domingo, 19 de junho de 2011

F de Flor Suficiente (VI)



O sol do entardecer visto por uma papoila
[15/06/2011]

sábado, 18 de junho de 2011

T de "Toda a poesia do século XX"

SABEDORIA


Nos dias em que nada vale a pena,
E em que as árvores amigas
São iguais e estão vistas,
A vida é tão parada e tão serena
Que afinal já não há que contar mais,
E prevejo, com olhos anormais,
As coisas imprevistas...
Nos dias em que são cinzentos os meus céus
— O de dentro e o de fora —
E é vaga esta noção de um velho Deus,
Que me não manda embora
Deste espectáculo estafado
Em que de cor sei dizer
O que me foi ensaiado
E o que todos vão fazer,
Tenho inveja dos homens convencidos
Que nem sequer sonharam
Que poderia haver paraísos perdidos,
Ainda não decifraram
Esta charada em que andam envolvidos,
E pensam que, vivendo, triunfaram
Da Vida em que os que sonham são vencidos.


Francisco Bugalho
(1905-1949)

R de (O) rio da minha aldeia (V)

     "Nunca dormi tão regalado sono em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e apressurado dos sinos da Alcáçova. Saltei da cama, fui à janela, e dei com o mais belo, o mais grandioso, e, ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda pus os meus olhos.
     No fundo de um largo vale aprazível e sereno, está o sossegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre de água junto às margens, donde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as ornam e defendem. Dalém do rio, com os pés no pingue nateiro daquelas terras aluviais, os ricos olivedos de Alpiarça e Almeirim; depois a vila de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. Daquém a imensa planície dita do Rossio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de grupos de árvores silvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em cujo cimo estou, o pitoresco bairro da Ribeira com as suas casas e as suas igrejas, tão graciosas vistas daqui, a sua cruz de Santa Iria e as memórias romanescas do seu alfageme.
     Com os olhos vagando por este quadro imenso e formosíssimo, a imaginação tomava-me asas e fugia pelo vago infinito das regiões ideais. Recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o género me afluíam ao espírito, e me tinham como num sonho em que as imagens mais discordantes e disparatadas se sucedem umas às outras.”

 
(Re)lido aqui:
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra
 
(Re)visto e fotografado

B de Beware (II)


Para um menino de 7 anos,
a quem falei destas cegonhas.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

F de Fazer Fotografia - LIII b


Simão Dórdio Gomes, "Casa de Malakoff", 1923

[Obrigada, João Luís]


P de (Os) Pássaros em Volta (V)


Thomas Hoepker,
"An old man with his pet bird in Ritan Park, Beijing", 1984

quarta-feira, 15 de junho de 2011

B de Biorritmo (XCIV) - em dia de eclipse




[...]
I want to build
A nest in your hair
I want to kiss you
And never be there
[...]

J de (O) Jardim e a Casa (IX)




Uma trepadeira no Jardim do Torel,
12/06/2011

P de Poética

Eu falei da tua morte. Da ave
que levantou a palavra
morte, injusta e funesta no
seu ser. Da tua morte falo.

Do meu discurso nenhum sábio
saberá admitir a unidade, o
tempo infinito formando verão
e mar, o longo nome de ti.

Fim ou movimento? Toda a
unidade será sempre uma
ausência e um excesso.

Sobre os lábios do homem a
única duração da vida é razão
de um silêncio ou de uma rosa?


- João Miguel Fernandes Jorge, Sob Sobre Voz (1971)

E de Espera (XV)


Georges Méliès, 1901

[Obrigada, Daniela]


H de Humanidade (III)

Começa assim “O Lavra”:



     O elevador estava parado. Entrei eu nele e entraram outros, pouca gente. Ainda não era ou talvez já tivesse passado a hora da saída dos funcionários e o Torel naquele momento também dava um pequeno, quase nulo contingente de passageiros.
     Fazia sol e havia tranquilidade.
     Como é que o diabo de um gato se havia de meter debaixo do enorme elevador, já depois do homem das máquinas ter dado o seu toque nas rodas?
     O gato vai morrer pensámos nós e olhámos suponho que com vergonha uns para os outros.
     O elevador devia ficar parado! dar o alarme ao outro que ia subir!
     No entanto não parou. O guarda-freio e o condutor eram escravos da casa das máquinas que punha o elevador em movimento; consideraram uma fatalidade o gato morrer e não tiveram uma ideia nem um gesto para o impedir. Que é que os passageiros podiam fazer? Dar um grito? Seria tremendo, e quem o ousaria?
     Cobarde! chamava-me eu sem coragem ouvindo a seguir os miados terríveis, raivosos ou dilacerantes do gato. Enquanto o gato berrou, o que durou pouco mas ainda assim bastante para cada um se poder acusar de seu matador, havia um mau-estar disfarçado nos passageiros. Ficaram à espera.
     O condutor, alto e gordo, uma cara agradável que se via todos os dias, mostrava uma compaixão discreta pelo animal: aquilo dura pouco… já tem acontecido… ficou entalado.
     E durou.
     Mas a surpresa, a dor, a violência de que o pobre gato foi vítima ficaram ecoando. Quem se subtraía a senti-las em si, na sua consciência, nos seus nervos, onde quer que fosse?
     Teria o gato girado com a roda?
     Dados aquele poucos miados terríveis calou-se.
     Na cara do condutor transparecia então a inteligência do caso, queria ele explicar: eu não lhes dizia?
     E lá ficou no seu posto. Nós saímos necessariamente aliviados.
     Subir e descer neste veículo em cada dia ao ano é cumprir uma pequena e ordinária rota, a pino, que sem exagero se pode considerar tão edificante cómoda dar largas voltas pelo mundo.
     Naquele dia tinha morrido o gato, noutros tudo se apresentaria banal, noutros voltariam os factos extraordinários.
     […]


