quinta-feira, 7 de junho de 2012

P de Postais (V)


LÂMPADAS



Em junho gostas de madrugar, luz, para te esgueirares por entre as ripas dos estores que nunca fecham até ao fim. Tentas visitar os quartos onde os amantes se abraçam. Ainda que gostasses de ficar acordada, luz, para desfrutar dos seus rostos encadeados, há um momento em que os olhos te pesam e os fechas, e perdes, deitada no sofá, o argumento do filme cujo fim descobres quando acordas para te infiltrares pelas ranhuras. Sei todas estas coisas, vejo-as, mas tenho uma dúvida, luz, contemplas os lençóis desfeitos ou também o que sonham?


[Trad. ID]

F de Fazer Fotografia (LXV)



Weegee, aka Arthur Fellig, fotografado a fotografar, em 1939.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

[...]

É necessário dizer isto para começar. Para que uma obra absurda seja possível, é preciso que o pensamento, sob a sua forma mais lúcida, esteja misturado com ela. Mas ao mesmo tempo é preciso que nela ele não transpareça, a não ser como inteligência organizadora. Este paradoxo explica-se segundo o absurdo. A obra de arte nasce da renúncia da inteligência a raciocinar o concreto. Nasce do triunfo do carnal. É o pensamento lúcido que a provoca mas nesse mesmo acto o pensamento renuncia a si próprio. Não cederá à tentação de acrescentar à descrição um sentido mais profundo, que sabe ilegítimo. A obra de arte encarna um drama da inteligência, mas só indirectamente o comprova. A obra absurda exige um artista consciente desses limites e uma arte em que o concreto não significa nada mais do que ele próprio. Não pode ser o fim, o sentido e a consolação de uma vida. Criar ou não criar, não muda coisa nenhuma. O criador absurdo não depende da sua obra. Poderia renunciar a ela; algumas vezes renuncia. Basta uma Abissínia.

[...]


Albert Camus, O mito de Sísifo,
trad. Urbano Tavares Rodrigues,
Lisboa: Livros do Brasil, s/d


Jerome Liebling, "Boys Playing at Abandoned Building", New York City, 1949



Jean-Pierre Melville, L'armée des ombres, 1969
(teste de cor)

S de Sob céus estranhos (II)



Ontem, o caminho até junto dos amigos foi assim.


T de Tratado de Pedagogia XLVII ou R de Regresso ao Trabalho - b

terça-feira, 5 de junho de 2012

I de Indexação (II)



Luís Henriques
in Aforismos do Estádio, Oficina do Cego, 2011


R de Regresso ao Trabalho (XLIV)


Ernö Vadas, "Fábrica", Budapeste, 1955

O AMADOR DE POEMAS


Se olhar de repente para o meu verdadeiro pensamento, não me consolo por ter de suportar esta palavra interior sem pessoa nem origem; estas figuras efémeras; e esta infinidade de projectos interrompidos pela sua própria facilidade, que se transformam uns nos outros, sem que nada mude com eles. Incoerente sem o parecer, instantaneamente anulado por ser espontâneo, o pensamento, devido à sua própria natureza, é destituído de estilo.
    
Mas nem todos os dias tenho a força de dedicar a minha atenção a alguns seres necessários, ou de simular os obstáculos espirituais capazes de criarem uma aparência de começo, de plenitude e de fim, em vez desta minha fuga insuportável.
    
Um poema é uma duração, na qual, leitor, respiro uma lei que foi preparada; ofereço-lhe a minha respiração e as máquinas da minha voz; ou apenas o seu poder, que se concilia com o silêncio.

Entrego-me a esse andamento encantatório: ler, viver onde nos levam as palavras. A sua aparição está escrita. As suas sonoridades concertadas. A sua vibração forma-se, segundo uma meditação anterior, e elas precipitam-se, em grupos magníficos ou puros, na ressonância. Até os meus assombros estão garantidos: são previamente escondidos e fazem parte do conjunto.
  
Levado pela escrita fatal, e uma vez que a métrica sempre futura domina de modo irreversível a minha memória, sinto cada palavra com toda a sua força, por a ter esperado indefinidamente. Esta dimensão, que me transporta e a que eu dou cor, protege-me do verdadeiro e do falso. Nem a dúvida me divide, nem a razão me atormenta. Nenhum acaso, mas uma sorte extraordinária que se fortalece. Encontro sem esforço a linguagem dessa felicidade; e penso por artifício, um pensamento todo certo, maravilhosamente previdente - com lacunas calculadas, sem trevas involuntárias, cujo movimento me dirige e cuja quantidade me preenche: um pensamento singularmente pleno.


Paul Valéry
[Trad. ID]

segunda-feira, 4 de junho de 2012

E de "e é sempre segunda-feira/ nas paragens"



... e volta.

