[Fotografias: ID, 'Regional', 016]
quinta-feira, 20 de junho de 2024
quinta-feira, 13 de junho de 2024
S de Santo Antoninho dos Esquecidos (II)
13 DE JUNHO DE 2011
para a Inês Dias
A festa foi ontem. Mas não tivemos festa,
pela primeira vez em muitos anos.
Almoçámos tarde, na Rua da Regueira,
e o amor parecia diluir-se entre vielas
demasiado limpas e sombras do que já fomos.
Nas paredes devolutas, encontraste pássaros,
grinaldas frias, versos sem dono
nem sentido. Perto, ou muito longe,
três velas teimavam em iluminar-te os passos.
O cravo, azul, veio ao nosso desencontro.
Mas era de papel, embora rubro;
não nos podia salvar de sermos nós.
A festa, a única que me interessa, é o teu nome.
- MANUEL DE FREITAS
in Sunny Bar, org. de Rui Pires Cabral,
posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, capa de Luís Henriques
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa, Alambique, 2015
[ID, 12/06/017]
quinta-feira, 30 de maio de 2024
terça-feira, 14 de maio de 2024
I de Intimidade - III b
"Digamos que há uma entrega total ao momento e ao ofício - tal como às pessoas a quem se ama ou com quem se está em intimidade. Repara que, mesmo quando se está só a conversar com alguém, há uma entrega total. Quando se está num acto íntimo tem de se ter uma atenção e entrega totais, tal como num acto artístico (o que quer que esta expressão queira dizer...). É por isso que não quero ninguém por perto, no atelier. Chego mesmo a sentir pudor."
Rui Chafes, Sob a Pele... conversas com Sara Antónia Matos,
Lisboa: Documenta, 2016
*
"Ver de perto a fé de outra pessoa não é mais fácil do que vê-la a cortar um dedo."
Rui Chafes, Sob a Pele... conversas com Sara Antónia Matos,
Lisboa: Documenta, 2016
*
"Ver de perto a fé de outra pessoa não é mais fácil do que vê-la a cortar um dedo."
Alice Munro, Vidas de raparigas e mulheres,
trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D'Água, 2014
sexta-feira, 26 de abril de 2024
quinta-feira, 25 de abril de 2024
terça-feira, 5 de março de 2024
F de Flor Suficiente (XI)
[ID, Lx, 10/011]
"[...]
olha traz-me um ramo de qualquer coisa
qualquer coisa que venha amaciar o seco das palavras
deitadas a este relento entre ninhos de raposa
e um sonho de groselhas
é que deixam secura e mais nada não deixam mais nada
os sabugueiros ao menos deitam flores e bagas
tudo pérolas traz-me um ramo de azul tuaregue
e nem é preciso que vás ao deserto
entra por esta noite pode ser apenas esta
não dês alerta aos bichos dos varandins
às gatas e aos gatos com cio aos homens com sabre
sossega as gazelas vai à fonte e traz o azul
eu estarei à tua espera sem o falcão
sem o rei na barriga nem a gataria à espreita
[...]
Abel Neves, Úsnea,
Lisboa: Averno, 2015
[ID, Lx, 02/015]
quarta-feira, 17 de janeiro de 2024
A resposta será, sem dúvida, que podemos representar a obra de uma vida reduzida a três tratados, e também a três poemas, ou a três acções, nas quais o poder de criação pessoal seja levado ao extremo. O que significa mais ou menos isto: calarmo-nos quando não temos nada para dizer, fazermos apenas o estritamente necessário quando não temos projectos especiais e, coisa esta muito importante, ficarmos indiferentes quando não experimentamos a sensação indescritível de sermos arrastados, de braços abertos, por uma vaga da criação.
Robert Musil, O Homem Sem Qualidades
*
[...] Estas árvores vão adoptar-me pouco a pouco, e para o merecer aprendo aquilo que é preciso saber:
Já sei olhar as nuvens que passam.
Já sei ficar parado.
