domingo, 12 de julho de 2020

F de Flor Suficiente (XXIII)


"[...]
Mas há dias encontrei, por acaso, um nenúfar branco, e a estação pela qual esperava chegou finalmente. É o símbolo da pureza. Nasce tão belo e puro perante os nossos olhos, e tão docemente perfumado, como se pretendesse mostrar-nos a pureza e doçura que podem brotar do lodo e do esterco da terra. [...]
A escravatura e o servilismo nunca produziram anualmente flores perfumadas para encantar os sentidos dos homens, pois não têm vida real: são apenas decadência e morte, desagradáveis para qualquer nariz saudável. Não nos queixamos de que estejam vivos, mas sim de que não sejam enterrados. Deixem que os vivos os enterrem até eles servem para estrume."


Henry David Thoreau, "A Escravatura no Massachusetts",
A Desobediênia Civil e Outros Ensaios, trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2017




[ID | Lisboa | Junho 018]

L de "Les yeux du chat" (IV)




EUGÉNIO DE ANDRADE

terça-feira, 7 de julho de 2020

sábado, 4 de julho de 2020

A de "A propósito de andorinhas" (X)



Takahashi Shôtei, 'Village with Japanese Yellow Rose', b. 1916

S de Solidão (ou C de Comunidade) LXIX




Tonino Guerra, Histórias para uma noite de calmaria,
trad. de Mário Rui de Oliveira, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002

sexta-feira, 3 de julho de 2020

C de Complicadíssima Teia



Le Journal de Jules Renard lu par Fred
[1988]


*



[ID | Madeira, 12/019]

quarta-feira, 1 de julho de 2020

B de Boal


A ILHA


para a Ângela


A ilha era deserta e o mar com medo
de tanta solidão já te sonhava:
ia em vento chamar-te para longe
e longamente em espuma te esperava.

À cinza dos rochedos atirava
na grande madrugada adormecida,
já saudosos de ti, os braços de água,
sem ter acontecido a tua vida.

Sim, meu amor, antes de Zarco vir
provar o sumo e o travo à solidão,
no litoral de pedra pressentida
o mar imaginava esta canção.

E as lúcidas gaivotas desse tempo
talhavam com um voo o teu amor:
o início de lava e sal que deixa
(talvez) neste poema algum esplendor (1).

_____

(1) A ilha hoje é um paraíso inglês
     de orquídeas e renques orvalhados:
     mister X e a cana do açúcar
     mister Y, bancos, luz, bordados.

     Ó Cesário, pudesses tu voltar
     e deste cais onde não há varinas
     ver os garotos na água a implorar
     (sir, one penny) o oiro das neblinas.


CARLOS DE OLIVEIRA




[ID | S. Martinho, 12/019]

sexta-feira, 26 de junho de 2020

T de Tratado de Pedagogia - LXII


Outro dia reli o romance de Thomas Mann, A Montanha Mágica. Este livro encena uma doença que eu conheci muito bem: a tuberculose; através da leitura, reunia na minha consciência três momentos  dessa doença: o momento da anedota, que se passa antes da guerra de 1914, o momento da minha própria doença, por volta de 1942 e o momento actual, em que a moléstia, vencida pela quimioterapia, já não tem a mesma gravidade que tinha antigamente. Ora a tuberculose que vivi é muito pouco parecida com a tuberculose da Montanha Mágica: os dois momentos confundiam-se, igualmente afastados do meu presente. Apercebi-me então com espanto (só as evidências podem espantar) que o meu próprio corpo era histórico. Em certo sentido o meu corpo é contemporâneo de Hans Castorp, o herói da Montanha Mágica; o meu corpo, que ainda não tinha nascido, tinha já vinte anos em 1907, o ano em que Hans penetrou e se instalou na "região do alto"; o meu corpo é bastante mais velho do que eu, como se nós conservássemos sempre  a idade dos medos sociais por que passámos ocasionalmente. Se, afinal, quero viver, devo esquecer que o meu corpo é histórico e devo alimentar a ilusão de que sou contemporâneo dos jovens corpos presentes e não do meu corpo passado.  Numa palavra, devo renascer periodicamente, tornar-me mais jovem do que sou. [...] Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas surge em seguida uma outra em que se ensina o que se não sabe: a isso se chama procurar.


