sexta-feira, 4 de novembro de 2022

C de Começar o dia com um livro novo (LIV)


aos pés dos pássaros
semear migalhas
sem explicação:

(oração pequenina)

fazer encontrar
grão último
sentido


Ricardo Tiago Moura, Cruzes,
com capa de Daniela Gomes, Lisboa, Alambique, 2018




[ID, Madrid, Agosto 015]



"Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas..."

JORGE DE SENA

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

V de Vida (VII)


DESTINO


E para te orientares neste
labirinto dispões do mapa de uma
cidade onde ainda não estiveste,
uma bússola que indica a direcção que
sem ela tomarias, duas chaves que parecem 
iguais, um relógio que se atrasa vinte e cinco 
horas por dia, a propriedade
associativa, provisões que dão
fome, a religião que escolheres,
um resumo dos teus próximos sonhos,
visões que dão sede, a saída ali 
em frente, um recorte de
jornal que conta como
não pudeste sair. 


Mariano Peyrou, O Discurso Opcional Obrigatório,
trad. Manuel de Freitas, Lisboa: Averno, 2009





[ID, 'O discurso opcional obrigatório', 05/015]

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

S de Sense of Snow (XVI)




Andrei Tarkovsky, O Espelho, 1974


*




Andrei Tarkovsky, Solaris, 1972


*




Pieter Brueghel, o Velho, "Os caçadores na neve" (pormenor), 1565


*




Claire Keegan, Pequenas Coisas como Estas
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2022

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

S de Solidão (ou C de Comunidade ) XLIX



[ID, Santa Cruz, Setembro 012]



ANUNCIAÇÃO


Não tenho palavras, nem entendo
formas visíveis.
Elas vêm concretas como aragem
a que dou nome.

Tenho-me, eis tudo. Acontece.
Há uma folha que desce,
que sobrenada, que desce,
que submerge no ar e depois desce
longe de mim no ar fundo.

Nós não somos deste mundo.

Fresca e limpa como a chuva,
ouço a tua voz cantada
descer do céu ao silêncio
que vem da terra molhada.

Nós não somos deste mundo.

Ouso dizer-te o meu nome
como quem se atreve a dar-te
a minha imagem.

Nós não somos deste mundo.

O que não vejo, entendo.
Pelos rios do meu sangue,
atrevo-me.

Anoitecendo, a vida recomeça.

Dou-me em palavras
que ressuscitam.
Algures no céu amanhece.

Só, intranquilo, pela vereda, desce
o nómada meu amigo.


Ruy Cinatti, 75 Poemas,
org. de Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, 12 de Outubro de 2014




L de Ler (XI)


"Estamos todos doentes, 
e só sabemos ler os livros que falam da nossa doença."


Jean Cocteau, La difficulté d'être,
Paris: Éditions du Rocher, 1989

domingo, 16 de outubro de 2022

L de Lar (V) - quase P de Primavera (XIV)





ÚLTIMO SONHO


A minha avó Isabel
ouvia em sonhos rebanhos de ovelhas
passando junto à janela.

Todas as noites, em plena cidade,
as ovelhas da sua infância visitavam-na.
Jurava que ouvia os suaves balidos,
o delicado tilintar dos chocalhos
misturando-se ao rumor de patas pisando o asfalto.

A minha avó Isabel
recebia a visita dos sons da sua meninice aos noventa anos.
Para ela, a cidade povoava-se de ovelhas invisíveis
pastando entre as recordações da sua infância na aldeia
sem electricidade, sem água corrente, sem automóveis.

Quando um som, um cheiro, uma imagem ou uma voz
encontram o seu caminho de regresso até nós,
não há nada mais verdadeiro do que essa presença
vívida, intensa, verdadeira.

Talvez no final da nossa vida
nos permitam recordar o essencial,
o mais belo que tenhamos vivido.

Se é verdade que a nossa memória
nos concede um último desejo antes dessa viagem
em forma de ilusão com aspecto de realidade,
de alucinação esplêndida como um céu de verão,
com que som adormecerá cada um de nós?


María Paz Moreno
[Trad. ID]




[08/12/2010]

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Q de Que a alegria em mim permaneça (IX)

 

"Houve um dia da minha infância em que eu disse: se a música não me for ensinada hoje, esquecê-la-ei para sempre.

Houve um dia de cinquenta anos em que eu disse: hoje, não penses em mais nada. Só é preciso manter a claridade da tua vida."