E já sei quase calar-me.
Jules Renard, Histoires Naturelles
terça-feira, 16 de janeiro de 2024
T de (Uma) teoria de pássaros (II)
O VÔO DOS PÁSSAROS
Os áridos pássaros que mudam as estações
não vieram nunca, embora eu os esperasse.
Acaso falam os homens do que viram?
Silenciosos são os lábios dos homens.
Grito ou palavra de amor não comovem
as pedras empedernidas pelo tempo.
Eram secos pássaros.
E o céu, que é plumagem, crepita.
Nem nos que voam nem nos que permanecem.
Não me demorei sôbre nenhum pássaro.
Voando, eram a velha canção da infância morta
para mim, que sempre vi o que não existe
e eternamente verei o que jamais existirá.
Em vôo, como os anos, a vida, o tempo...
Nada imaginei que pudesse ser admitido
pelos que não entendem uma teoria de pássaros.
- LÊDO IVO
sábado, 13 de janeiro de 2024
C de Começar o dia com um livro novo (XLII)
X
E se o vento varrer as fôlhas sêcas sem deixar nenhuma?
Este Outomno ela não guardará fôlhas dentro dos livros
e ele não escreverá mais poemas a falar da sua morte
e ambos serão obrigados a não sair do Verão, mesmo no Inverno, à chuva, atrás dos vidros
António Barahona, Noite do Meu Inverno (Segundo Tômo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias, fotografia de Teresa Santos e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Averno, 2016
[ID, Nazaré, 02/013]
quinta-feira, 11 de janeiro de 2024
I de "I want to ride my bike" (XI)
BICICLETAS
à memória de Joana Dinis
Pedalar - e, se isto vos parecer retórico, faço questão de vos enviar ramos de jacintos, rosas de Santa Teresinha, essas coisas - é, por vezes, a única solução. Desenganados, fomos ver cegonhas, um falcão menos tímido, papoilas cujo rubor nenhum Monet fixou. Havia sobretudo vento, nêsperas ainda verdes, e pessoas que tão próximas ou distantes vão morrendo.
Pedalar contra o vento não é fácil.
Manuel de Freitas, 769118,
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa, Averno, 2020
segunda-feira, 1 de janeiro de 2024
B de Bom Ano Novo (III)
Réveillon
As vozes. Os gestos. A passagem dos minutos, dos segundos. Lá fora, o frio intransitável. O coração reduzido ao receio do sangue sem diálogo (o pacífico punhal na bainha). A música à beira do excesso.
O ausente amantíssimo mas que não ousa o gesto decisivo. O vinho fluindo, o olhar interior fixo no horizonte, a mais ninguém visível. O rosto inebriado, sem lágrimas.
À meia noite as taças erguem-se até aos lábios sôfregos de esperança. No instante que mais confina com o silêncio, tudo mergulha no primeiro dia do eterno retorno.
O ausente amantíssimo. E o outro, deste lado do oceano. Habitando os dois a saudade, num coração solitário, à beira da explosão.
Lá fora, as estrelas brilham menos. Alguém começa a antever ao longe, muito ao longe, o cortejo da madrugada.
Londres, 1 de Janeiro 1997
Alberto de Lacerda, O Pajem Formidável dos Indícios,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010
sábado, 23 de dezembro de 2023
B de Biorritmo (XXIX)
TRISTE SORTE
E ando na vida à procura
Duma noite menos escura
Que traga luar do céu.
Duma noite menos fria,
E em que não sinta a agonia
Dum dia a mais que morreu.
Vou cantando amargurado,
Mais um fado e outro fado
Que fale do fado meu.
Meu destino assim cantado
Jamais pode ser mudado
Porque do fado sou eu.
Ser fadista é triste sorte,
Que nos faz pensar na morte
E em tudo o que nós morreu.
E andar na vida à procura
Duma noite menos escura
Que traga luar do céu.