Roland Barthes, Lição
trad. Ana Mafalda Leite, Lisboa: Edições 70, 1988

domingo, 21 de junho de 2020

L de "Les yeux du chat" (III)


8 de Novembro de 1981


Morte de Branca. 
Mal posso estar, mal posso viver no silêncio que a morte de Branca produz; mal a deixo aproximar-se em imagem, só tenho lágrimas. Quem era o ser que evoluía pelos armazéns e pelos sítios escondidos, aparecendo e desaparecendo com absoluta confiança em nós? Lembro-me dela sobre o parapeito da janela da casa de Jodoigne, por detrás da forsythia; lembro-me dela em toda a parte, na sua imobilidade branca, a recuar e a avançar sobre os meus pés com os sorrisos diferentes dos seus olhos, pois um era verde e outro azul. Mas são só palavras para o nada, estas que eu escrevo agora e sempre. 
Com Branca havia outra realidade, e por detrás dela estava anunciada uma alegria que eu desconheço. Sua morte súbita tornou preciosos para mim todos os seres de Herbais, incluindo eu própria. Vejo-a sempre sorrir numa clarividência total, e não vou continuar agora porque, neste momento, já procuro a escrita. Só sei dizer que ela, escapando da altura inacessível de um telhado, veio para nós de forma espontânea. Se ela pudesse voltar a vir, se eu pudesse voltar a recebê-la, e tê-la a viver connosco no âmbito do jardim, dos armazéns, do espaço da casa. Mas acabou definitivamente com esta forma. 
Gostava de ter uma recordação palpável de Branca. Mas qual?
Branca não possuía nada. 
Tinha-a feito figura para um livro; hoje ela é uma sombra de alegria.

[...]




Maria Gabriela Llansol, Herbais foi de silêncio - Livro de Horas VI,
Porto, Assírio & Alvim, 2018

sexta-feira, 19 de junho de 2020

T de Tratado de Pedagogia (LIII)


NUMA SALA DE AULA


Falando de poesia, carregando com os livros
às braçadas até à mesa onde as cabeças
se curvam ou olham para cima, escutando, lendo em voz alta,
falando de consoantes, elisões,
cativas do como, esquecidas do porquê:
olho para a tua cara, Jude,
que não franze o sobrolho nem acena que sim,
opaca na obliquidade das partículas de pó sobre a mesa:
uma presença como uma pedra, se uma pedra pensasse
O que não posso dizer, sou eu. Para isso vim.


Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem,
Lisboa: Cotovia, 2008

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Q de Quarentena (XIV)




Paulo da Costa Domingos, Ilícito,
Lisboa, Averno, 2020

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A de "A propósito de andorinhas" (IX)





Ao fim da tarde, o canto
do pequeno pássaro e o vento diziam
a mesma coisa: não deixes o incêndio
do deserto invadir-te o coração.
Sem que tu o suspeites, sequer.

- EUGÉNIO DE ANDRADE

F de Fazer Fotografia (XXXIX)


POEMA


Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.


Mário Cesariny, Pena Capital

domingo, 31 de maio de 2020

B de Biorritmo (CLXI)


domingo, 24 de maio de 2020

N de "Nous deux encore" (IX)




MARIA VELHO DA COSTA

S de Santa Cruz (III)