Irene Lisboa, Esta Cidade!, Lisboa: ed. da autora, 1942

terça-feira, 14 de junho de 2011

M de Música para os meus olhos (XIV) *




* E outra maneira também de ler Holderlin.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

S de Santos Populares (II)

Afinal, ou o amor é daltónico ou então pouco firme...

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXVII

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida...

... sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras...
... porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
... mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo...

... mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição


- Al Berto (1948 - 13 de Junho de 1997)

L de Lisbon Revisited


Ontem, antes de acender três velas.

S de Self (II)

Trinta e quatro anos. E há quatro que não escrevia nada. Começara duas novelas, esboçara alguns contos, mas nunca se sentira a arder. E chegara a um ponto em que já não tinha muita importância, o trabalho no bar impedia-a de se desligar por completo do mundo exterior, e ganhava o suficiente para pagar a renda, alugar dvds e comprar livros policiais e infantis nos alfarrabistas. Estava numa das suas fases ascéticas, e comia pouco, dormia pouco, e não sentia a falta de sair com amigos ou fazer amor com alguém.

- Ana Teresa Pereira, A Pantera, Lisboa: Relógio D'Água, 2011

domingo, 12 de junho de 2011

M de Museu Imaginário b

Também fazia anos hoje:

K de Kissing the sun



Para um menino que festeja hoje o seu aniversário:
que o seu caminho tenha sempre sol e pássaros e amigos.

sábado, 11 de junho de 2011

Anjos Caídos (II)

Anjos Tardios
(Poema do Ciclo Primeiro)


São anjos de metal, estendidos no outro lado
do mar, com a pele encostada a um navio.
Anjos inclinados para a madeira, presos a uma
corda, sabendo que o céu se abre para eles como
uma forca. Uma grande luz vem dos penhascos,
traz essas mulheres no seu dorso, esmagadas pelo
olhar. Uma sirene cruza o nevoeiro. É de novo a
morte, a última tentação da carne, o grande vestido
deposto sobre um estrado. Outro anjo nasce
fulminando a beleza do dia. Tem uma voz, um rosto,
uma oficina. É um cântico tardio, uma desordem,
uma paixão que se esvai triturada por uma súbita fraga.


Jaime Rocha
in P2/Público, 11 de Junho de 2011

M de Música para os meus olhos (XIII)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXVI


 
Lisboa, último dia de aulas

L de (A) Luz da Sombra (VIII)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

J de Janelas III


Édouard Boubat, 1970

[Via Joana Jacinto]

quarta-feira, 8 de junho de 2011

E de Estar (IV)


Izis Bidermanas, "Sur les quais de la Seine", 1949

L de (A) Luz da Sombra VII b


Odilon Redon
[1840-1916]

terça-feira, 7 de junho de 2011

B de Biorritmo (XCIII)

Ouve-se agora, na melhor companhia:

D de "Dust Motes Dancing in the Sunbeams" *


* Esta luz é de Lisboa (Príncipe Real).
O título é de um quadro de Vilhelm Hammershøi.

F de "(Une) Famille d'Arbres"

Comprei em 5ª edição (50 exemplares) e ainda não me cansei de passear por lá:


segunda-feira, 6 de junho de 2011

P de (Os) Pássaros em Volta (III)

ELEGIA


Quando a manhã rasgou o coração do poeta
voavam pássaros dos teus ombros
e o tempo era uma laranja azul
rolando nos teus dedos meninos

Quando a manhã rasgou o coração do poeta
colhias no jardim os versos puros
da primeira canção

Quando a tarde chegou ao coração do poeta
com flores breves e conchas
desenhavas
nas horas quase brancas
teu caminho de abelha

Ah mas o sol morreu no coração do poeta
e uma andorinha tristemente vem
com um ramo de vento
pairar a tua ausência


- Emanuel Félix, 121 Poemas Escolhidos (2003)

L de (A) Luz da Sombra (VII)

Vigo 2011

domingo, 5 de junho de 2011

C de Crise

Finalmente, alguém realista:


[Sintra, Maio 2011]


S de Solidão (ou C de Comunidade) XXV

CANTAR DE AMIGO, PARTINDO-SE


E mais não digo, amigos. Do que sou
não vos oculto o orvalho,
o nocturno silêncio das baías,
o acender de luzes das cidades,
um balouçar de ramos (subtil peso)
ao primeiro pássaro da manhã.

