quinta-feira, 26 de março de 2020

L de (A) Luz da Sombra (XLIII)


REMEMBER


Abri o rádio de pilhas pirilampos 
a música da feira de Paço d'Arcos
mudámos entre duas cervejas com
açorda de marisco atrás da camioneta
os móveis empilhados torre de Pisa
que havia no escritório do meu pai
na estrada marginal às gargalhadas
A casa era muito dividida
com perspectivas dúbias com djinns
que corriam atrás dos cães
pilhas de pirilampos empilhados
os móveis quase a cair para
o mar iluminado pelos teus dentes
onde nascia o Sol quando te beijava


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015




[ID, 'Memória da luz das 7h30', 05/012]

domingo, 22 de março de 2020

P de Poética (LVIII)


UM DESTINO


Luzes e cabanas
nas encruzilhadas
chamaram os companheiros.

Para ti, resta
esta pálida estrada na noite
que o vento te revela:
para a tua sede
a água das torrentes que caem,
para a pessoa exausta
a erva dos pastos que se renova
no espaço de um sono.

Absorto no seu próprio fogo
cada ser humano
se abandona a uma única vida.

Mas no teu
lento andar de rio que não encontra foz,
a prateada luz de infinitas
vidas - das estrelas livres
treme agora:

e se nenhuma porta
se abre para o teu cansaço,
se te é
devolvido a cada passo o peso do teu rosto,
se é tua
esta, mais do que dor,
alegria de continuar sozinha
pelo límpido deserto dos teus montes

aceita então
que és poeta.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação, 2.ª ed. rev. e aumentada,
com sel. e trad. de Inês Dias, prefácio de José Carlos Soares, 
desenhos de Débora Figueiredo e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa,  Averno, 2019

sábado, 21 de março de 2020

M de "My house, I say" (II)




A minha casa é lá longe onde nascem os lobos
Nessa terra dourada onde germinam as plantas ardentes do amor
Com as raízes flutuando entre as espumas da memória
As janelas abrem-se e mostram paisagens arrebatadoras à beira do
abismo
Ou fecham-se de súbito formando a erosão das lágrimas nas planícies melancólicas onde vivem os mortos
As escadas precipitam-se como feras atrás dos meus passos
Afundam-se na eternidade e sobem até às maiores alturas
Atrás das cortinas velhas múmias de prata lavrada pelos costumes
errantes
Iluminam com uma claridade lunar
As tapeçarias transparentes das carícias
A saudades desesperadas a violência da despedida
O fulgor dos países perdidos e das cabeças à deriva no mar de outros
anos
Eu espero-te até que a casa se suma lentamente à flor da terra




Ernesto Sampaio, Fernanda,
Lisboa: Fenda, 2000

[Fotografias: ID, 02/014]

T de Tempo Sem Tempo (III)


EMBRIAGAI-VOS


     É preciso estar sempre bêbado. Tudo reside nisso: eis a questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que esmaga os vosso ombros e vos inclina para a terra, precisais embriagar-vos sem tréguas.
     Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa vontade. Mas embriagai-vos.
     E se às vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na morna solidão do vosso quarto, acordardes, a bebedeira leve ou curada, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “São horas de embriagar-se! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude,à vossa vontade.”


Charles Baudelaire, O Spleen de Paris,
trad. Jorge Fazenda Lourenço,
Lisboa: Relógio D'Água, 2007




[Mathieu Kassovitz, O Ódio, 1995]

terça-feira, 17 de março de 2020

T de "The days grow short..."


MUDANÇA DE ESTAÇÃO


para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio - uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda dos noctilucos
estendida nesta mudança de estação


- AL BERTO

domingo, 15 de março de 2020

P de "Postais do fim do mundo" (II)


VERTIGENS OU CONTEMPLAÇÃO DE ALGO QUE TERMINA


Este lilás desfolha-se.
De si mesmo cai
e esconde a sua antiga sombra.
Hei-de morrer de coisas assim. 


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética,
trad. de Fernando Pinto do Amaral,
Lisboa, Tinta da China, 2020




[ID, 'Postais do fim do mundo', 05/04/2013]

U de "Uma promessa do deserto" (II)


[...] 
Reconhecemo-nos, desaparecemo-nos, amigo a quem eu mais queria.
Eu, assistindo ao meu nascimento. Eu, à minha morte.
E eu caminharia por todos os desertos deste mundo e mesmo morta continuaria a procurar-te, a ti, que foste o lugar do amor.