PEVIDE



     Estava sentada à soleira das vossas portas com o coração prevenido mas manso. Vendia sentada à borda dos vossos bancos. O dentro dos dedos estava cheio de sal fino, uma sequeira. Lambia-os de relance, eu não queria ofender, sentada à porta dos vossos bancos. Sabiam ao torrado das sementes, a forno. Enrolava os pequenos dinheiros por tamanhos, como era de vosso uso. Estava sentada às vossas sombras sem nada de necessário para trocar. E via:
     O desnome das caras passeantes, o desavindo andar, as portas de redondo vidro, cromos, as pernas a galgar ao alto do meu ver, riquezas, bons cheiros, girações, o apertado coração de pressas e os que vagueavam até mim, de graça: o sal atrai e aquele estar tão queda, o funil de jornal, minhas sementes.
     Tinha eu então o coração como um trapo: nada me chegava. Porque nada me chegava talvez porque eu quisesse o pouco. O bom de algum bem quieto e poder estar ao sol. Via as ervas crescerem e revirem, nas montras, ao lado da bulha das buzinas. Que manso pasmo, as lindas folhas onde, à beira, nada parava. Fazia frio e seco, molhado outras, os anos, tudo a passar. Os que diziam “Vem” tinham outro ofício a dar-me – mulherar aos dias. Eu não tinha ofício a receber. Diziam “Pois quê?” e só eu podia como não, isso não. Acho que passaram os tempos todos e eu não me fazia mesmo velha. Não me fazia nada, de nada feita. A pouco e pouco, ainda perguntava, fui não estando à espera. Porque estando à espera, não fazia nada que não fosse da espera e ela gasta-se. Há um podre na coisa quieta sem usos que vem do dentro para o fora. Ia saindo isso e formando uma pequena nuvem de enxofre no meu regaço, salobrava. Não me parecia bem. Foi tudo passando mais de largo. Como eu era frouxa assim empodrecendo do que não ficava, não chegava, sentada à soleira das vossas pedra-mármore, balcoarias, janelos de papel-moeda, deposita. De só querer o pouco, o demenos. O só bom. O não buscar.
     Foi então que vieram levar-me porque eu não tinha roupas de direito, nomes, licença de cobrar, fazer levantamentos, vendilhona era daquele tempo.
     Mas posso fazer renda, digam. Voltar e fazer renda à soleira das vossas trocas? Malha de malha de malha até que nem já veja e então volte devida a este fora parte onde me têm? Eu só queria estar perto do vosso buliçar de ofícios, vender o verem da minha mansidão. Que medo faz paciência pobre, semente gôra seca, outra sede. Medo de malmorrer, não ter aonde. Mas aqui.


Maria Velho da Costa, Desescritas,
Porto: Afrontamento, 1973

sábado, 23 de maio de 2020

A de Aniversário (XV)


FIDELIDADE


Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.


- JORGE DE SENA




[ID, Faro | 016]

segunda-feira, 18 de maio de 2020

C de "celui qui regarde une fenêtre fermée" (II)


JANELA BAIXA


Lembra-me a janela do último
filme de Béla Tarr, mas
agora somos muitos – e a realidade
(desculpem o termo) faz-se de cores
fortes, que o calor sublinha ou desfoca,
à revelia de quaisquer intenções estéticas.

Apaixonei-me logo por este rectângulo
onde fulgura um horizonte dourado,
cruamente medido pela rotina de rebanhos
ovinos, caprinos ou humanos – semelhantes
no destino, mas desiguais no esplendor.

Ao lado, entre a ruína de dois moinhos,
pessoas vivem ou morrem
dos seus ordeiros rebanhos, da música
que emoldura tardes felizmente iguais,
debaixo de um sol inclemente.

Esta janela, afinal, não precisa de comparações.
Durará enquanto houver silêncio.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt
Lisboa, Averno, 2014





[Beja, Agosto 013]

domingo, 17 de maio de 2020

B de Biorritmo (CLX)




[...]
I've got those Monday blues
Straight through Sunday blues

[...]

quinta-feira, 14 de maio de 2020

B de Biorritmo (CLIX)


[...]
Ah, on a day
As cold
And gray
As today
[...]



quarta-feira, 13 de maio de 2020

Q de Quarentena (XIII)


JOSEF SUDEK




"As últimas rosas" 
(1956)

*


"Labirinto no meu atelier" 
(1960)

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Q de Quarentena (XII)




Carlos de Oliveira, Trabalho Poético,
3.ª ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1998

domingo, 10 de maio de 2020

Q de Quarentena (XI)


É na axila que um pássaro se aninha
e toma carne e febre,
cantando o trabalho paciente
do sonho e da melancolia.
Pássaro num outro espaço,
para onde nos vão desejos e poemas...
Eu te saúdo, pássaro de branca neve e papoila viva,
ao pé do bebedouro e do espinheiro.
Pássaro: casa pequena de ossos
espalhados no alvoroço de ventos e marés...


