quarta-feira, 3 de abril de 2013

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXVII)


"[...] A woman came to a window with a candle and some mess she was making, and then that was gone and there was no light anywhere but the moon. [...]"

Gerard Manley Hopkins



Jacques Prévert, "La lune" (colagem)

L de Leituras paralelas (III)

terça-feira, 2 de abril de 2013

S de Sol - b


"J'ai tout donné au soleil
Tout sauf mon ombre"

Guillaume Apollinaire

segunda-feira, 1 de abril de 2013

F de "Falar separa, também."*








* Albert Camus

R de Regresso ao real (VII)

MEU DUPLO


1


A edição que circula de mim pelas ruas
Foi feita sem o meu consentimento.
Existe a meu lado um duplo
Que possui um enorme poder:
Ele imprimiu esta edição da minha vida
Que todo o mundo lê e comenta.

Quando eu morrer a água dos mares
Dissolverá a tinta negra do meu corpo,
Destruindo esta edição dos meus pensamentos, sonhos e amores
Feita à minha revelia.



Murilo Mendes

domingo, 31 de março de 2013

P de Páscoa Feliz (V)

M de Museu Imaginário - X b




[Azulejinhos/Algures junto ao Tejo]

sexta-feira, 29 de março de 2013

B de Biorritmo (LXXI)






En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.


¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.


Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.


Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.


¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.


En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.


¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.


Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.


¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".


En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.

Federico García Lorca, "Pequeño Vals Vienés"

I de Intimidade - II b



[Lisboa, 27/03/13]

I de Intimidade (II)


CADÁVER ESQUISITO HETERODOXO COM JOÃO RODRIGUES NO CAFÉ GELO EM 1961


Intimidade côr de bombazina
a cercar uma aranha de bambú
passa um polícia a cheirar a benzina
parte-se uma vidraça e surges tu

Sobrenadavam carpas na baía
um novo ritmo que vem de Las Vegas
daquele lado já nada se ouvia
quadrilha de gaivotas quase cegas

Por dentro era o som dum violino
por fora havia um vago marulhar
menos que nunca penso no destino
e bebo a tua sombra devagar.


António Barahona, O Som do Sôpro,
Lisboa: Poesia Incompleta, 2011

segunda-feira, 25 de março de 2013

C de "C'était lors de mon premier arbre" (II)


[...]
Hoje, se vou a Benfica, não encontro Benfica. Os pavões calaram-se, não sobra nenhuma cegonha na palmeira dos Correios (já não existe a palmeira dos Correios e a quinta dos Lobo Antunes foi vendida), o senhor Silvino, o senhor Florindo e o senhor Jardim morreram, ergueram prédios no lugar das casas, mas eu suspeito que por baixo destes edifícios de cinco e seis e sete e oito e nove andares, num ponto qualquer sob estas marquises e estas sucursais de banco, o senhor Paulo ainda conserta, com guitas e caniços, as asas dos pardais, a dona Maria Salgado ainda trota, de vivenda em vivenda, com a Sagrada Família, na sua redoma embaciada, o Lafaeite e o Jaurés jogam ao virinhas, na Calçada do Tojal, cercados de vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. Não há pavões nem cegonhas e contudo a acácia dos meus pais, teimosa, resiste. Talvez que só a acácia resista, que só ela sobeje desse tempo como o mastro, furando as ondas, de um navio submerso. A acácia basta-me. Arrasaram as lojas e os pátios, não tocam o "Papagaio Louro" no sino, mas a acácia resiste. Resiste. E sei que se fechar os olhos e encostar a orelha ao seu tronco, hei-de ouvir a voz da minha mãe a chamar
- Antóóóóóóóónio
e um miúdo ruço atravessará o quintal, com um saco de berlindes na algibeira, passará por mim sem me ver, e sumir-se-á lá em cima, no quarto, a sonhar que ao menos a mulher do Sandokan não o obrigaria nunca a comer puré de batata nem sopa de nabiças durante o tormento do jantar.


António Lobo Antunes, "Elogio do Subúrbio"
in Crónicas, Lisboa: Publicações D. Quixote, 1995

sábado, 23 de março de 2013

I de "I'm building a still to slow down the time" - b


Não interessa se falho na tarefa,
ao fim e ao cabo o imutável sempre
continuará imutável, e nada
somo ou tiro. A lua estará quieta
despertando-me sempre. Enquanto as margens
continuarão rasgadas pelo mar.
O sol continuará esse implacável
assombro. Sempre haverá uma aranha
a vomitar cristal e seda juntos.
Sempre haverá névoa. E continuará
a feroz ternura das tuas mãos.


Amalia Bautista, Estou Ausente,
trad. Inês Dias, 
Lisboa: Averno, 2013




[Lisboa, 19/03/13]

Y de "You must believe in spring" (VI)



Vittore Carpaccio, "Retrato de um cavaleiro", 1510
[Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid]

sexta-feira, 22 de março de 2013

Y de "You must believe in spring" (V)


 
 
"Winter weather is not my soul
But the biding for spring
[...]"
 

quinta-feira, 21 de março de 2013

L de Leituras paralelas (II)


[Hoje, a caminho do trabalho.]

quarta-feira, 20 de março de 2013

Y de "You must believe in spring" (IV)


AS ANDORINHAS



As andorinhas giram miram viram, piam piadas, microfilmam a nuvem, sobrevoam casos, sobrevoam casa, quebram fios, quebram copos, falam mal de mim, falam mal de mim. Não existe mam, não existe mem, não existe mom, não existe mum. Portanto elas falam mal de mim. Giram, miram, piram.

As an-dorinhas: na minha infância houve uma Dorinha quase sem peitos, mas cheirava bem. Quebrava sempre copos. 

O céu é adorável, andorinhável, andorável, acoplável com a terra, inquebrantável.

Ditado pisano: "per l'Annunziata la rondine è arrivata; e se non è arrivata per strada o è malata."


Murilo Mendes




[Hoje, no regresso da Primavera e da família de andorinhas que mora no saguão.]

terça-feira, 19 de março de 2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

A de "As Manhãs do Eterno Nada"


REFLEXÃO N.º 1
 
 
 
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
É a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
 
 
Murilo Mendes

domingo, 17 de março de 2013

S de Separadas à Nascença






§




Max Ernst, Uma semana de bondade, 
Lisboa: &etc, 2010


§




sexta-feira, 15 de março de 2013

E de Espera (XXIX)


ANONIMATO
 
 
 
Uma mulher na varanda
Se debruça sobre o mar
Contempla as gaivotas gêmeas
Espera uma carta de amor
 
Brilha o cemitério aéreo
As nuvens jogam boxe
 
Passam meninas cantando
 
Não sabem que sou poeta
E o amor que existe em mim
 
 
Murilo Mendes, Poesia,
Rio de Janeiro: Agir, 1983