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética,
trad. de Fernando Pinto do Amaral,
Lisboa, Tinta da China, 2020


*


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto,
Lisboa, Moraes Editores, 1962

domingo, 8 de março de 2020

W de Women's Studies (III)


METADE PÁSSARO


A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


sábado, 7 de março de 2020

m, de memória (II)


ARTE POÉTICA


Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.


- ANTÓNIO RAMOS ROSA




[Andrei Tarkovsky, O Espelho, 1975]

quinta-feira, 5 de março de 2020

A de "A propósito de andorinhas" (VIII)




António Nobre, Só,
2.ª ed. rev. e aumentada, Lisboa: Guillard, Aillaud e C.ª, 1898

sábado, 29 de fevereiro de 2020

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (VIII)


ESTRELA


Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.


CARLOS DE OLIVEIRA




[Fotograma de In the Mood for Love, de Wong Kar-Wai]

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

I de Intimidade - c




Leonard Cohen, Poemas e Canções II,
com tradução de Inês Dias,
Lisboa: Relógio D'Água, 2019

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

S de Santa Cruz - XI c




[Uma poética - ID / 2011]

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLV)




[A epígrafe de um livro de George Steiner.]

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O de "Onde se lê 'gato'..." (XVI)


Diário de um Barnabé...

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

S de "Sei de um rio" (II)




[ID, 'Sei de um rio', Julho de 2016]

C de Coração arquivista (III)


CABEÇA, CORAÇÃO


O coração chora.
A cabeça tenta ajudar o coração.
A cabeça diz ao coração como são as coisas, outra vez:
Vais perder quem amas. Todos se irão. Até a Terra se irá, algum dia.
O coração sente-se melhor, então.
Mas as palavras de cabeça não duram muito nos ouvidos do coração.
É tudo muito novo para o coração.
Eu quero-os de volta, diz o coração.
A cabeça é tudo o que o coração tem.
Ajuda, cabeça. Ajuda o coração.


in Contos Completos, trad. Manuel Resende, Lisboa: Relógio D'Água, 2012

domingo, 19 de janeiro de 2020

M de "Me, Myself and I" (II)



Hans Holbein the Younger, 'A lady with a squirrel and a starling', 1526-28 
[National Gallery, London]



[...]
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das núvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

[...]


Herberto Helder, O Amor em Visita,
Lisboa: Contraponto, 1958




Frida Khalo

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

C de Cicatriz (XI)


"[...]
devo sentir nostalgia? de quantas cicatrizes precisa a nostalgia?"

Pablo García Casado




[Fevereiro 013]

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O de Outono (XI)


NÃO ME MOSTRES NENHUM NORTE


Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinhas rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.


A. M. Pires Cabral, Cobra-d'água,
Lisboa: Cotovia, 2011




Origami de Outono
Vila Real / 2012

domingo, 5 de janeiro de 2020

F de "(Une) Famille d'Arbres" (VI)






E LUCEVAN LE STELLE


Para o meu avô,

os verdes na banca eram o real,
sem regresso ou poesia,
e a expansão acabara de novo
ali, no Cais da Ribeira,
quando a amada partira,
levando-lhe no nome a liberdade.

A tristeza tinha horas tão marcadas
que lhe tingiam os dedos,
portões que só se abriam
para as estrelas sempre acordadas
da mesma música: e nunca amei tanto
a vida, chorava em repetição.

Enquanto a felicidade boiava na praia,
à distância de um dia de verão
e de uma corda segura 
por quem não sabia sequer nadar.


Inês Dias, In Situ,
Lisboa: Língua Morta, 2012

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

M de Mesa de Amigos - X b




Paul Klee
"Fairy Tales" (1920) | "Paul Klee, "Nächtliches Fest" (1921)




segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

R de Regresso ao Real - VIII b


CONSOANTES ÁTONAS


Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência

tá[c]til do beijo. Eu não nasci
nos Trópicos: preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.


- Inês Lourenço, Coisas que nunca,
Lisboa: & etc, 2010




[ID, Funchal | 12/019]

R de Regresso ao real (VIII)


Gosto da brisa gelada
e do vapor que fala no Inverno:
Eu sou eu. A realidade é a realidade.