- João Ferreira Rosa
domingo, 3 de dezembro de 2023
E de Espera (LVIII) - 1.º Domingo de Advento
"(...) É para isso também que serve o círculo, a sua ideia. Serve para preparar o caminho da escuridão e do desconhecido, um caminho inteiramente interior. Às vezes apetece-me desejar a mim mesmo boa-noite, antes de me virar sobre o meu lado direito, que é o lado em que sempre penso trazer o coração."
João Miguel Fernandes Jorge, O Próximo Outono,
Lisboa, Relógio D'Água, 2012
sábado, 30 de setembro de 2023
sábado, 23 de setembro de 2023
P de "Paredes frias" (III)
E a tua ferida, onde está?
Pergunto onde fica, em que lugar se oculta a ferida secreta para onde foge todo o homem à procura de refúgio se lhe tocam no orgulho, se lho ferem? Esta ferida - que fica assim transformada em foro íntimo - é que ele vai dilatar, vai preencher. Sabe encontrá-la, todo o homem, ao ponto de ele próprio ser a ferida, uma espécie de secreto e doloroso coração.
Se observarmos o homem ou a mulher que passam com olhar rápido e voraz - e também o cão, o pássaro, uma panela - a velocidade do olhar é que nos mostra, ela própria e com rigor máximo, que ambos são a ferida onde se escondem mal sentem o perigo. O quê? Já lá estão, já os conquistou - deu-lhes a sua forma - e para ela a solidão: lá estão inteiros no retesar de ombros em que passam a concentrar-se, com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca, e contra a qual nada podem nem querem, pois dela é que sabem esta solidão absoluta, incomunicável - este castelo da alma - para serem a própria solidão.
Jean Genet, O Funâmbulo,
trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Hiena Editora, 1984
[Lisboa, 17/05/013]
O CIRCO
Venham ver, venham,
a minha oculta ferida.
Tem rebordo roxo
e paixão ao meio.
É bonita e quero-lhe muito.
É flor de passiflora à botoeira
da pele que subpulsa,
que repulsa,
meus audiovisuais que aguentam tudo:
minha náusea, meu coração-culpa.
Brinco enquanto finjo um outro assunto.
Rif-raf é um brinquedo de criança
ou nada quer dizer
senão imagem onomatopaica.
Diagrama, indica infecção
palustre de água-viva e memória
tão secreta que não mata.
Vê-se e não se vê
a minha oculta ferida.
Mas tem cruzes e espinhos.
No centro uma gota brilha
rocio
ou som murmurado
que se transmite sem pedir palavra.
A minha ferida sangra
como que entornada.
Venham ver, entrem,
que não se paga nada.
Ruy Cinatti, 75 Poemas,
org. Manuel de Freitas, Lisboa: Averno, 2014
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
(po)ética,
AVERNO,
The Wall
quinta-feira, 14 de setembro de 2023
A de Amor (XIV)
É recorrente, nos programas de televisão vespertinos e entre amigos dados às chamadas "conversas moles", debater, pela enésima vez, as diferenças entre paixão e amor. E, contudo, creio que não existem. Não acredito em amores desapaixonados, ainda que o preço a pagar por este entendimento seja, o mais das vezes, a confrontação com a finitude dos amores. O que não convem a quem pretende vender ao mundo uma imagem estável ou viver na comodidade perguiçosa do conhecido, por oposição aos trabalhos a que os recomeços, as reinvenções, obrigam. Não há - nos amores de natureza erótica, de raiz erótica, de fundação erótica - grandes espaços para fraternidades, filiações, amizades que não estejam subordinadas ao erotismo (como na poesia não há espaço para mensagens que não estejam subordinadas ao "dizer poético", que acaba por ser, ele próprio, a sua mensagem mais abrangente e perene).