Jacques Izoard, Jardins Mínimos e outros poemas,
tradução colectiva (Mateus, Maio de 1993) revista e apresentada por Fernando Pinto do Amaral,
Lisboa, Quetzal, 1994





Philip Evergood, "Lily and the sparrows", 1939

sábado, 9 de maio de 2020

Q de Quarentena (X)


INTERMITÊNCIAS


O autocarro afasta-se,
e a praça é uma aranha de seis patas.

Tal como esta paisagem,
a minha ideia de mim próprio foi mudando:
não posso estar completamente satisfeito.

Sei que parece um lugar-comum,
mas os lugares-comuns
                                  - como muros
de ambos os lados da estrada -
dão-nos segurança,
                            delimitam-nos.

Parar é prosseguir a caminhada.
Arbusto
            ou papoila,
também na margem existe vida.


Josep M. Rodríguez, A Caixa Negra,
trad. Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Q de Quarentena (IX)




[ID, 'Natureza interior', 03/04/012]

Q de Quarentena (VIII)


De quando em quando, alguém escreve diante de uma janela que dá para outra janela. Vive depois da deflagração e da rasura, e às vezes, ao tocar no rosto, percebe que as cinzas e o vento o escavaram até o deixarem desabitado. Escreve como quem apanha as palavras do chão e lhes tira o pó e o cotão, ao erguê-las na sua palma. Endireita-lhes os cantos dobrados e, ao observá-las com atenção, receia que já não lhe sirvam para nada. Mas não tem outras, porque vive num quarto de hotel arrasado e silencioso, e neste livro começou a caminhar no sentido contrário ao horizonte; a contar a vida de novo, embora desta vez não haja ninguém em frente para anuir com exclamações moídas. Contar a vida de um modo vacilante, precário, coxo e repondo as palavras espalhadas pelos escombros sem luz nem certezas. É nisto que consiste escrever: é esse café que vamos tomar depois de estarmos sem falar e que alguém propõe com pouca convicção, “fala-me de ti, conta-me a tua vida” e o outro, ao começar, só encontra um olhar no espelho que está atrás do balcão.


José Ángel Cilleruelo
in Cão Celeste n.º3, 
trad. Inês Dias, Lisboa, Maio de 2013

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Q de Quarentena (VII)




Edouard Boubat
[1978]

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Q de Quarentena (VI)




Caspar David Friedrich | Christian Friedrich, "A mulher com a teia de aranha", 1803

segunda-feira, 4 de maio de 2020

B de "[...] but some of us are looking at the stars." c




EUGÉNIO DE ANDRADE

domingo, 3 de maio de 2020

ALEGRIA MORTÍFERA


Ó morte, vem a meus braços,
já que não posso morrer!

AFONSO DUARTE


     A morte rondava, rotatita, ritual e ríspida:
     comia os adjectivos todos, não perdoava a eternidade dos momentos, levara a mãe e alguns dos seus melhores amigos.
     A morte respirava perto, descalça, a dansar sobre cacos de vidros.

§

     A morte punha a nu a sua castidade toda.

§

     Dormiam como dois irmãos, unidos pelo mesmo sangue, que circulava através da ternura.

§

     Esperavam um pelo outro, enquanto dormiam.

§

     Amava sem medida, sem deixar de ser perverso: andava pelo verso a verificar o som do vinho a cair no copo,
     a vibração do eco colorido e do sabor,
     cansado do cansaço, o coração cheio de musgo,
     emparedado entre a paixão e o remorso.


24.II.96


António Barahona, Maçãs de Espelho,
Lisboa: Língua Morta, 2012

quarta-feira, 29 de abril de 2020

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXXVIII)


V

A um sol de oiro,
cai em golas, das folhas,
a manhã deslumbrada.

Vai o menino
atirar pedras às águas
(leva os bolsos cheios
de calhaus colhidos
nas furnas da pedreira).

[...]


- CARLOS DE OLIVEIRA





[ID | S. Miguel | 08/012]

domingo, 26 de abril de 2020

Q de Quarentena (V)


INSTRUÇÕES PARA DAR CORDA AO RELÓGIO


     Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
     Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada. 