Um rapazinho, vermelho como um tomate,
dono e senhor do seu trenó,
lança-se encosta abaixo.

E eu, em desacordo com o mundo, com a liberdade,
aceito o contágio do trenó,
dos seus estriados braços de prata.

O século poderia ser mais leve que um esquilo,
mais leve que um esquilo no doce arroio.
Metade do céu é usar botas de inverno.


Ossip Mandelstam
in Um ateu no campo, versões de João Rodrigues,
Lisboa, edições pirata, 2000

domingo, 8 de dezembro de 2019

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (III)


MORTE DE UMA ESTAÇÃO


Choveu toda a noite
sobre as memórias do verão.

Ao anoitecer saímos
no meio de um ribombar lúgubre de pedras
e, parados na margem, levantámos as lanternas
para explorar o perigo das pontes.

Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas
ensopadas e pousadas sobre os fios
à espreita de indícios secretos de partida -

e reflectiam-nas na terra
as fontes com os rostos desfeitos.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
2.ª ed. rev. e aumentada,
sel. e trad. de Inês Dias, desenhos de Débora Figueiredo,
e prefácio de José Carlos Soares, Lisboa, Averno, 2019




[ID, Santa Cruz, 12/019]

sábado, 23 de novembro de 2019

B de Biografia - IV b *


Sempre que penso em ti estás a dançar levemente num clima de canela despenteada, ó aroma vagaroso, desordem aérea, mas a memória tem pressa, o sangue tem pressa interna, e antes de pensar tremo, e depois tremo, pelo meio desenvolve-se o pavor de uma beleza maiúscula, o coração corre entre iluminuras rápidas, é uma criança sucessiva nas pautas da musica, assim escrevo uma nação simultânea, desapareces na respiração do teu vestido, entretanto a revelação anuncia-se pelo medo, curvas-te como as aldeias devoradas pela lua, mais tarde sempre que penso em ti estás com um lenço escrito nas duas mãos, e a tua velocidade abranda junto aos espelhos, expandes-te assim lentamente gravada, és uma floresta de silêncios visíveis, sempre que penso penso sempre ao contrário do fim, estás cada vez mais no princípio de ti mesma, então vejo que nesse lugar é o meu começo eterno, quando danças é um corpo rodeando a brancura rodeada ou de novo qualquer coisa criminal entre o cuidado e o espaço, nas linhas puras da solidão arde a cabeça, arde o vento, atrás de ti as imagens assassinas da noite - estrelas: subversão da noite, sempre que penso em ti danço até à ressurreição do tempo.


Herberto Helder, Vocação Animal,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1971

*

sábado, 16 de novembro de 2019

sábado, 9 de novembro de 2019

A de Amor (XXIX)


CONFIAR


Tenho tanta fé em ti. Sinto
que saberei esperar a tua voz
em silêncio, durante séculos
de escuridão.

Tu sabes todos os segredos,
como o sol:
poderias fazer despontar
os gerânios e a flor de laranjeira
no fundo das pedreiras,
das prisões
lendárias.

Tenho tanta fé em ti.  Estou tranquila
como o árabe, que
envolto no seu manto branco
escuta Deus amadurecer-lhe
a cevada à volta da casa.


Antonia Pozzi, Morte de uma Estação,
2.ª ed. rev. e aumentada, sel. e trad. de Inês Dias,
desenhos de Débora Figueiredo, prefácio de José Carlos Soares
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2019



sexta-feira, 1 de novembro de 2019

R de Revisões da matéria dada - VII




BLANCHE - [...] Il ne restait rien, sauf...

LA MEXICAINE - Flores...

BLANCHE - Sauf la mort... J'étais assise et la mort assise en face, où vous êtes. On n'osait même pas nier sa présence...

LA MEXICAINE - Flores para los muertos... Flores...

BLANCHE - La mort d'un côté, le désir de l'autre.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

T de Tratado de Pedagogia (LXX)




João Miguel Fernandes Jorge, Sob Sobre Voz / Porto Batel,
2.ª ed., Lisboa: Presença, 1987



sábado, 12 de outubro de 2019

M de Mesa de Amigos (V)


AOS AMIGOS


Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.