Mas o que não há, também, é uma obrigatoriedade de amar. Nesse plano, há muitos estádios intermédios que podem até, dependendo das circunstâncias, convir mais a cada qual. Até porque o amor não é uma questão de opção - é irracional, involuntário e altamente improvável. Pressupõe quadros, psicológicos e vivenciais, culturais e físicos, adequados e propícios. O amor é o menos democrático dos sentimentos, o mais elitista (só que, cá está, este elitismo é do seu foro interno - não de qualquer outro). E, sem que isso contradiga o que disse de início, o amor é eterno: quando um amor termina é sinal de que uma das pessoas em causa, ou ambas, morreram, ainda que a morte seja metamorfose ou renascimento ou morte-viva.
E pode, eventualmente, nestes casos, o amor permanecer eternamente vivo no outro, como se votado a um morto ou como amor sem objecto que não o próprio amor, tornando-se, assim, ainda mais substantivo.
Este tipo de amor, estou em crer, só é permitido aos poetas.
Miguel Martins, Lérias,
Lisboa: Averno, 2011
Libellés :
"A poesia é o menos.",
"Nous deux encore",
AVERNO
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
terça-feira, 12 de setembro de 2023
P de "(As) Praias Obscuras" (IV)
Margaret Millar fotografada pelo marido.
*
Margaret Millar, Um estranho no meu túmulo,
trad. de Inês Dias, Lisboa: Averno, 2011
quarta-feira, 6 de setembro de 2023
domingo, 27 de agosto de 2023
S de Santa Cruz (V)
PRIMEIRO AMOR
Nenhuma gaivota
chegou às minhas mãos
sem as tuas asas.
- ANTONIO HERNÁNDEZ
[Santa Cruz, com o Manuel / Setembro 012]
quinta-feira, 17 de agosto de 2023
quarta-feira, 16 de agosto de 2023
C de Começar o dia com um livro novo (LX)
Cees Nooteboom, Despedida (Poema em tempo de vírus),
tradução de Ana Maria Carvalho,
Lisboa: Alambique, 2023.
D de "Do outro lado do rio" (II)
"[...] Os dias passam; por vezes, ouço a vida passar. E ainda não aconteceu nada; não há nada de real ainda, à minha volta; não páro de me dispersar, e de me perder em fios de água, quando eu desejava ter um só leito e fazer engrossar o meu caudal. Porque é assim que deve ser, não é verdade, Lou?: nós queremos ser como um rio, e não um sistema de canais para irrigar prados. Devemo-nos reunir e fazer soar o trovão, não é verdade? Um dia, quando formos muito velhos, lá para o fim, talvez nos assista o direito de ceder, e de nos espraiarmos num delta..."
Rainer Maria Rilke
in Querida Lou, trad. António Gonçalves,
Sintra: Colares Editora, 1994
[ID, Portas do Ródão, 09/015]
sexta-feira, 28 de julho de 2023
D de Do outro lado do espelho
*
Beatrix Potter, "O Conto do Porquinho Robinson",
in Contos, trad. de Inês Dias,
Lisboa, Relógio D'Água, 2017
sexta-feira, 14 de julho de 2023
L de (A) Luz da Sombra - XXVb
"[...]
Tinham as suas próprias palavras para as coisas, um jargão de origem obscura: por razões que até eles tinham esquecido, referiam-se à manteiga como queijo; chamavam inhos aos melros que pousavam nos cimos das árvores. Era um círculo que traçavam à sua volta como se fosse um abrigo. 'Não contes a ninguém de França', começava Mia, antes de lhe contar baixinho um segredo, e a resposta de Warren era invariavelmente: 'Nem uma girafa selvagem me conseguiria arrancá-lo.'
E depois, aos onze anos - quase doze -, Mia descobrira a fotografia.
[...]"
Celeste Ng, Pequenos Fogos em Todo o Lado,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2018
Abelardo Morell, "Laura and Brady in the shadow of our house", 1994
quinta-feira, 13 de julho de 2023
a de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências"
"Le hasard a de ces sortilèges, pas la nécessité. Pour qu’un amour soit inoubliable, il faut que les hasards s’y rejoignent dès le premier instant comme les oiseaux sur les épaules de Saint François d’Assise."