Maria Gabriela Llansol, A Palavra Imediata. Livro de Horas IV,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2014

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

T de Tempo sem Tempo (II)

On ne s'habitue pas vite à la mort des autres.
Comme ce sera long, quand il faudra s'habituer à la nôtre !
Jules Renard
in Le Journal de Jules Renard lu par Fred

T de "The past is a foreign country"

 



[ID | Verão 022]

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

A de Amor (XXVII)


A PONTE


Se me dizem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e me esperes,
atravessarei a ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e atravessá-la-ei. 


Amalia Bautista, Trevo,
trad. de Inês Dias, capa de Luís Henriques 
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Averno, 2021




sexta-feira, 12 de agosto de 2022

B de Bárbaros


"[...]

P. ¿Considera la amistad efímera?
R. No, la considero frágil. Igual que el resto de sentimientos humanos, a excepción de la barbarie.

[...]"


- SEMPÉ entrevistado por Álex Vicente

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

O de "O mar, o mar" (VII)


"[...] estar ao abrigo do fim do amor, 
é a isso que eu chamo felicidade."

MARGUERITE DURAS



[Agatha et les lectures illimitées, 1981]

sábado, 25 de junho de 2022

I de "I'm building a still to slow down the time" (III)

 



Fátima Maldonado, Sem Rasto - poesia reunida
[Averno, 2021]

segunda-feira, 20 de junho de 2022

quinta-feira, 16 de junho de 2022

C de Carrosséis (XVII)


Não foi absolver, foi perdoar,
mas é a mesma coisa. As intenções
do mundo, as condescendências,
tudo concentrado ali, no corpo
aberto. No corpo que me saúda
num dia de festa, que nesse dia
vai à feira comigo, come farturas
e anda comigo de carrossel, me aperta
contra si e depois se arrepende, não
vá eu querer festa todos os dias.


Helder Moura Pereira
in Telhados de Vidro n.º 20, Lisboa, Averno, Setembro de 2015





[ID. 'Modo(s) de voo', 21/12/014]

segunda-feira, 13 de junho de 2022

sexta-feira, 20 de maio de 2022

R de Revisão de texto (ou E de Errata)



[ID | Coimbra, 18/12/011]


*



[ID | Lisboa, 09/01/012]


*



[ID | Mafra, 13/04/022]

domingo, 15 de maio de 2022

E de Efeito borboleta


BORBOLETAS


No centro dos nossos pratos de papas de aveia
Havia uma borboleta azul pintada
E todas as manhãs víamos quem conseguia chegar primeiro à borboleta.
Depois a Avó dizia: «Não comam a pobre borboleta.»
Isso fazia-nos rir.
Ela dizia-o sempre e começávamos sempre a rir.
Parecia uma brincadeirazinha tão terna.
Eu tinha a certeza de que uma bela manhã
As borboletas sairiam a voar dos nossos pratos
Rindo com o mais diminuto riso do mundo
E pousariam na touca da Avó.


- "Três poemas Katherine Mansfield traduzidos por Inês Dias 
com um desenho de Daniela Gomes", in TELHADOS DE VIDRO n.º 21, 
Lisboa, Averno, 2016




[ID | 07/010]

sábado, 14 de maio de 2022

terça-feira, 10 de maio de 2022

C de "(O) começo de um livro..." (IV)


1

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ___ linha, confiança, crédito, tecido.

2

Renunciei a que alguém, um dia, me chame: "Avó Gabriela".
No entanto, tive um devaneio a noite passada. Eu ouvia planger,
De facto e auditivamente, em texto, o latido surdo
De um cão ruivo pronunciando: "Avó Gabriela". Feliz, Trova
Dava-me a pata e eu dei-lhe para a mão o próprio texto
Ainda no seu estado sonoro cénico.
Com a pata sobre o texto, parecia o ícone do quinto evangelista.

3

Ela tinha sempre um olhar __ deixara de se temer a si própria. O anel
Que trazia no caule era mais amplo ainda; o que olhava, de somenos
Importância. Era uma planta de folhas claras. O ruído da cidade
Entrava pela janela. Viera pôr a sua luz à secretária.
Por que viera assustá-la?
Não sei.
Não compreendendo por que luz e ruído se associavam, dia após dia,
"cabra de luz", lhe chamava. Respirar era-lhe evidente difícil.


Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003

sábado, 7 de maio de 2022

M de Museu Imaginário (XXVI)



[Abbas Kiarostami, Cópia Certificada, 2010]



"[...]

Existe-se na arte. Existe-se com a obra de arte. Cada um a seu modo; e segundo o ritmo do mundo que para a obra de arte saberá transportar. Pertence-lhe uma decisão de sentidos que se joga no momento exacto em que "aparece" e em que, com ela, se estabelece confronto. De um modo mais próximo: avançamos para o "objecto" de arte e dele só "tiramos", como resultado momentaneamente final, aquilo que lhe atribuímos, o que nele vimos e o que sobre ele pensámos. Quase sempre, senão sempre, o que para essa obra canalizámos de desdobramento de nós próprios - seus visitantes -, em grau de conhecimento (e também de ignorância) e de uma escala muito ampla de sensibilidade.

[...]"


 João Miguel Fernandes Jorge, "Canovaccio", 
in Telhado de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004




[Antoni Tapiès, "Gran Sábana", 1968]



[Fotograma de Jim Jarmusch, Os Limites do Controlo, 2009]

sexta-feira, 6 de maio de 2022

L de Lar (III)


DE VITA BEATA


En un viejo país ineficiente,
algo así como España entre dos guerras
civiles, en un pueblo junto al mar,
poseer una casa y poca hacienda
y memoria ninguna. No leer,
no sufrir, no escribir, no pagar cuentas,
y vivir como un noble arruinado
entre las ruinas de mi inteligencia.


JAIME GIL DE BIEDMA





[ID, Vale, Abril de 2013]

sexta-feira, 29 de abril de 2022

D de Dansa


B.LEZA, 2000


Pergunto-me, sem razão,
que diferença existe
entre ausência e voz
- um lamento que não previa.
Ou não já. Não assim, pelo menos.

Só me lembro que dançávamos
(é a minha única definição
de felicidade) e que não voltaremos
a dançar. Assim.
Os táxis, no Conde Barão, fingiam não ver
- mas olhavam todos o moído
esplendor do baile, o vestido negro
que inutilmente te cingia.
Despediam-se, como nós, na
ressaca dum tempo ingrato,

no fulgor da última manhã.
Não ligues ao tchoro, à voz soterrada
por tão ásperos carris. Não ligues
- coração e deserto rimam
numa língua que desconhecemos.


Manuel de Freitas, Teacher Was Here (2009)




[ID, 'Para a Mariana', 05/015]

segunda-feira, 25 de abril de 2022

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXIII)



ID, Entrecampos | 2000
[era antes do Digital]




ID, Rossio | 2012
[era depois dos Telemóveis]

segunda-feira, 21 de março de 2022

     [...]
     Eis o papel da poesia. Ela desvela, no sentido pleno do termo. Ela mostra nuas, sob uma luz que afasta o torpor, as coisas surpreendentes que nos rodeiam e que os nossos sentidos registavam maquinalmente.
     É inútil ir muito longe à procura de objectos e sentimentos bizarros para surpreender o sonhador acordado. É esse o sistema do mau poeta e o que nos acontece com o exotismo.
     Trata-se, sim, de lhe mostrar aquilo sobre o qual o seu coração e os seus olhos deslizam todos os dias, mas sob um ângulo e a uma tal velocidade que lhe pareça vê-lo e comover-se com isso pela primeira vez.
     Eis a única criação permitida à criatura.
     Pois, se é verdade que a multiplicidade de olhares deixa sobre as estátuas uma pátina, os lugares comuns, obras-primas eternas, estão cobertos por uma espessa camada que os torna invisíveis e que esconde a sua beleza.
     Se pegarem num lugar comum, o limparem, o esfregarem, o iluminarem de maneira a que ele recupere a força da juventude e da frescura que tinha na origem, farão o ofício de poeta.
     Tudo o mais é literatura.   

     [...]




