domingo, 6 de março de 2016

"As coisas só existem quando há poetas por perto."


Agustina Bessa-Luís, Breviário do Brasil,
Lisboa: Guimarães, 2012

sexta-feira, 4 de março de 2016

P de Pele (IV)


[...] O dicionário diz que 'aguentar' é segurar uma corda que corre; resistir ao vento, como uma vela. Ela sempre usa a palavra 'aguentar'; faz parte do seu repertório de vida. Quando alguém diz que tem um problema, que não consegue fazer qualquer coisa, ela sempre fala: 'aguenta sim; a gente aguenta tudo; é só querer'. Ninguém consegue nem pode contestá-la, já que ela passou pelo que passou. Aguentar tudo, para os humanos, que não são como as velas de um barco, tem um preço. No caso dela, foram as circunstâncias que a obrigaram a aguentar. Em outros casos, diferentes de frio, fome, sede, talvez não seja necessário nem aconselhável aguentar tudo; talvez seja até preciso resistir menos, ser um pouco mais fraco, para que as consequências de segurar uma corda que corre não sejam tão drásticas. Mas não no frio. No frio, é preciso segurar a corda que corre. O frio é uma corda que corre impiedosamente e quem passa por ele deve ficar com a alma mais seca, assim como a pele que endurece e também seca no contato com ele. Depois do inverno, as temperaturas muito baixas se esquecem, e é por isso que ela não consegue entender agora como conseguiu aguentar. Mas o frio deixa suas marcas indeléveis e secretas. Alguém que passou pelo frio intenso, sem agasalhos, é diferente de alguém que nunca passou por isso. [...]


Noemi Jaffe, O que os cegos estão sonhando? - com o Diário de Lili Jaffe (1944-1945),
São Paulo, Editora 34, 2012

quinta-feira, 3 de março de 2016

A de Altar (V)




[ID, 'Bons caminhos', Lisboa | 2016]

quarta-feira, 2 de março de 2016

T de Tempo Sem Tempo - XVIII c


O vento que rola um coração no pátio dos recreios, um anjo que soluça preso numa árvore, o pilar do céu que o mármore retorce, abrem portas de emergência à minha noite.


JEAN GENET
in Yukio Mishima, GENET seguido de O CONDENADO À MORTE de Jean Genet,
trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Hiena, 1986

terça-feira, 1 de março de 2016

T de Tempo Sem Tempo - XVIII b




[ID, Coimbra 2013]

T de Tempo Sem Tempo (XVIII)


Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça
um euro e trinta e cinco cêntimos 16 de agosto de 2011
não dá para tabaco. Quero lembrá-lo que o verão está a acabar

e eu já ouço passos nos caminhos da lama e do medo
e há coisas que só no verão  se fazem e eu ainda não fiz
como ouvir o rumorejar do mar nos meus pulsos.

Os seus medicamentos doutor deixam-me sem mim
o meu pai disse-me que a minha doença só lhe traz problemas
doutor há uma pedra intraduzível entre nós dois

eu não quero morrer outra vez essa frase fá-lo muito feio.
Acredite que vi gente morrer porque era maior que o corpo
tenho a impressão que o corpo não sabe o que tem dentro

acredite que consigo fundir uma lâmpada só com o olhar
já fundi muitas lâmpadas só com o olhar
e que vi um anjo a atravessar os muros de um hospício

rasante e belo como uma garça.
Doutor há muito pouco tempo para a poesia.
Isto que lhe digo é verdade todos os dias doutor.


António Amaral Tavares, Talvez seja essa certeza,
Coimbra: Medula, 2014

domingo, 28 de fevereiro de 2016

D de (Des)obediência (II)



[ID, Guimarães, 2013]



[ID, Beja, 2014]

sábado, 27 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

P de (Po)ética (LVIII)


No fundo, talvez ele [Emerson] esteja muito perto de Pickpocket de Bresson: ter viajado tanto para chegar àquela que esteve sempre ao seu lado, chegar ao mais próximo de si, obedecer às intimações da proximidade. É que a exigência de viver no presente - e, portanto, acima do tempo ou no seu coração mais secreto - é a condição do esclarecimento de que a alma não é viajante: "onde ela se encontra, encontra-se o dia" (p. 37). A alma é luz: cada ser basta-se a si próprio se responder às "exortações para ficar em casa, para entrar em comunhão com esse oceano interior". Não ter contratos mas proximidades, agora citando a passagem completa: "Que cada um saiba que, doravante, não obedeço a nenhuma lei senão a eterna. Não quero outras obrigações senão as da proximidade" (p. 44). A lei eterna é a de considerar e aceitar tornar-se aquilo que se é, sem uma noção teórica disso que se é [...].
Aquele que viaja para se divertir, ou para obter uma coisa que não traz consigo, viaja para se afastar de si próprio e envelhece mesmo sendo jovem: eis o estilhaçamento da temporalidade própria de cada um: aquele que vai ter com as ruínas ancestrais, sem ter mais nada para dar a não ser o vazio da sua curiosidade, acrescenta ruínas às ruínas.