MILAN KUNDERA
terça-feira, 20 de junho de 2023
T de (Uma) teoria de pássaros (XI)
CONQUISTA
III
Os pássaros conhecem-me.
Eu não os conheço:
conhecer pássaros é um destino diferente.
Ao secar,
indicarei caminhos com os meus ramos bruscos.
Jorge de Sena, Coroa da Terra,
Porto: Lello & Irmão, 1946
segunda-feira, 29 de maio de 2023
F de Feira do Livro (II)
PARA A FEIRA DO LIVRO
A Ángel Crespo
Folheada, a fôlha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da fôlha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a fôlha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em fôlha de árvore
melhor do que vento em fôlha de livro.
Todavia a fôlha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania, varrendo o podre a zero.
*
Silencioso: quer fechado ou aberto,
incluso o que grita dentro; anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o posto do quadro na parede,
aberto a vida tôda, quanto da música,
viva apenas enquanto voam suas rêdes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.
João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra,
Rio de Janeiro: Editôra do Autor, 1966
(comprado, hoje, na Feira do Livro de Lisboa)
segunda-feira, 20 de março de 2023
N de "no lugar seguro da próxima Primavera" (VI)
Ri sobre mim a Primavera. Regressam,
como se sabe, as andorinhas. Partem para longe
as palavras estultas dos amigos.
Já voltam para mim as antigas
palavras de amor. Em ti, rapaz,
resplandecem. Brincam nos teus passos
inseguros. Mas segura em mim caminha
solitária e serena a felicidade.
- Sandro Penna, No Brando Rumor da Vida
(Assírio & Alvim)
domingo, 19 de fevereiro de 2023
L de Lar
MY HOUSE, I SAY
My house, I say.
But hark to the sunny doves
That make my roof the arena of their loves,
That gyre about the gable all day long
And fill the chimneys with their murmurous song:
Our house, they say; and mine, the cat declares
And spreads his golden fleece upon the chairs;
And mine the dog, and rises stiff with wrath
If any alien foot profane the path.
So, too, the buck that trimmed my terraces,
Our whilom gardener, called the garden his;
Who now, deposed, surveys my plain abode
And his late kingdom, only from the road.
Robert Louis Stevenson
terça-feira, 7 de fevereiro de 2023
S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XII)
A ÁRVORE DAS RAÍZES
a minha infância tem uma árvore
assombrosa. é uma bela história de amor
entre as nossas mãos pequeninas
e aqueles seus braços enormes, bravos e
loucos como o riso das mães,
que faziam abrandar o medo e a tarde.
oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros
pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.
ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto,
imaginei que talvez Vieira da Silva
tivesse sonhado a minha árvore.
ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento
engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:
azuis e verdes com riscos ferozes
onde a vista se afunda para depois
nos libertar. assim é, entre o céu da memória
e a erva húmida destes dias,
a árvore da minha infância.
Renata Correia Botelho, Small Song,
2.ª ed., Lisboa: Alambique, 2015
quarta-feira, 21 de dezembro de 2022
E de Espera (XL)
PARDAL DE NATAL
A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente -
asas contra vidro, como se percebeu depois,
lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro
agitando-se na moldura de uma janela alta,
tentando lançar-se através do
enigma de vidro até à ampla luz.
E então um ruído na garganta do gato
que estava pregado ao tapete
contou-me como o pássaro ficara lá dentro,
transportado na noite fria
através da portinhola na porta da cave,
e posteriormente solto do aperto suave dos dentes.
De pé numa cadeira, prendi as suas pulsações
numa camisa e levei-o para a porta,
tão leve que parecia
ter desaparecido no ninho de tecido.
Mas cá fora, quando abri as mãos,
ele saiu disparado para o seu elemento,
mergulhando sobre o jardim adormecido
num espasmo de bater de asas
e desaparecendo sobre um renque alto de acácias.