De paixão.


Herberto Helder

domingo, 29 de setembro de 2019

M de Música para os meus olhos (XXXVIII)


NÃO IMPRECISO, INCOMPLETO


Sentado à mesa,
parto o pão com as mãos

e a toalha
enche-se de migalhas,
como se algo nesse gesto escapasse ao próprio gesto.

Há sempre perda:
                             até mesmo agora
uma parte de mim não me pertence.

Lá fora
também se esfarela o dia:

cada floco de neve é uma trégua.


Josep M. Rodríguez
in A Caixa Negra,
trad. de Manuel de Freitas, Lisboa, Averno, 2009




[Detalhe de Stefano di Giovanni Sassetta, "A Viagem dos Reis Magos", c. 1433-1435]


XXIX


Terra e céu. O cavalo negro à beira do rio
gelado. O pão que Märta cortou, em Luz de
Inverno, esboroa-se em duas partes
à semelhança das duas igrejas quase desertas
nas planícies de Upsala - Nosso Senhor
Jesus Cristo na noite em que foi traído

A imagem é um campo de neve: o que nos
abandona não se une às pedras ao silêncio de
deus
ao latim, que por um momento emerge na sua nudez de
língua viva
há coisas pelo meio - distância ecos obscuridade


João Miguel Fernandes Jorge
in João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Pinheiro, Oferenda,
Porto: Modo de Ler, 2012

domingo, 22 de setembro de 2019

P de (The) Privacy of Rain - XXIX b


WORKING IN THE RAIN


My father loved more than anything to
work outside in wet weather. Beginning
at daylight he'd go out in dripping brush
to mow or pull weeds for hog and chickens.
First his shoulders got damp and the drops from
his hat ran down his back. When even his
armpits were soaked he came in to dry out
by the fire, making coffee, read a little.
But if the rain continued he'd soon be
restless, and go out to sharpen tools in
the shed or carry wood from the pile,
then open up a puddle to the drain,
working by steps back into the downpour.
I thought he sought the privacy of rain,
the one time no one was likely to be
out and he was left to the intimacy
of drops touching every leaf and tree in
the woods and the easy mutterings of
drip and runoff, the shine of pools behind
grass dams. He could not resist the long
ritual
, the companionship and freedom
of falling weather, or even the cold
drenching, the heavy soak and chill of clothes
and sobbing of fingers and sacrifice
of shoes that earned a baking by the fire
and washed fatigue after the wandering
and loneliness in the country of rain.



Robert Morgan





[ID, Santa Cruz | 019]

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

F de Frequências (III)





[ID, 'Conference of the birds', 019
*
Jean Renoir]

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Q de Que a alegria em mim permaneça (III)


O FUTURO OUTRORA



[...]



g.

Livre é o dom das mãos do mundo: a alegria; nunca
saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
que o teu e as suas várias almas conhecem;

Mas para que uma última vez possas dançar
Podemos, sim, podemos pôr aqui o fogo
e a árvore da música:

a vibração do mundo quando não estamos a olhar.


Manuel Gusmão
in Telhados de Vidro n.º6,
Lisboa: Averno, Maio de 2006

sábado, 10 de agosto de 2019

A de Aniversário (VII)


O SORRISO


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


- EUGÉNIO DE ANDRADE



terça-feira, 6 de agosto de 2019

P de "(As) Praias Obscuras" (II)



[ID, Nazaré, 02/08/019]



Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de irmãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda pureza que eu quero lhe dar


- Dolores Durán

sábado, 27 de julho de 2019

F de Fidelidade




Silvina Rodrigues Lopes
- Cão Celeste n.º 1, Lisboa, Abril de 2012

segunda-feira, 22 de julho de 2019

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXVIII


SOROR MARIANA - BEJA 


Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.


- Sophia de Mello Breyner Andresen




[ID, Beja, 12 de Agosto de 2013]

terça-feira, 16 de julho de 2019

V de Vista para um saguão (VII)


SEGREDO


Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


                  MIGUEL TORGA

terça-feira, 9 de julho de 2019

M de Música para os meus olhos - XXXIII b


MENINA CALÇANDO A MEIA
[Estufa-Fria, 1966]


Não te mexas.