Julio Cortázar, Histórias de cronópios e famas,
trad. de Alfacinha da Silva,
Lisboa, Estampa, 1973




sábado, 18 de abril de 2020

N de "Nous deux encore" (VIII)


Sem mo dizeres - compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros... Melhor: compreendi que a ternura era o melhor da vida. O resto não vale nada. [...] O importante é a comunicação de alma para alma. A mão que aperta a nossa mão, o olhar húmido que procura o nosso olhar, o sorriso que nos acolhe, desvendam-nos o mundo. Às vezes é um nada que nos faz reflectir, é o momento, é uma figura que nos entra pela porta dentro e de que nos sentimos logo irmãos...


Raul Brandão, "O Silêncio e o Lume"
(Dezembro, 1924)

sexta-feira, 10 de abril de 2020

P de Poética (LXI)


Julgavas, então, que a poesia era um discurso
de palavras em sentido? Sei quanto a musa aprecia
glória, poder e uniforme, quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida, afinal, anda lá fora, antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna, comparada ao arbusto
que, mal tocada a haste, se desvai em fumo.

Por isso eu fico lendo as crónicas, as lendas,
o jornal que, bem ou mal, cruza as palavras com o tempo,
e contudo! quando o lábio se engana, solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente, e então se diz: eis
a verdadeira e pura poesia! pois seria, talvez,
somente a tua mão, cobrindo a folha.


- ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE





Edward Burne-Jones
[detalhe]

terça-feira, 7 de abril de 2020

Q de Quarentena (IV)


Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.


José de Almada Negreiros, Poemas,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2005





[ID, Guimarães, 08/013]

domingo, 5 de abril de 2020

Q de Quarentena (III)


"[...]

Passa uma faca sobre a vida. Tudo se apaga. A  tentação de parar ao lado de alguém é esta chuva branda, esta música de infância, testemunho a passar até onde pudermos, até desaparecermos ao longe, atrás dos rios e das montanhas, no vento dos transes dos navios, no clima dos campos de combate, onde já não são sombras quem nos espera, mas uma quarentena, a catedral, o elevador que desce até ao infinito glaciar da vida."


Ernesto Sampaio, As Coisas Naturais,
Lisboa: Averno, 2013

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Q de Quarentena (II)


CHORDS



Birds leave behind
shadows in a nest

so leave your lamp
instrument and book

let us go to a hill
where air grows

I will point out
the absent star

tender rootlets
buried by turf

springs of cloud
rising unsullied

a wind lends its mouth
so that we migth sing

we'll knit our brows
we won't say a word

clouds have haloes
just like the saints

we have black pebbles
where eyes should be

a good memory cures
the scar a loss leaves

radiance may descend
down our bent backs

verily verily I say unto you
great is the abyss
between us
and the light


- ZBIGNIEW HERBERT





[ID | Santarém, 30/03/13]

segunda-feira, 30 de março de 2020

P de Poética (LV)


RONDÓ CAPRICHOSO


Por algum tempo, mesmo
que seja mínimo, as
coisas são perfeitas. A
rosa ganha caule mas
não desabrocha. A faca
brilha no ar mas não
desfere o golpe. Os lábios 
humedecem, antes
de cerrar os dentes.

Por algum tempo uma
criança habita a casa, um
gato aquece ao sol a
sua grata pelagem, um corpo
cansado adormece
no lençol limpo.

Por algum tempo, os insultos
não são proferidos
e os corpos enlaçam-se
apiedados do abismo
entre as próprias imagens.

Por algum tempo acreditamos
em grandes amores e viagens. Depois
consumimos
sucedâneos ou literatura.

Por algum tempo, olhamos
o quadro sem turistas
à frente. Escutamos o virtuose
sem tosses na assistência.

Por algum tempo, descobre-se
a cura. O amor regressa. A teoria
convence. A fé ressuscita. Acreditamos
em Únicos e Pátrias.

Até que esse algum tempo
perfeito e mensurável
em desmedido tempo
se transforma.


