.


Sim, é isso: ninguém nos espera
- e nem todos sabemos voar, sofrer,
cantar assim o desconforto.
Nada deveria ser tão triste,
até porque nada deveria ser.


Mas não me roubem, por favor, esta canção.
 
 
 
Manuel de Freitas, Jukebox 1 & 2,
Teatro de Vila Real, 2009
 
 



 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

E de Estado da nação (III)



[Lisboa, 20/01/13]

domingo, 20 de janeiro de 2013

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" _ V b





[Hoje, em Santarém - o entardecer de um dia muito longo.]

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" (V)


Ouves a música do campo
e a serpente passa, o pequeno comboio
cobre linhas de silvas e a dor
de não voltar. Quatro colunas
sustêm o alpendre, uma
e outra vez a ver o casal, a ver
desabar o modo impossível
da vontade. Ouves música
no campo enquanto arrumas
na mala coisas de sentimento
e duração. Golpes de asas
voam sobre a tarde, voam
sobre ti que já só sabes
reconhecer a língua do mal
mas asas não. Prendo-me à janela
e a rede tapa a luz
de um incêndio.



Helder Moura Pereira
in  Depósito Legal N.º 23571/88, Lisboa: frenesi, 1988

P de (The) Privacy of Rain - XXVI b

P de (The) Privacy of Rain (XXVI)









[Lisboa, Abril de 2012 / Janeiro de 2013]

sábado, 19 de janeiro de 2013

P de (The) Privacy of rain (XLIII)


[...] 

Hoje é o dia dos teus anos e mais uma vez o dia dos teus anos é escuro e frio, chove no meu terraço, caem gotas de água grande ao meu lado, vou lá meter a cabeça? A chuva vai trazer-me paz e amor? A chuva vai lavar-me? Lava-me tu. Lava-me tu. 

[...]


Nuno Moura, Calendário das dificuldades diárias,
Lisboa: &etc, 2002

F de "(Une) Famille d'Arbres" - V b


POSTCARD 1 



Out of Bulgaria, the great roar of the artillery thunders,
resounds on the mountain ridges, rebounds, then ebbs into silence
while here men, beasts, wagons and imagination all steadily increase;
the road whinnies and bucks, neighing; the maned sky gallops;
and you are etternally with me, love, constant amid all the chaos,
glowing within my conscience - incandescent, intense.
Somewhere within me, dear, you abide forever -
still, motionless, mute, like an angel stunned to silence by death
or a beetle inhabiting the heart of a rotting tree.



Miklós Radnóti (1909-1944), 30 de Agosto de 1944
Trad. de Michael R. Burch



§



[...]

Radnóti’s name is usually not associated with the pronounced literary tendencies (calling it a movement, despite its profound significance for contemporary Hungarian literature, would be going much too far) of some 40 or 50 years after his murder at the hands of fascists.  Both were, however, a kind of poetry of testimony.  Radnóti bore poetic witness to his own murderous age; the poets of the late twentieth-century, in their deeply experimental and rebellious use of language, to the ‘disintegrations’ of the late Kádár era.  Yet these last poems of Radnóti’s, embodiments of physical ruin, snatched from the jaws of ruin, and their literal decomposition in his coat pocket in the mass grave at Abda seem somehow to prefigure the crisis and disintegration of language that his successors were to confront later on — that we all, to some extent, confront today.




[Obrigada, Rik]

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

F de "(Une) Famille d'Arbres" (V)



UMA ÁRVORE PARA MARINA TSVIETÁIEVA
 
 
 
Nalgum lugar do mundo espera-me uma árvore.
Só e majestosa no sopé de uma colina
ou escondida entre outras no fundo de um vale.
Não sei se as suas folhas deixam passar a luz e os pássaros,
se só dá sombra ou também algum tipo de fruta.
Se é resistente aos rigores do verão,
se um floco de neve a pode incendiar.
 
Mas guarda no seu interior uma caixa secreta.
 
O carpinteiro da funerária dorme
a sono solto e em sonhos murmura:
É preciso tirar à caixa o que lhe sobra
da árvore, arrancar-lhe a cortiça que a prende,
desatar-lhe os nós, apaziguar-lhe a seiva.
 
Mas, afinal de contas, talvez
não seja muito frondosa nem muito direita
a árvores que me espera e ainda não conheço.
Talvez, embora só tendo dois ramos,
se engane com frequência nas suas tarefas diárias
e num ramo brote um pássaro fugaz
e noutro, esquiva, esvoace uma flor.
 
Mas no seu interior cresce uma caixa para mim.
Paciente e silenciosa. Confortável e quente.
Temo que atinja por fim a minha estatura.
 
E ainda que tenhamos de nos encontrar
e reconhecer num meandro do tempo,
a caixa e eu levamos vidas contrárias:
Eu velarei para que ela durma.
Ela renascerá quando eu morrer.
 
