terça-feira, 30 de setembro de 2025

D de Do outro lado do espelho



Deborah Levy, Direito de Propriedade, 
trad. de Inês Dias,
Lisboa: Relógio D'Água, 2021

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

T de "The days grow short" (XI)


6.


Mas possa eu, Senhor, não perder nunca
os olhos com que ao frio me enamoro
das folhas que se movem casuais
ao vento outonal das alamedas.


in Telhados de Vidro n.º 3, Lisboa: Averno, Novembro de 2004




[Coimbra, Janeiro 014]

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

P de "Photographing Fairies" (II)

 


[ID, Caneiras, 17/08/013]



[ID, Raposa, 23/08/025]

sábado, 16 de agosto de 2025

P de Poética (LXIII)

 

And if you missed a day, there was always the next

- LOUISE GLÜCK -


*


Tous les matins du monde sont sans retour.

- PASCAL QUIGNARD


4



Quando conheci a Morte
o verão era um tigre
a respirar junto do meu pescoço.
E a Morte estava embriagada de abelhas;
a Morte era metálica.


À espera entre folhas verdes
a Morte usava o vermelho da raposa;
as abelhas como pepitas de ouro
fervilhavam no coração da Morte.
O sangue da Morte era negro.


Sobressaltada, regressei
a um súbito isolamento.
Agora já sei a cor da estação da Morte:
ouro, vermelho e verde.
A língua da Morte é negra.


- Rikki Ducornet
[Trad. ID]

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (V)


24.

e se o demónio voltar - enquanto persegues a aranha pelas paredes da noite e do dia - e disser que a possibilidade de regresso não é uma teoria física nem moral apenas estética? enfrentarás com a mesma impaciência os meses que se erguem com espuma, se suspendem e aceleram em ondas pesadas e regulares como a respiração de um gigante? escrevo esta carta no início do verão, uma mão litoral no cabelo enquanto hesito. o automóvel está estacionado à porta de casa, o resto a caminho do sul. no final hão-de restar apenas as estrias de sal sobre o dorso, a interpretação desses mapas.


Tiago Araújo, Livre Arbítrio,
Lisboa, Averno, 2009




[ID | Santarém, 04/2013]

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

L de (A) Luz da Sombra (L)

 

"Quando o médico lhe tirou as ligaduras e a levou ao jardim, a menina que já não era cega viu 'a árvore que tem luzes'. Foi essa árvore que procurei entre os pomares de pessegueiros do Verão, nos bosques do Outono e ao longo de todo o Inverno e toda a Primavera, durante anos. Até que um dia estava a passear ao lado do rio Tinker, não pensando em coisa nenhuma, e vi a árvore que tem luzes. Vi o cedro das traseiras, em que as rolas-carpideiras se empoleiravam durante a noite, tenso e transfigurado, cada uma das suas células zumbindo com ardor. [...] Não era tanto ver, mas ser vista pela primeira vez, deixada sem fôlego por um olhar poderoso. A torrente de fogo esmoreceu, mas continuo a usar a sua energia. Aos poucos, as luzes apagaram-se no cedro, as cores morreram, as células extinguiram-se e desapareceram. Eu continuava a ressoar. Fui um sino toda a minha vida, mas nunca o soube até esse momento em que me vi erguida e tocada." 

- Annie Dillard, Peregrinação em Tinker Creek, trad. Inês Dias
(Antígona, 2025)





[ID | 'Pelos caminhos da manhã', 025]


terça-feira, 5 de agosto de 2025

A de Anomalia Poética (VIII)

 




[ID, Santarém-Lisboa, 2014-2021]

C de Começar o dia com um livro novo (XIV)

O MUNDO NÃO PODE DORMIR
 
 
 
      Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias.
     Em todos países, por essa Europa fora, em todas as cidades, em cada rua, cada casa, cada aposento, tornou-se mais curta e febril a tranquila respiração do sono; a época é de fogo, e como se fôra uma única noite de verão, pesada e abafadiça, cai sobre as nossas noites e perturba-nos os sentidos. Quantos, aqui e algures, habituados a deslizar entre o princípio da noite até de manhã na barca negra do sono - enfeitada com as rútilas e flutuantes bandeiras dos sonhos - ouvem agora à noite o tique-taque dos relógios, e vagueiam pelo tremendo caminho que vai desde o cair da sombra até ao aparecimento da luz, e sentem lá dentro o verme dos cuidados a roê-los sem cessar, a roê-los sem descanso, até que o coração adoece e fica em ferida. Toda a humanidade tem agora febre de dia e de noite; esse terrível, pavoroso estar desperto transparece nos sentidos sobreexcitados de milhões de criaturas: o destino penetra, invisível, através de milhares de portas e janelas e expulsa o sono; de cada leito afugenta o esquecimento. Há pouco quem durma no mundo; são mais longas as noites, mais longos os dias. Ninguém pode estar sozinho consigo e o seu destino; cada um de nós espreita para a distância. [...]
 