Durante o resto do dia,
senti o seu vibrar selvagem
contra a palma das mãos, sempre que pensava
nas horas que a ave deve ter passado
presa nas sombras da sala,
escondida nos ramos pontiagudos
da nossa árvore decorada, onde respirou
entre anjos metálicos, maçãs de loiça, estrelas de verga,
os seus olhos abertos, como os meus, deitado aqui esta noite,
imaginando este pardal sortudo e raro
aconchegado agora num arbusto de azevinho,
com a neve caindo através da escuridão, sem uma aragem.
Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014
[ID, 02/05/012]
O de "Onde se lê gato" - b
Há dias em que poderia jurar que
estão tristes os olhos do meu gato,
mas não, é apenas a melancolia
ilícita que o meu devaneio lhes empresta.
Os gatos tristes, se é que os houve,
morreram talvez num Inverno fugaz e antigo.
E, no fundo, acabo por gostar mais deste.
É por desrazões semelhantes que se escreve
um poema, essa coisa singela
absoluta em frivolidade.
Manuel de Freitas, Levar Caminho I,
Lisboa: Averno, 2022
terça-feira, 20 de dezembro de 2022
V de Vida
Etty Hillesum, Cartas (1941-1943),
col. Teofanias, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009
"Há lama, tanta lama, que é necessário termos algum sol interior algures nas nossas entranhas se não quisermos tornar-nos vítimas psicológicas de todo aquele lamaçal."
segunda-feira, 19 de dezembro de 2022
E de Espera (XXXVII)
REBANHO
'Calcula-se que para cada exemplar da Bíblia
de Gutenberg... foram necessárias as peles de 300 ovelhas.'
- de um artigo sobre imprensa
Parece que as estou a ver apertadas no curral
por trás do edifício de pedra
onde a prensa funciona,
todas elas se ajeitando
para encontrar um pouco de espaço
e tão parecidas umas com as outras
que seria quase impossível
contá-las,
e não há forma de dizer
qual delas irá levar a notícia
de que o Senhor é um pastor,
uma das poucas coisas que elas já sabem.
Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
domingo, 18 de dezembro de 2022
domingo, 11 de dezembro de 2022
E de Espera (XLII) - 3.º Domingo de Advento
"Tenho recordações de que não me lembro: são as mais belas."
- MARIA GABRIELA LLANSOL
[ID, Londres, 11/015]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
domingo, 4 de dezembro de 2022
domingo, 27 de novembro de 2022
terça-feira, 22 de novembro de 2022
O de "Onde se lê gato"
[17/10/10]
Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre
chamámos
a nossa casa, esse sonho
de
irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.
Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam. Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.
Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.
Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam. Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.
Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.
Manuel de Freitas, Todos contentes e eu também,
Porto:
Campo das Letras, 2000
domingo, 20 de novembro de 2022
C de Começar o dia com um livro novo (XXVII) *
Beatriz Hierro Lopes, É Quase Noite,
Lisboa: Averno, 2013
* e com muitas saudades deste gato
que nos deixava chamar-lhe Barnabé.
S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXV
Diferença
Não te afastes. Não me finjas outro que sabes não sou. Escuta a dor da minha diferença, escuta a ferida que nela lateja. Para me veres nos meus olhos nus, não podes ter medo do meu rosto verdadeiro. Escuta, sou eu quem te fala (desdobro-me em palavras para chegar a ti, desdobro-me em gestos que nunca te alcançam.) Custa esta violência surda, de nada, de ninguém, de mim e ti, todos nós, custa sobretudo porque sem palavras (por isso, repara, calo cada vez mais). Custa estar tão só nesta diferença que só pode ser um corpo, neste silêncio que é a forma da tua boca fechada, morte que avança e tem o teu olhar (é esse mesmo que vejo no espelho). Custa esse teu grito, último gesto, sei-o bem, último apelo, desencontrar-me, seguir para lá de mim, extinguir-se ninguém. Mas ainda assim não te afastes. Escuto a tua ferida, nela corre sangue igual ao meu. Estás só, por isso estás comigo.