- Maria Filomena Molder
in Telhados de Vidro n.º 20, Lisboa, Averno, Setembro de 2015

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

domingo, 21 de fevereiro de 2016

P de (Po)ética (LVII)


"Por conseguinte, ao fazer a introdução a um discurso sobre as 'coisas mínimas' e sem história, não sabemos resistir à tentação de cobrir os nossos ombros com um recurso à história, pedindo emprestadas as palavras de quem considerou ser digno discorrer sobre 'as humildes e baixas matérias': 'É de tamanho vilipêndio a mentira que - escrevia Leonardo -, mesmo quando diz bem de coisas de Deus, retira graça à sua divindade, e é de tamanha excelência a verdade que, mesmo quando louva as coisas mínimas, estas se tornam nobres; e tem a verdade em si tamanha excelência que, ainda que se aplique às humildes e baixas matérias, excede sem comparação as incertezas e as mentiras aplicadas aos grandiosos e altíssimos discursos... Mas tu, que vives de sonhos, agradam-te mais as razões sofísticas e os logros dos embusteiros sobre as coisas grandes e incertas, do que as certas e naturais e não tão elevadas.'"


- Leonardo da Vinci citado por Umberto Eco
in Apocalípticos e Integrados,
 Lisboa, Relógio D'Água, 2015

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

M de "(O) Mundo Inteiro" (II)


[...]
O companheiro lançou uma risada seca:
- Para que saiba. Por sete e quinhentos não é possível manter o mundo quieto.

[...]


José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado,
5.ª ed., Lisboa: Moraes, 1977





[ID, Estádio, 11/013]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XV)


EL VERBO


En el principio era el verbo
y el verbo no era dios
eran las palabras
frágiles transparentes y putas
cada una venía con su estuche
con su legado de desidia
era posible mirarlas al trasluz
o volverlas cabeza abajo
interrogarlas en calma o en francés
ellas respondían con guiños cómplices y corruptos
qué suerte unos pocos estábamos en la pomada
éramos el resumen la quintaesencia el zumo
ellas las contraseñas nos valseaban el orgasmo
abanicaban nuestra modesta vanidad
mientras el pueblo ese desconocido
con calvaria tristeza decía no entendernos
no saber de qué hablábamos ni de qué callábamos
hasta nuestros silencios le resultaban complicados
porque también integraban la partitura excelsa
ellas las palabras se ubicaban y reubicaban
eran nuestra vanguardia y cuando alguna caía
acribillada por la moda o el sentido común
las otras se juntaban solidarias y espléndidas
cada derrota las ponía radiantes
porque como sostienen los latinoamericanos del boul mich
la gran literatura sólo se produce en la infelicidad
y solidarias y espléndidas parían
adjetivos y gerundios
preposiciones y delirios
con los cuales decorar el retortijón existencial
y convertirlo en oda o nouvelle o manifiesto
las revoluciones frustradas tienen eso de bueno
provocan angustias de un gran nivel artístico
en tanto las triunfantes apenas si alcanzan
logros tan prosaicos como la justicia social

en el después será el verbo
y el verbo tampoco será dios
tan sólo el grito de varios millones de gargantas
capaces de reír y llorar como hombres nuevos y mujeres nuevas

y las palabras putas y frágiles
se volverán sólidas y artesanas
y acaso ganen su derecho a ser sembradas
a ser regadas por los hechos y las lluvias
a abrirse en árboles y frutos
a ser por fin alimento y trofeo
de un pueblo ya maduro por la revolución y la inocencia.


MARIO BENEDETTI

sábado, 13 de fevereiro de 2016

F de Fazer Fotografia (LIX)


"No dia 5 de Maio de 1938, Antonia oferece a Dino um maço de fotografias acompanhadas de um bilhete que então pareceu enigmático ao destinatário:

Caro Dino,
No outro dia disseste que nas fotografias se vê a minha alma: e agora aqui as tens. Porque o único irmão da minha alma és tu e todas as coisas que me têm sido mais caras quero deixar-tas em herança, agora que a minha alma se encaminha por uma estrada onde é preciso que se embacie, se mascare, se ampute. Aqui encontrarás tantas coisas que já conheces: detrás de cada uma escrevi um título ou palavras com pouco sentido, que no entanto compreenderás. Conserva-as para recordação minha, para recordação do nosso encontro, que tem sido bom e belo e me deu tanta alegria no meio da dor. Caro, caro Dino, que tu ao menos possas moldar a tua vida como eu sonhava que fosse a minha: toda nutrida de dentro e sem escravidão. Em cada uma destas imagens vês repetido este desejo, esta certeza.
Abraço-te.
Antonia."