Inês Lourenço, Logros Consentidos,
Lisboa: &etc, 2005





[ID, São Miguel, 06/015]

domingo, 29 de março de 2020

R de Revisões da matéria dada (II)




Marlon Brando e Eva Marie Saint
em
Há Lodo no Cais (1954), de Elia Kazan

quinta-feira, 26 de março de 2020

L de (A) Luz da Sombra (XLIII)


REMEMBER


Abri o rádio de pilhas pirilampos 
a música da feira de Paço d'Arcos
mudámos entre duas cervejas com
açorda de marisco atrás da camioneta
os móveis empilhados torre de Pisa
que havia no escritório do meu pai
na estrada marginal às gargalhadas
A casa era muito dividida
com perspectivas dúbias com djinns
que corriam atrás dos cães
pilhas de pirilampos empilhados
os móveis quase a cair para
o mar iluminado pelos teus dentes
onde nascia o Sol quando te beijava


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015




[ID, 'Memória da luz das 7h30', 05/012]

domingo, 22 de março de 2020

P de Poética (LVIII)


UM DESTINO


Luzes e cabanas
nas encruzilhadas
chamaram os companheiros.

Para ti, resta
esta pálida estrada na noite
que o vento te revela:
para a tua sede
a água das torrentes que caem,
para a pessoa exausta
a erva dos pastos que se renova
no espaço de um sono.

Absorto no seu próprio fogo
cada ser humano
se abandona a uma única vida.

Mas no teu
lento andar de rio que não encontra foz,
a prateada luz de infinitas
vidas - das estrelas livres
treme agora:

e se nenhuma porta
se abre para o teu cansaço,
se te é
devolvido a cada passo o peso do teu rosto,
se é tua
esta, mais do que dor,
alegria de continuar sozinha
pelo límpido deserto dos teus montes

aceita então
que és poeta.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação, 2.ª ed. rev. e aumentada,
com sel. e trad. de Inês Dias, prefácio de José Carlos Soares, 
desenhos de Débora Figueiredo e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa,  Averno, 2019

sábado, 21 de março de 2020

M de "My house, I say" (II)




A minha casa é lá longe onde nascem os lobos
Nessa terra dourada onde germinam as plantas ardentes do amor
Com as raízes flutuando entre as espumas da memória
As janelas abrem-se e mostram paisagens arrebatadoras à beira do
abismo
Ou fecham-se de súbito formando a erosão das lágrimas nas planícies melancólicas onde vivem os mortos
As escadas precipitam-se como feras atrás dos meus passos
Afundam-se na eternidade e sobem até às maiores alturas
Atrás das cortinas velhas múmias de prata lavrada pelos costumes
errantes
Iluminam com uma claridade lunar
As tapeçarias transparentes das carícias
A saudades desesperadas a violência da despedida
O fulgor dos países perdidos e das cabeças à deriva no mar de outros
anos
Eu espero-te até que a casa se suma lentamente à flor da terra




Ernesto Sampaio, Fernanda,
Lisboa: Fenda, 2000

[Fotografias: ID, 02/014]

T de Tempo Sem Tempo (III)


EMBRIAGAI-VOS


     É preciso estar sempre bêbado. Tudo reside nisso: eis a questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que esmaga os vosso ombros e vos inclina para a terra, precisais embriagar-vos sem tréguas.
     Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa vontade. Mas embriagai-vos.
     E se às vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na morna solidão do vosso quarto, acordardes, a bebedeira leve ou curada, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “São horas de embriagar-se! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude,à vossa vontade.”


Charles Baudelaire, O Spleen de Paris,
trad. Jorge Fazenda Lourenço,
Lisboa: Relógio D'Água, 2007




[Mathieu Kassovitz, O Ódio, 1995]

terça-feira, 17 de março de 2020

T de "The days grow short..."


MUDANÇA DE ESTAÇÃO


para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio - uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda dos noctilucos
estendida nesta mudança de estação


- AL BERTO

domingo, 15 de março de 2020

P de "Postais do fim do mundo" (II)


VERTIGENS OU CONTEMPLAÇÃO DE ALGO QUE TERMINA


Este lilás desfolha-se.
De si mesmo cai
e esconde a sua antiga sombra.
Hei-de morrer de coisas assim. 