Jorge Roque
in Broto Sofro, com pinturas de Guilherme Faria
e arranjo gráfico de Inês Mateus, Lisboa, Averno, 2008
sexta-feira, 4 de novembro de 2022
C de Começar o dia com um livro novo (LIV)
aos pés dos pássaros
semear migalhas
sem explicação:
(oração pequenina)
fazer encontrar
grão último
sentido
Ricardo Tiago Moura, Cruzes,
com capa de Daniela Gomes, Lisboa, Alambique, 2018
[ID, Madrid, Agosto 015]
"Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas..."
JORGE DE SENA
quarta-feira, 2 de novembro de 2022
V de Vida (VII)
DESTINO
E para te orientares neste
labirinto dispões do mapa de uma
cidade onde ainda não estiveste,
uma bússola que indica a direcção que
sem ela tomarias, duas chaves que parecem
iguais, um relógio que se atrasa vinte e cinco
horas por dia, a propriedade
associativa, provisões que dão
fome, a religião que escolheres,
um resumo dos teus próximos sonhos,
visões que dão sede, a saída ali
em frente, um recorte de
jornal que conta como
não pudeste sair.
Mariano Peyrou, O Discurso Opcional Obrigatório,
trad. Manuel de Freitas, Lisboa: Averno, 2009
[ID, 'O discurso opcional obrigatório', 05/015]
quarta-feira, 26 de outubro de 2022
quarta-feira, 19 de outubro de 2022
S de Solidão (ou C de Comunidade ) XLIX
Não tenho palavras, nem entendo
formas visíveis.
Elas vêm concretas como aragem
a que dou nome.
Tenho-me, eis tudo. Acontece.
Há uma folha que desce,
que sobrenada, que desce,
que submerge no ar e depois desce
longe de mim no ar fundo.
Nós não somos deste mundo.
Fresca e limpa como a chuva,
ouço a tua voz cantada
descer do céu ao silêncio
que vem da terra molhada.
Nós não somos deste mundo.
Ouso dizer-te o meu nome
como quem se atreve a dar-te
a minha imagem.
Nós não somos deste mundo.
O que não vejo, entendo.
Pelos rios do meu sangue,
atrevo-me.
Anoitecendo, a vida recomeça.
Dou-me em palavras
que ressuscitam.
Algures no céu amanhece.
Só, intranquilo, pela vereda, desce
o nómada meu amigo.
L de Ler (XI)
"Estamos todos doentes,
e só sabemos ler os livros que falam da nossa doença."
e só sabemos ler os livros que falam da nossa doença."
Jean Cocteau, La difficulté d'être,
Paris: Éditions du Rocher, 1989
Libellés :
"Porque agora vemos como por espelho",
Doença
domingo, 16 de outubro de 2022
L de Lar (V) - quase P de Primavera (XIV)
ÚLTIMO SONHO
A minha avó Isabel
ouvia em sonhos rebanhos de ovelhas
passando junto à janela.
Todas as noites, em plena cidade,
as ovelhas da sua infância visitavam-na.
Jurava que ouvia os suaves balidos,
o delicado tilintar dos chocalhos
misturando-se ao rumor de patas pisando o asfalto.
A minha avó Isabel
recebia a visita dos sons da sua meninice aos noventa anos.
Para ela, a cidade povoava-se de ovelhas invisíveis
pastando entre as recordações da sua infância na aldeia
sem electricidade, sem água corrente, sem automóveis.
Quando um som, um cheiro, uma imagem ou uma voz
encontram o seu caminho de regresso até nós,
não há nada mais verdadeiro do que essa presença
vívida, intensa, verdadeira.
Talvez no final da nossa vida
nos permitam recordar o essencial,
o mais belo que tenhamos vivido.
Se é verdade que a nossa memória
nos concede um último desejo antes dessa viagem
em forma de ilusão com aspecto de realidade,
de alucinação esplêndida como um céu de verão,
com que som adormecerá cada um de nós?
María Paz Moreno
[Trad. ID]
[08/12/2010]
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