in Antonia Pozzi, Morte de Uma Estação,
pref. de José Carlos Soares,
Lisboa: Averno, 13 de Fevereiro de 2012
(dia em que a autora cumpriria 100 anos)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

P de "Pelos caminhos da manhã" (VII)


[...]
Gravaram os seus nomes num dos troncos. Porém a casca, resistindo, não deixou que as letras se inscrevessem limpidamente. Ficou um sofrimento vegetal, uma ferida a escorrer sobre um borrão. Eles não repararam. Estavam antes de todos os sinais do romantismo, antes de toda a construção mental. O lodo cintilava-lhes nos fatos como cintilam coisas funerárias. Mas esses dados de melancolia não encontravam quem os entendesse. O ambiente tentou manter com eles um diálogo negro. Tud...o em volta se assemelhava à escavação de um túmulo. Outros olhares podiam assustar-se, vendo como desciam águas novas pelas escarpas quebradas em degraus. Pensariam que se configurava, nessa fundura, o que um cadáver pode ver, se acaso vê pelas pálpebras cerradas: as paredes de barro e um céu distante. Não o olhar de Gabriel e de Lizzie que era o de quem acaba de nascer e sofre o choque da respiração. O Old Roar Gill aconselhava a que morressem nesse mesmo instante, mas eles não entendiam o conselho.


Hélia Correia, Adoecer,
Lisboa, Relógio D'Água, 2010



[ID, Londres, 2014]

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

F de "(Une) Famille d'Arbres" (IX)




Eduardo Guerra Carneiro, Isto anda tudo ligado,
2.ª ed., Lisboa, Fólio Exemplar, Outubro de 2015 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

P de Poética (XXIX)


O TROY É UMA INSTITUIÇÃO E NEM SEQUER PEDE
e assim acaba por ser um mendigo absentista, impróprio.
Dizem que só no carnaval estende a mão
como os outros põem a sua máscara.
Mas em janeiro, que é o mês das chuvas
e o Passeio Marítimo uma espécie de frontão do mar,
ou em agosto ou julho quando tudo está em festa
e até fevereiro regressa com o som dos seus foliões
e os churrascos na praia são
como sinais votivos de um povo milenar,
o Troy limita-se a falar sozinho da sua estrela
desorbitada, fala ou tagarela sem redenção ao vento
e contra o vento de levante expõe
a sua barba como um deus repudiado e rebelde,
e vai de um lado para o outro no semáforo,
sempre de um lado para o outro perseguindo o esquecimento.
Por muito amar, muito perdeu, comentam,
e agora é a sua liberdade contra a memória.
Sempre de um lado para o outro com a sua barba
e o seu casaco em agosto porque todos os caminhos
levam à desilusão.
                               A tristeza é a luz
da loucura ou esta talvez a sombra da dor,
mas a nossa alegria, a dos homens lúcidos,
é a insanidade com método, ou o código que ensina
a esquecer a impostura. Os loucos dão festins
surreais e os lúcidos festins com o sangue
dos nossos semelhantes: guerra, guerra,
e a loucura não consta muitas vezes
como forma de autodestruição.
O Troy carrega uma dívida no pensamento.
O Troy, que foi ferido por uma má carícia.
Tem uma lua desbocada no cérebro, uma maré.
por isso mesmo passa o dia atravessando no semáforo.
Tal como o vinho, tomada em grandes doses só
a loucura entorpece o seu dom caritativo.
Ah, querido, grande Novalis, a poesia cura
as feridas melancólicas da razão.
O Troy, como o mar, de um lado para o outro
do Passeio Marítimo.
                                   Começa-se por ser um deus,
um amante ardente, e acaba-se como louco
que, se pede esmola, a pede ao passado.


António Hernández, O Mundo Inteiro,
trad. Inês Dias, Lisboa: Língua Morta, 2012





Izis Bidermanas, Carnaval de Nice, 1956

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016


O SENTIDO DA SIMPLICIDADE



Escondo-me atrás de coisas simples, para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos, uma na outra.

A lua de Agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.

Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado -
e só é verdadeira quando, para este encontro,
ela insiste, a palavra. 


Yannis Ritsos traduzido por Eugénio de Andrade
in Trocar de Rosa, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1980





[ID, Bartleby, 2012]

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

N de "No fundo, é isto" (VI)


Se nos encontrarmos, um dia, eu e a mulher, e ela me perguntar o que mais me importa, dir-lhe-ei que de sobremaneira me importa viver, vencer a morte, e saber se se confirma que só o amor é maior do que esse colapso. Gostaria que, nesse momento, nos reconhecêssemos textuantes, gente que, no mistério da realidade, não tem necessariamente muito a partilhar salvo esse pequeno diálogo que transportamos de lugar em lugar.


Maria Gabriela Llansol, Parasceve, 
Lisboa, Relógio D'Água, 2001