O futuro é perder o equilíbrio,
cair até bater no fundo
de uma insónia hora a hora
interrompida para respirar
à superfície da luz.

Não te mexas, ainda.

Não hesites, não assustes o sonho
pousado em teia sobre ti,
não agites as águas.
E talvez a vida se deixe
ficar à margem
com os seus dias armados de pedras.


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa, Averno, 2014



[ID, "Menina calçando a meia", 11/017]

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" - VII b


O trabalho é um dom. O mais das vezes representa uma pena, pois não há nenhum mérito em trabalhar se o trabalho tiver como finalidade servir uma cadeia de lucro. O trabalho, em si mesmo, degrada; não aperfeiçoa o homem. É uma abjecção presumida e um estorvo para a paz. No entanto, o trabalho é um dom. Quando constitui uma glória recatada, uma ciência paciente; quando não significa humilhação, mas sim identidade.


Agustina Bessa-Luís, Crónica da Manhã,
Lisboa, Guimarães Editores, 2015

quinta-feira, 23 de maio de 2019

C de "Celui qui regarde une fenêtre fermée" (V)


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012





[ID, 20/01/017]

domingo, 5 de maio de 2019

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI c




Manuel de Freitas
[Manuel de Freitas | Federica Gullotta, trad. de Roberto Maggiani,
Milão, Edb Edizioni, 2019]

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VI b


GRANDES ARMAZÉNS


Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de chuva,
em tempo de flores,
nas Galerias Lafayette ou Galerias Barbès:
"Mamã, compra-me, por favor, um poema."
Ela era doce, ela era demasiado prática
e comprava-me romances,
os Jules Verne,
os Maupassant e os Dickens.
Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de amor,
em tempo de medo,
no Monoprix ou na Félix Potin:
"Mamã, compra-me, por favor, o invisível."
Ela era boa, ela era previdente
e comprava-me coisas:
camisolas, trotinetes,
kodaks, bicicletas.
Acabei por me calar e por escrever poemas.
Há muito tempo que a minha mãe morreu,
Jules Verne envelheceu
e as minhas bicicletas já não têm rodas.
Em tempo de cansaço,
em tempo de raiva,
vou ao Supermercado,
beber um conhaque sem gosto.
Quando, mais tarde, for uma criança
num mundo melhor,
direi à minha mãe:
"Mamã, compra-me, por favor, o silêncio."


ALAIN BOSQUET
[Trad. ID]

quarta-feira, 1 de maio de 2019

m, de memória (III)


RUA DOS CAVALEIROS DA ESPORA DOURADA

Para a Ginja


Imagino-os sempre
de olhos cegos,
de quem correu o mar
e aprendeu outra cor
para o mesmo sangue
– gridelém.

Não se apressam.
O coração mais fielmente negro
parou entretanto de bater,
deixando-lhes o peso
do seu embalo nas mãos vazias;
e trazem colada ao corpo
a cal da memória
– raparigas com cabelo de linho,
olhos de esmalte.

Chamam cada onda
pelo seu nome,
agora que todas elas são cinza
de lume familiar.
Tornaram-se veladores,
guiados pelo desatar invisível
da água nessa longa noite
– mortos ainda à procura
do calor de um gato.


Inês Dias
in AA.VV., Sete, volta d' mar, 2018




[Inês Dias, Ponto-Sombra, São Paulo, Corsário-Satã, 2018]

S.T.T.L.


"[...]
Feitos que poovoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, a não ser que exista uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. Que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsistente perderá o mundo? A voz de Macedonio Fernández, a imagem de um cavalo rubro no baldio de Serrano e de Charcas, uma barra de enxofre na gaveta de uma secretária de mogno?"


- JORGE LUIS BORGES,
 (trad. de Fernando Pinto do Amaral)




[ID, Estrela, Maio de 2017]

domingo, 14 de abril de 2019

P de (Po)ética



sexta-feira, 12 de abril de 2019

I de Interseccionismo


12


Há sempre um rapaz triste
em frente a um barco

a água é sempre azul
e sempre fresca

Em que país encontraria
amor e compreensão

em que país
sentiriam
a sua vida e a sua morte

Não respondem as gaivotas
porque voam

Há sempre um rapaz triste
com lágrimas nos olhos
em frente a um barco


António Reis, Poemas Quotidianos,
Lisboa: Portugália, 1967





domingo, 17 de fevereiro de 2019

F de Fazer Fotografia (LI)




Realização: Theodoros Angelopoulos
Música: Eleni Karaindrou

sábado, 9 de fevereiro de 2019

C de Começar o dia com um livro novo (LV)


BARREIRINHA


De repente, pai, entre
o silêncio de duas ondas
ouvimos a única pergunta:

quantas vezes
ainda nadaremos juntos?