 
Stefan Zweig, O Mundo não pode dormir e outros contos escolhidos,
Porto: Livraria Civilização, 1940

sexta-feira, 25 de julho de 2025

sexta-feira, 4 de julho de 2025

S de S.T.T.L.

li algures que o gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, que não, que ao menos não me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela
a paixão grega


- Herberto Helder
in A faca não corta o fogo (Assírio & Alvim)

sábado, 28 de junho de 2025

C de Começar o dia com um livro novo (LVI)


SOL MAIOR


Mataram, deitaram abaixo o meu mestre de poesia. Era um telhado com muitos gatos que apareciam e desapareciam através de buracos.

Eu via-os, da varanda em frente, e aprendia a esvair a tristeza nos movimentos elegantes.


- JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA
(Manuel de Freitas / João-Paulo Esteves da Silva, Prelúdios, 
Lisboa, Alambique, 2020)




[ID, 'Confinamento', 03/020]

segunda-feira, 23 de junho de 2025

S de São João


FOGUEIRAS DE SÃO JOÃO


Labaredas na noite do meu nome
sinto arderem à margem
de um mar escuro -
e ao longo dos portos acenderem-se piras
de coisas velhas,
de algas e barcos
naufragados.

E em mim nada que possa
ser queimado,
mas cada hora da minha vida
ainda - com o seu peso indestrutível
presente -
no coração extinto da noite
me segue.


Antonia Pozzi, Morte de uma Estação, 2.ª ed., 
com sel. e trad. de Inês Dias, prefácio de José Carlos Soares e desenhos de Débora Figueiredo,
Lisboa, Averno, 2019




[ID, Porto | 018]

sábado, 21 de junho de 2025

I de Infância (V)

 

"[...]
Olhamos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória."


Louise Glück, Meadowlands, 
trad. de Inês Dias [Relógio D'Água, 2022]




I de Infância (IV)

 

"[...]
Olhamos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória."

Louise Glück, Meadowlands,
trad. de Inês Dias [Relógio D'Água, 2022]





[ID, 30/06/022]

terça-feira, 10 de junho de 2025

H de História de amor - b





Estudos camonianos
por João César Monteiro.

domingo, 4 de maio de 2025

P de Poética (LII)


EU TINHA GRANDES NAUS


Os amantes esquecem. A primavera volta.
A terra treme. E passam as aves em bandos
vindas de Heligoland por detrás da serra.
O teu olhar poisava em mim: estava certo
que fosse dessa maneira. Agora esqueceste
- também está certo, a gente crê-o como tal. 
Porque passar, voltar, tremer, poisar, 
esquecer o que foi agudo e fundo
são coisas, digo bem, de todos os dias.

Os poetas lamentam-se de mais.
Gastam-se por vezes num choro muito fino,
quase impraticável. Querem ser ouvidos,
e vá de escreverem tal e tal desgraça.
Mas estão desempregados? morreu-lhes a mãe?
a chuva entra pelas solas com buracos?
Ou vão mover o mundo, as azenhas do mundo?

Se o teu olhar já não poisa em mim,
paciência, não morrerei por isso.
Iuri Gagárine lá foi pelo céu acima.
Aliás a vida tem recursos admiráveis.
"Há um futuro à espera", porque não também
uma outra mulher que no futuro me espera?
Os amantes esquecem: é que alguma coisa
os leva (recônditamente) a esquecer.
A primavera volta, as aves passam em bandos;
e a mesma terra, quando treme, treme
cheia de naturalidade. Tudo isto
fará a delícia e o horror dos nossos filhos.

Os poetas, que se lamentam de mais,
acenam com as suas dores particulares
a quem passa, que passa por outras razões.
Querem dedos suaves na testa, um calor
de lábios nas pálpebras molhadas.
São poetas, isto é, seres em aflição.
Campainhas tocando ao mais pequeno vento.
Querem ser ouvidos, consolados, tapados do frio.
Temem o desprezo, a desolação ambiente,
os cães que ladram muito alto muitas vezes.

Mas o Maio volta. É bom saber
que num dia qualquer de um destes anos
vamos todos rir e dar as mãos,
troçar do domador se ainda houver.
Os amantes amam: são coisas
da primavera.
Os poetas consertam-se: são coisas
da sua mecânica misteriosa.

Portanto não morri. Eu tinha grandes naus
aparelhadas na ribeira do coração.
Portanto não morri. Caíram árvores,
camponeses gritavam enquanto a chuva
mordia raivosamente as coisas do mundo.
"Paciência", dizia eu, "não morrerei por isso".
E esperava o sândalo e a canela.


Fernando Assis Pacheco, Cuidar dos Vivos,
Coimbra, Cancioneiro Vértice, 1963

quinta-feira, 1 de maio de 2025

P de Poética (LI)


"O poema é solitário. É solitário e vai a caminho."

Paul Celan



[Moinho Grande, Agosto 013]

S de Sete rosas mais tarde



Quem arranca de noite o coração do peito deseja a rosa.
Pertencem-lhe a sua folha e o seu espinho.
A esse põe ela a luz no prato,
com o seu sopro enche-lhe os copos,
só para ele sussurram as sombras do amor.

Quem arranca de noite o coração do peito e o arremessa ao alto:
não falha o alvo,
apedreja a pedra,
a esse bate-lhe o sangue fora do relógio,
o tempo faz-lhe soar na mão a sua hora:
pode brincar com bolas mais bonitas
e falar de ti e de mim.
Paul Celan