 
Madrid: Visor, 2012
 

P de Poética (XXXVII)

 
SEGREDE É SÓ PA UM
 
 
 
Tud mar dêsse mund
tem um nome cunchid
ma êsse di meu sê nome
só mim é q'sabel

ora q'temporal te parcê
na horizonte
um tem um port
q'ta protêge-me

tud quem qui crê
conchê sê nome
um tal guardal
ao menos êsse é nha direit

mesme qui um nôme
é só palavra
nada más do qui um nome

má tem segrêd
q'é só pa um
sima tem segred
q'pa dôs é d'más

agora q'nha voz
é uvid um pouco
más um ta guardá nha alma
d'tude aquês q'ta rudiáme
e q'ta escondê pa trás dum máscra

d'stine um cata crê na d'stine
só amor ta companhame
na nha caminhe
e na cantál
nome d'nha mar t'uvid
só pa quem q'ta creditá na poesia

má tem segrêd
q'é só pa um
sima tem segred
q'pa dôs é d'más
 
 
Letra de Vasco Martins,
na voz de Herminia.
 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

S de "Semantics won't do" (X)


[Para a Marta]

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

P de (The) Privacy of Rain (XLII)








[Lisboa, 09/01/12]

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

I de Insónia (IV)

domingo, 13 de janeiro de 2013

P de Poesia (XIII)


INVESTIDA



Teu argumento, môça, faz com que eu abandone
     os livros, o corpo a corpo com a sabedoria, e
     saia contigo, pelo sítio
aprendendo a linguagem da chuva, a passarinhagem
     irresponsável e o travo selvagem das frutas.

Teu braço me mostra o vento nas goiabeiras - as
     melhores rimas
e teu olhar descobre definitivamente o farol que em
     plena manhã
se recomenda à gratidão dos arrecifes, das canoas,
     dos penhascos e das proas.

Estou contigo. Nem Homero me levará mais
para a libertinagem da imortalidade. Aqui os clás-
     sicos se dissolvem
nos papagaios que as crianças soltaram no céu
para lutar com os albatrozes.

Sei agora, môça, que meus pés nus na areia
estão pisando o chão da Descoberta.
Já não preciso de versos para saber que estou vivo.
Estou caminhando entre as árvores sem nenhum
     compromisso. 





Lêdo Ivo, Cântico, 2ª ed. 
(com  ilustrações de Emeric Marcier, reproduzidas da 1ª ed.), 
Rio de Janeiro: Orfeu, 1969

C de Começar o dia com um livro novo (XXI)



Havia a tristeza
como método, havia
a sedução

como razão. Havia
o tempo, a língua
pegajosa do sentido
marcando em cada ruga

o desenlace. O sol
também havia
até que passe.



José Carlos Soares, O Visitante Paralelo,
Lisboa: Língua Morta, 2013

sábado, 12 de janeiro de 2013

EM SOCIEDADE



     Não me arrependo - mas só porque o arrependimento não é uma forma suficiente de desespero - do tempo em que era desconfiado, em que ainda esperava encontrar algum inimigo para vencer, alguma brecha a talhar na natureza humana, algum esconderijo sagrado. A desconfiança representava ainda uma pausa, a constatação aprazível do concluído. Um fio puxado por uma andorinha que, de asas abertas, imita a ponta da flecha engana tanto a aparência do homem como a sua realidade. O vento não vai aonde o homem o quer levar. Felizmente. Eis as fronteiras do erro, eis os cegos que se recusam a pousar o pé no degrau em falta, eis os mudos que pensam com palavras, eis os surdos que silenciam os ruídos do mundo.

     Os membros cansados, palavra de honra, não se separam facilmente. O seu desconhecimento da solidão não os impede de se entregarem a dissimuladas experiências pessoais de física divertida, migalhas do grande repouso, tantas gargalhadas minúsculas das glicínias e das acácias do cenário.  
     A fonte das virtudes não secou. Ainda há olhos belos e grandes, bem abertos para contemplar as mãos laboriosas que nunca praticaram o mal e que se aborrecem e que aborrecem toda a gente. O cálculo mais rasteiro faz com que se fechem quotidianamente estes olhos. Mas eles só privilegiam o sono para poderem mergulhar depois na contemplação das mãos laboriosas que nunca praticaram o mal e que se aborrecem e que aborrecem toda a gente. O odioso tráfico.

     Tudo isso está vivo: esse corpo paciente de insecto, esse corpo apaixonado de pássaro, esse corpo fiel de mamífero e esse corpo magro e vaidoso do monstro da minha infância, tudo isso está vivo. Só a cabeça morreu. Tive de a matar. O meu rosto já não me compreende. E não tenho outro.


Paul Eluard,  Les dessous d'une vie ou La Pyramide humaine, 1926
[Trad. ID]

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

C de Chocolate Jesus (VI)




[Para a Guida]