Manuel de Freitas, Boal,
com capa de Luís Henriques e desenhos de Luis Manuel Gaspar,
Lisboa, Alambique, 2019



[ID, Barreirinha, 2008]

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

N de "Nous deux encore" (II)


A DOIS PASSOS


Quando penso em ti, essoutra que eu nunca mais 
soube ao certo quem era, ou quem eras, em ti
e em tudo aquilo que me deste, tanto que eu
nunca soube onde colocar e logo vinha o vento
e levava, quando penso em ti e mais em tudo
o que deixaste avariado na minha vida e eram
todos os pobres artefactos dela, da minha vida
quando penso em ti, isto é, quando penso em
nós, nessa coisa insólita e paupérrima que nós 
éramos, ou que nós fomos um dia, é no inferno
é ainda e só e mais uma vez no inferno que eu
penso - esse tempo esse calor esse frio essa espera
insuportável. É no inferno que penso, mas devo
reconhecer, em abono da verdade, que não era
no inferno que nós estávamos, era a dois passos
dele e se queres mesmo saber era agradável
pela boa e simples razão de que não havia mais
nada, era intensa e insuportavelmente agradável
Faltava um pouco o ar, é certo, mas quem é que 
se ia importar com uma coisa dessas, havia um calor
que nos enregelava os ossos, havia um frio que nos
aquecia. Era a dois passos do inferno - estava-se bem. 


Rui Caeiro, "Do inferno - cinco aproximações"
in Telhados de Vidro n.12,
Lisboa: Averno, Maio 2009

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

H de Humanidade (V)


[...]
Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.


Albert Camus, O Mito de Sísifo,
trad. Urbano Tavares Rodrigues,
Lisboa: Livros do Brasil, s/d




[Emile Savitry, "Alberto Giacometti dans son atelier", c.1946]

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

L de Lunário


II

Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré. Igual a si mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio).

Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente 'pardonner'.

Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.


Manuel de Freitas, Pedacinhos de ossos,
Lisboa: Averno, 2012




[ID | 21/01/019]

P de Prazeres


A TIA JEANNETTE


Ela lia a borra do café
e dava o dinheiro aos cegos.
O resplendor da janela
atravessava-lhe a escassa cabeleira
até alcançar a demi-tasse que a mão segurava.

"Vejo tormenta", disse um dia.
Não sei se falava de mim.

A minha mãe encerrava a dor nos livros. E Jeannette,
que trazia no nome a sua sina, preferia a leitura do café.

Todas as tardes na sua casa a fila de mentes desesperadas:
que uma viagem, que a amante, que a morte,
um encontro, qualquer coisa
que tornasse extraordinária a sua vida simples.

Ela, Jeannette, era a essência imperfeita do amor,
cega entre cegos velava a tormenta. 

"Escreve tudo", disse-lhe, "escreve tudo o que vês."
Nunca me ouviu, ausente,
sob o esfumado da lua. 


Jeannette Lozano
in Los momentos del agua, Barcelona: Ediciones Polígrafa, 2006
[Trad. ID]






[Henri Fantin-Latour]

sábado, 19 de janeiro de 2019

S de Sense of Snow (XV)


"[...]
The glass of the window was covered with mist, and I started writing words. Moor. Heather. Snowdrop. I needed those words to feel safe.
[...]"

Ana Teresa Pereira, Fugue States,
London, Vanguard Editions, 2018



 


[ID, Vale | 01/019]

Começar o dia com um livro novo (XLV)


A CADA DIA


A cada dia a sua descoberta: a luz
acesa pra se ver a côr dos sons.

[...]

A cada dia o seu poema de viver:
ver o Anjo da morte e não morrer.


António Barahona, Ocarina (Terceiro Tômo da Suma Poética),
com capa de Andrea Martha (Mumtazz) e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2016





[ID, 'Aubade', 2013]