I de Inverness (III)

MÁGOAS



Um copo demasiado cheio:
pego na minha cabeça
com ambas as mãos,
cuidadosamente para não entornar.


*


Sem uma morte real na vida
tive de inventar a minha.

Agora construo modelos do meu pai
feitos de fumo e luz.


*


Ele estava desconfortável
por isso pedi à enfermeira
que o soerguesse um pouco.
Morreu uma hora depois.
Costuma acontecer, explicou ela,
depois de lhes mexermos.
Perdoa-me, digo-lhe, junto a ele,
a boca cheia de fel.
 

*


Lembro-me dele
em mangas de camisa e calças de flanela:
 
uma pontada de lado
por ter corrido tanto até casa.


*


A barragem que ele construiu
no riacho cedeu finalmente:
água fria da Escócia
a lançar-se no mar.



Robin Robertson
[Trad. ID]

domingo, 3 de junho de 2012

A de Anomalia poética (III)



Na minha livraria preferida.

sábado, 2 de junho de 2012

H de «He loved beauty that looked kind of destroyed.» (II)

[...]

O belo resulta sempre de um acidente. De uma queda brutal entre hábitos adquiridos e hábitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo hábito for adqurido, o acidente deixará de ser acidente. Far-se-á clássico e perderá a virtude do choque Por isso uma obra nunca é compreendida. É admitida. Se não me engano, a observação pertence a Eugène Delacroix: "Nunca se é compreendido, é-se admitido." Matisse repete com frequência esta frase.

As pessoas que realmente viram o acidente afastam-se, perturbadas, incapazes de dar por ele. As que o não viram, testemunham-no. Exprimem a sua ininteligência através de um pretexto, que é darem importância a si próprias. Mas o acidente permanece na estrada ensanguentado, estupidificado, atroz de solidão, presa das loquacidades e dos relatórios da polícia.


Jean Cocteau, Visão Invisível,
trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005


B de Biorritmo (X)

Outra maneira de ouvir o filme La Belle et la Bête, de Jean Cocteau:


sexta-feira, 1 de junho de 2012

F de Fazer Fotografia (LXIV)

AO CREPÚSCULO



Ao atravessar o bosque
vi as seguintes coisas:
um gato, deitado, a olhar para mim;
uma cabana vermelha em que não podia entrar;
o esgar branco da raposa apanhada;
a aranha numa garrafa de leite,
aconchegando a mosca enfaixada,
embalando-a no seu sono;
umas chaves de carro, penduradas numa árvore;
uma fogueira, ainda quente, e um osso
do tamanho do meu braço, o meu nome
gravado nele, com erros.
O cão deixou-me aí,
e eu continuei sozinho.


Robin Robertson
[Trad. ID]

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXVII)

Dêem-lhe todas as satisfações económicas de maneira que não faça mais nada senão dormir, devorar pastéis e esforçar-se por prolongar a história universal; cumulem-no de todos os bens da terra e mergulhem-no em felicidade até à raiz dos cabelos: à superfície de tal felicidade como à tona de água virão rebentar bolhas pequeninas.

DOSTOIEVSKI, Cadernos do Subterrâneo

[epígrafe de Jean Baudrillard, A Sociedade de Consumo,
Lisboa: Edições 70, 2011]

C de Começar o dia com um livro novo (IX)

SOZINHO

     Sozinho levantado. Sozinho sentado. Sozinho deitado. Sozinho sobre a grelha. Sozinho desmembrado por cavalos de trabalho de que só via as garupas. Sozinho enforcado e o seu esperma transformado em mandrágora. Sozinho na velocidade que não existe, no minuto que não existe, no espaço que não existe, no tempo que não existe, na eternidade que não existe, no nada que não existe, no vazio cheio de lama. Sozinho num bloco de quartzo ignóbil, num icebergue em viagem. Sozinho com a solidão que não é só uma. Com a lua que foi sem ser. Com os seus passos que não existem. Com este tição que se devora e arde ao meio e se devora e arde num sonho que nem sequer é um sonho. Sozinho com o sono do condenado à morte.


Jean Cocteau, Tanta coisa por dizer,
Lisboa: Língua Morta, 2012



B de Biorritmo (CXXXIV)

T de Tempo Sem Tempo (XI)

Morre-se de vulgaridade, hoje. Morre-se de maquilhagem e lifting. A vulgaridade entediante do trabalho, dos gestos repetidos da jornada. Deixar de produzir, suspender o consumo: morte; que assinala a interrupção do tempo linear mensurável lembrando a todos os homens como é súbita a permanência no peep-show da vida. [...]


Paulo da Costa Domingos, "Artes Moriendi",
Vaga, Lisboa: frenesi, 1990