Jean Cocteau, Le Secret Professionnel, 1922
[Trad. e fotografia: Inês Dias]

domingo, 20 de março de 2022

I de Infância


LEMBRANÇA DA RIA DE FARO


Dunas atrás da casa
gafanhotos cor de
madeira cardos cor de areia
ao fim da tarde,
barcos na água rósea
onde a cidade, em frente à casa, cai
De madeira caidada a
casa está
sobre a areia, que escurece quando
a maré devagar desce na praia


- GASTÃO CRUZ

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

E de Europa

 


[ID, 'Teacher was here', 07/021]

sábado, 8 de janeiro de 2022

O de "Onde se lê 'gato'..." (XIV)


"[...]
Uma gata sai com a sua ninhada de um canal da levada. Ela é um centro e os seus pequenos gatos irradiam para a luz. Vi um paralelismo com o desenvolvimento das pétalas e sépalas das malvas e sardinheiras de 'Sombras à volta de um centro' (2003, Serralves). O cone de cor vermelho vivo e o seu reverso de sombra e luminosidade, em aura, como que se desatam, na distância, na mobilidade que de um centro (que é o negro de onde sai a gata com a ninhada e que é também a própria gata) se espalha por entre as ervas altas do Verão. E sucede-se um molho de espigas secas, o terreiro que restou limpo, o chilreio dos pássaros, as lagartixas sobre as pedras.
[...] A sua linguagem e verdade - de Lourdes Castro - é a de descer nesse buraco negro que é um centro (tão idêntico àquele de onde emerge a gata) para dele sair para o movimento circular dos céus -, e trazer consigo, de um corpo, a sua sombra, para a desenhar. Para desenhar, mentalmente, a sombra de um corpo, de um objecto - a sua sombra invisível.

[...]"


João Miguel Fernandes Jorge, 
in Longe do Pintor da Linha Rubra, Patavina, 2017

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

I de "I want to ride my bike" (VIII)




[Sabine Weiss, 1957]

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXIV


É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


EUGÉNIO DE ANDRADE


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (V)


Quando o Inverno começa nas mãos
quentes e sujas um cheiro a laranjas
arde no ar como coisa que chora
ao sol calmo da festa.


- SANDRO PENNA
[Trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo]


*


EPISTROPHÉ


O cheiro a laranja nas gotas de frio,
sob o sol do inverno.

O sabor da terra ao levantar-me.


- ABRAHAM GRAGERA

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

M de "My house, I say" (X)

 

A CASA DA NEBLINA


Entraram para a casa da neblina.
Os seus olhos foram-se acostumando
aos contornos indefinidos. Tudo
era impreciso, tudo era difuso.
Também se iam vendo um ao outro
sem contrastes, os rostos não mudavam,
as expressões eram sempre as mesmas,
sempre veladas pela mesma bruma.
Esqueceram-se ambos do mundo lá fora,
e da luz e da dor e da alegria,
da mentira, da emoção, dos beijos,
da amizade e do amor. Negaram
qualquer verdade ou perfil que os ferisse.
E ficou-lhes ambíguo o coração.



Amalia Bautista, Estou Ausente,
trad. e capa de Inês Dias,
Lisboa, Averno, 2013



domingo, 15 de agosto de 2021

M de "My house, I say" (IX)

 



Iris Murdoch by Billy Brandt
[1963]

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (II)


É necessário que eu hoje regresse a Rilke, à filtragem da vida exterior. Sinto-me um pouco como um convalescente, um pouco fraca, um pouco triste. Estabeleço laço com um novo canto, o chão próximo da arca e da vela. Penso em Jasmim que me deixou, na sua voz rara e desconhecida. Na Quinta de Jacob está a ter lugar uma reunião sobre perspectivas de futuro, as novas casas, a Quinta, os novos laços e o êxodo. O êxodo é um desejo que eu acrescentei em pensamento e de longe à ordem da reunião, para que se quebrem os meus limites.
Percorro os nostálgicos contos de Rilke – os seus títulos “Frère et Soeur”, “Unis”, “Vieillards”, “Les derniers”, “La fête de famille”. Sinto que o seu espírito/a sua presença me faz companhia e que o meu sofrimento se torna menor.
Um arco singular é quebrado. Pressinto o seu ruído de matéria indeterminada. Continuo a ler e a escrever à luz da vela porque não quero acender a luz, adormeço de olhos abertos com um ritmo fatigado: “nessa noite, assim que a criada acendeu o candeeiro”…
Em Rilke, não consigo ler os contos que têm nomes próprios por títulos: “Le roi Bohusch”, “Ewald Tragy”.
Subitamente penso num bastardo, em alguém que quebrou a monótona árvore genealógica da minha família que era terra a terra. Quem? Onde? Em que momento? Devia ter existido. “Porque ele vive uma dupla vida. Uma no seu futuro e outra no seu passado longínquo.”
Apago a vela, acendo a luz eléctrica.


Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p.25


*


Li por crises. Algumas duraram dois anos. Nesses casos, era obrigada a ler de dia nas grandes bibliotecas universitárias de Paris. É caso para perguntar por que aberração as grandes bibliotecas públicas estão fechadas de noite. Raramente li em praias e jardins. Não se pode ler com duas luzes simultâneas, a do dia e a do livro. Lê-se à luz eléctrica, com o quarto na penumbra, apenas a página iluminada.


Marguerite Duras, O Mundo Exterior
trad. Clarisse Tavares, Lisboa, Livros do Brasil, 1995

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

P de "Paradise Parking"


ESTRANHA FORMA DE VIDA


Sob a bigorna de fogo
que o sol de agosto acende
no muro caiado, derretem-se as pétalas 
de uma sedenta buganvília grená.

Que estranha esta beleza moribunda,
esta desaforada desnudez grandiosa,
esta sílaba breve do milagre.


CARLOS MARZAL
[Trad. ID]





[ID, Santarém, Agosto de 2012]

terça-feira, 27 de julho de 2021

P de Paralelo W (II)


BICHOS


Lembro-me de todos os animais que tive. Tenho muitas saudades de todos. Quase todos tiveram mortes trágicas e eu isso não aceito, não há consolação para isso. Nos meus momentos mais felizes, penso, acredito que a ressurreição vai acontecer e que eu abro a porta de minha casa e todos os animais que tive vêm a subir a escada, estão vivos e vão entrar em casa e todos cabem na casa e a casa é eterna


- ADÍLIA LOPES

sexta-feira, 23 de julho de 2021

C de Começar o dia com um livro novo (LIX)

 



Fátima Maldonado, Sem Rasto (Poesia Reunida),
com capa de Sérgio Eloy,
Lisboa: Averno, 2021

sexta-feira, 16 de julho de 2021

N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (M.G.L.) - XV

 



Doris Lessing by Ada Kar, late 1950s
(National Portrait Gallery)

sexta-feira, 9 de julho de 2021

D de Donas gatas


[...]

Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. Mas encontrar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamente de acordo, não entra completamente na nossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

                               a vida + um gato

o que dá, asseguro-vos, uma soma enorme.

[...]


- in Mitsou, quarenta desenhos de Balthus com um prefácio de Rainer Maria Rilke, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2002





terça-feira, 29 de junho de 2021

O de Oitavos de final


Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e demais fomentadores
de pestilência moral? Que valor pode ter
uma metáfora sem preço, por brilhante
que seja, neste mundo de sementes apagadas
em lameiros de cimento? Tu não vês
o telejornal, Musa? Nunca ouviste falar
da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais,
julgas-te capaz de competir com traficantes
de desejos, decibéis e abraços? És capaz
de fazer rir um desempregado, de excitar
um espírito impotente? Consegues marcar
golos geniais como o Ricardo Quaresma,
proteger do frio as andorinhas, ir buscar
as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo para te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.


José Miguel Silva, Últimos Poemas,
Lisboa, Averno, 2017

domingo, 27 de junho de 2021

quinta-feira, 24 de junho de 2021

E de Encontro (II)


5.


Nunca separei um sorriso do amor.

Circula essa jornada confusa,
um afã não dito,
um amargo que muda


em ternura.

                    Tranquila vibração,
recôndita fugacidade, solta
o gemido que vai da língua à garganta,
semente de uma ave.

Enleia num alento o outro enleio.

O silêncio não precisa de provocar
o que não ouve, lá fora, na madressilva.

A glicínia a magnólia o cacilheiro
cada margem.

Um sorriso.

Joaquim Manuel Magalhães, "Homossexualidade",
in Telhados de Vidro n.º 4, Lisboa, Averno, Maio de 2005




[ID, Maio 016]




domingo, 30 de maio de 2021

P de (Um Ano de) Pássaros (II)

Disseram-me outro dia que o nível de civilização de uma cidade (até de um povo?) também se pode medir pelo grau de confiança dos pardais em relação às pessoas. A julgar pelos pardais da Gulbenkian, Lisboa já pode competir com Copenhaga.



[ID | 11/009]

terça-feira, 4 de maio de 2021

P de Poética (XXXIX)


Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo. 
"Olha-os e não os mates."



Maria Gabriela LLansol, O raio sobre o lápis,
com desenhos de Julião Sarmento (1948-2021),
Lisboa: Europália, 1991