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética,
trad. de Fernando Pinto do Amaral,
Lisboa, Tinta da China, 2020




[ID, 'Postais do fim do mundo', 05/04/2013]

U de "Uma promessa do deserto" (II)


[...] 
Reconhecemo-nos, desaparecemo-nos, amigo a quem eu mais queria.
Eu, assistindo ao meu nascimento. Eu, à minha morte.
E eu caminharia por todos os desertos deste mundo e mesmo morta continuaria a procurar-te, a ti, que foste o lugar do amor.


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética,
trad. de Fernando Pinto do Amaral,
Lisboa, Tinta da China, 2020


*


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto,
Lisboa, Moraes Editores, 1962

domingo, 8 de março de 2020

W de Women's Studies (III)


METADE PÁSSARO


A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


sábado, 7 de março de 2020

m, de memória (II)


ARTE POÉTICA


Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.


- ANTÓNIO RAMOS ROSA




[Andrei Tarkovsky, O Espelho, 1975]

quinta-feira, 5 de março de 2020

A de "A propósito de andorinhas" (VIII)




António Nobre, Só,
2.ª ed. rev. e aumentada, Lisboa: Guillard, Aillaud e C.ª, 1898

sábado, 29 de fevereiro de 2020

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (VIII)


ESTRELA


Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.


CARLOS DE OLIVEIRA




[Fotograma de In the Mood for Love, de Wong Kar-Wai]

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

I de Intimidade - c




Leonard Cohen, Poemas e Canções II,
com tradução de Inês Dias,
Lisboa: Relógio D'Água, 2019

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

S de Santa Cruz - XI c




[Uma poética - ID / 2011]

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLV)




[A epígrafe de um livro de George Steiner.]

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O de "Onde se lê 'gato'..." (XVI)


Diário de um Barnabé...

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

S de "Sei de um rio" (II)




[ID, 'Sei de um rio', Julho de 2016]

C de Coração arquivista (III)


CABEÇA, CORAÇÃO


O coração chora.
A cabeça tenta ajudar o coração.
A cabeça diz ao coração como são as coisas, outra vez:
Vais perder quem amas. Todos se irão. Até a Terra se irá, algum dia.
O coração sente-se melhor, então.
Mas as palavras de cabeça não duram muito nos ouvidos do coração.
É tudo muito novo para o coração.
Eu quero-os de volta, diz o coração.
A cabeça é tudo o que o coração tem.
Ajuda, cabeça. Ajuda o coração.


in Contos Completos, trad. Manuel Resende, Lisboa: Relógio D'Água, 2012

domingo, 19 de janeiro de 2020

M de "Me, Myself and I" (II)



Hans Holbein the Younger, 'A lady with a squirrel and a starling', 1526-28 
[National Gallery, London]



[...]
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das núvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

[...]


Herberto Helder, O Amor em Visita,
Lisboa: Contraponto, 1958




Frida Khalo

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

C de Cicatriz (XI)


"[...]
devo sentir nostalgia? de quantas cicatrizes precisa a nostalgia?"

Pablo García Casado




[Fevereiro 013]

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O de Outono (XI)


NÃO ME MOSTRES NENHUM NORTE


Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinhas rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.


A. M. Pires Cabral, Cobra-d'água,
Lisboa: Cotovia, 2011




Origami de Outono
Vila Real / 2012

domingo, 5 de janeiro de 2020

F de "(Une) Famille d'Arbres" (VI)






E LUCEVAN LE STELLE


Para o meu avô,

os verdes na banca eram o real,
sem regresso ou poesia,
e a expansão acabara de novo
ali, no Cais da Ribeira,
quando a amada partira,
levando-lhe no nome a liberdade.

A tristeza tinha horas tão marcadas
que lhe tingiam os dedos,
portões que só se abriam
para as estrelas sempre acordadas
da mesma música: e nunca amei tanto
a vida, chorava em repetição.

Enquanto a felicidade boiava na praia,
à distância de um dia de verão
e de uma corda segura 
por quem não sabia sequer nadar.


Inês Dias, In Situ,
Lisboa: Língua Morta, 2012

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

M de Mesa de Amigos - X b




Paul Klee
"Fairy Tales" (1920) | "Paul Klee, "Nächtliches Fest" (1921)