quarta-feira, 3 de junho de 2015

E de Espera (XXII)


KM acaba de morrer.
Ele é pequeno e passa diante da minha janela fazendo fumaça no
frio; a boca é grande e ri sozinha quando ele passa.
Não quero que você chegue, amor.
Eu fico aqui inventando a sua demora com sisudez exímia.
Radio on.
Radio on.
Passa carregando a mala pesada.
Mas não chega.
Agora chega.
É aqui o amor?


Ana Cristina Cesar
in Novas Seletas, org. Armando Freitas Filho,
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004





[ID, 'É aqui o amor?', 015]

terça-feira, 2 de junho de 2015

D de Dia mundial da criança




[ID, Azenhas do Mar, 015]

segunda-feira, 1 de junho de 2015

P de Perder a cabeça (III)





TRITÃO
[Jardim da Sereia, séc. XVIII]


Quero-te assim.
Com as pernas que nunca tive
para te seguir
e todos os dedos que fui
amputando, do lado do coração,
em castigo por não te saber tocar. 

Assim, de cabeça finalmente perdida
para te explicar apenas
o essencial - 

não há palavras 
suficientes a este amor. 
E um poema, mesmo de pedra, 
também passa, a menos que 
te ganhe para sempre os olhos. 


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014





[Tritões: Sintra, 30/05/15 e Coimbra, 18/12/11]

sexta-feira, 29 de maio de 2015

R de Regresso ao Trabalho (XLIII)


AUBADE



I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.

The mind blanks at the glare. Not in remorse
- The good not done, the love not given, time
Torn off unused - nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear - no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anasthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small, unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can't escape,
Yet can't accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.


- PHILIP LARKIN

segunda-feira, 25 de maio de 2015

B de Biorritmo (CLVI)




"I used to live in sound [...]"

- THOM GUNN

sábado, 23 de maio de 2015

A de A poesia é o menos (IX)


TORRE


À noite, somos todos mortais outra vez.
Para que serve uma torre de vigia?
Já se sabe que na selva é mesmo assim:
procurar lenha, acender uma fogueira,
manter os mosquitos afastados. 

Contudo, à luz do dia, sobrevoar o mar largo
sem ser visto, escalar ao menos uma vez
o elevador de Santa Justa.
São pombas, nos beirais, ou são os corvos
da mui nobre cidade de Lisboa?


Vítor Nogueira
in AA.VV., Rua dos Correeiros N.º 60, 1.º Esquerdo,
Lisboa, 22 de Maio de 2013

terça-feira, 19 de maio de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXV)


NIGHTHAWKS AT THE DINER


Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa‑me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase‑silêncio desabrigado e informe.

Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo‑nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual — um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.

Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Só nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagesse de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.
O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.

Daqui a algumas horas esperar‑nos‑á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há‑de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer‑lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
— do lado mais esquivo da morte.

Mas bastam‑me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.


Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com selecção de Rui Pires Cabral,
posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, capa de Luís Henriques 
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa: Alambique, 2015

sexta-feira, 15 de maio de 2015

E de Espiga (IV)




[ID, 'Do it yourself', 05/015]

terça-feira, 12 de maio de 2015

A de A poesia é o menos (VIII)


A poesia é a vida? Pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem
- e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura,
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo dum poeta
a beber, dia a dia, a bica preta,
convencido de si, do seu recheio...
A poesia é a vida? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro,
e a morte se meta de permeio.


Alexandre O'Neill
in Poesias Completas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

quarta-feira, 6 de maio de 2015

U de "Uma arte" (II)




"oh 'cause nothing is lost, it's just frozen in frost
[...]"

quinta-feira, 30 de abril de 2015

M de Música para os meus olhos (XL)




Detalhe de uma colagem de Miguel de Carvalho
em No princípio não era o verbo, 
Coimbra, DSO, 2015

quarta-feira, 29 de abril de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXIV) *


MEMÓRIA DE AMOR


IV
(Directas)

Ainda não havia televisão a côres.
Todas as noites, víamos a série d'O Fugitivo.
Às vezes, bebíamos café e passávamos o resto 
da noite a fumar e a conversar. 
Não tínhamos pressa.
A paixão defendia-nos do tempo.

Saíamos, eternos, ao clarear do dia, 
para comprar peixe na lota do Cais-do-Sodré
e tomar o pequeno almoço na cantina. 

Não tínhamos nenhuma pressa. 
A paixão defendia-nos do tempo.
Voltávamos, eternos, para casa. 

14.VII.013


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus, 
Lisboa: Averno, 2015




* Com o livro que acaba de chegar da gráfica, 
a Averno completa 100 publicações, entre livros e revistas.
Têm vida(s) lá dentro, que é o mesmo (e muito mais)
que dizer Poesia. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

S de Solidão (ou C de Comunidade) XLI


PRIMAVERA


Chamo-lhe exílio, estar relegado.
Chamo-lhe as províncias.
E é afinal o meu coração.
O meu coração imperfeito que prefere
a distância das pessoas. Prefere
os semi-encontros que não podem levar
à intimidade. Amizades provisórias
que são interrompidas perto do início.
Um prazer em não comunicar.
E por dentro, nem desespero nem saudade.
Um gosto pela solidão. O conhecimento
de que o amor preserva a liberdade ao falhar
sempre. Um exílio por natureza. Onde,
aliás, é que eu poderia ser um cidadão?


JACK GILBERT
[Trad. ID]

sábado, 18 de abril de 2015

N de "Nous deux encore" (IV)




[Postal criado por DG/RPC ]

sexta-feira, 17 de abril de 2015

M de Museu Imaginário - XXVI b




Jim Jarmusch, Os Limites do Controlo, 2009



quarta-feira, 15 de abril de 2015

V de "Vos estis sal terrae"



Rui Caeiro
in Deus e outros animais, Lisboa: Averno, 2015




Sebastião Salgado
em entrevista ao Ípsilon, 10/04/2015

segunda-feira, 13 de abril de 2015

R de Rebeca (XIX)


[...]

Não achas, Mãe? Por exemplo. Há um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si - não saber cuidar de si é ser cão.
Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!

* * *

Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma árvore! quando há uma árvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!

[...]


José de Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro,
ed. fac-similada, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005

sábado, 4 de abril de 2015

U de "Uma Correspondência" (II)




Sandro Botticelli, 1490-1492

quinta-feira, 2 de abril de 2015

D de Dansa (V)




António Barahona, Ortographia,
Lisboa, 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A de A poesia é o menos (VII)


Tens direito aos teus rancorzinhos e ao bom proveito que eles te façam e também ao mau, que isso de rancores é igual a estrume: tanto dá tétano como dá flores. 


Rui Caeiro, Deus e outros animais,
Lisboa: Averno, 2015




[ID, 'Parallel Walks', 09/013]