Não vos digo bom-dia, malmequer
água, vento, qualquer retrato puro
à beira de um jardim
na margem deste lago
que um silêncio de espelho fez tão duro,
só em redor de mim.

Nada repito. Nada que recorde
uma viagem, um beijo, uma canção
que lembre o mar (tão longe!) como se fora
mais uma história, tímida, inventada
p'ra nos deter por toda a noite fora
neste cálido sonho de acordados


Paris, Novembro de 1980



EMANUEL FÉLIX
in 121 Poemas Escolhidos, Lisboa: Edições Salamandra, 2003

B de Biorritmo (XCII)

Ouviu-se - e sobretudo dansou-se (assim mesmo, com s) - ontem à noite:

sábado, 4 de junho de 2011

P de (The) Privacy of Rain (XIII)

Termina assim um poema de E. E. Cummings:


(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain, has such small hands

T de Tratado de Pedagogia (XXXIII)

P de (Os) Pássaros em Volta (II)

POEMA PARA UM PÁSSARO QUE O LUIS MANUEL GASPAR NÃO PINTOU


Morreu-me entre as duas mãos o pássaro
vadio, era o meu peixe azul num aquário,
o fanatismo de ser de um clube, o meu ídolo
com as suas pequenas patas de barro.
Visitava-me muitas vezes, cheguei a crer
que era mais do que um, mas não, era
sempre o mesmo, o meu pássaro com asas
de um negro radioso, talvez não fosse negro,
talvez fosse às riscas, mas o bico, esse
era amarelo torrado e nunca há-de haver outro
como ele. Não lhe dei de comer, porque ele
não precisava, ele desenvencilhou-se sozinho,
acompanhou-me na velhice dos dois sem nada
exigir e agora, de asas caídas e patas trémulas,
veio morrer às minhas mãos o meu amigo.


Helder Moura Pereira

in Luis Manuel Gaspar, Um Lugar nos Olhos, catálogo, Associação de produção e animação audiviosual Ao Norte, 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

R de Regresso ao trabalho (XIV)

[...] Na mobilização geral pelo traba­lho, reforça-se uma evidência que seria, pelo contrário, necessário abolir: a de que não há outra maneira de existir senão trabalhando. De tal modo que trabalhar, hoje, corresponde menos a uma necessidade económica de produ­zir mercadorias do que a uma necessi­dade política de produzir produtores e consumidores. A produção tornou-se sem objeto. A figura de Bartleby, o escrivão de Melville que respondia às ordens para trabalhar com a fórmula "I would prefer not to", poderia servir de inspiração para desativar o sistema laborioso que suscita tanta mobilização: dos que o defendem para que nada se passe e dos que o atacam por ele se ter tornado tão exclusivo. E se, em vez da mobilização total com a qual se glorifi­ca o trabalhador, que foi uma figura tanto do fascismo como do comunismo, o novo exército de não-trabalhadores recusasse assumir-se como multidão de desempregados e em vez de reivindicar o impossível gritasse em todas as pra­ças "I would prefer not to"?
António Guerreiro, Expresso, 3 de Junho de 2011

P de (Os) Pássaros em Volta


"Take a stand" -
Príncipe Real, 1 de Junho

quinta-feira, 2 de junho de 2011

E de (Dia da) Espiga (II)

13/05/2010

B de Biorritmo (XCI)




[...]
Tu ne sais même pas
Sortant de mon cimetière
Que tu entres en ton enfer
[...]

V de Vento (II)


 No Rossio, ontem:




 "Sometimes there's so much beauty in the world..."
(ouvido num filme)

 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXIII

Deixa de espreitar para o outro lado do que és, Maynard, de te esconderes nas esquinas de ti próprio, nas esquinas das ruas onde te perdes. Esse jogo não dá nada. É por de mais cansativo e inútil. Há aquela história do homem, Maynard, que quis fugir à própria sombra, e parece que foi já há muito tempo, e dizem que ele ainda anda a correr, que andará a correr pelos tempos fora, e o raio da sombra nunca mais o larga. Já sabes que a maior parte da gente que te rodeia é uma cambada. Ao fim e ao cabo, desde o dia em que a mamã deu um tipo à luz, ele começa a aprender a existir no inferno, a coexistir com os vários infernos, que estão dentro e fora das pessoas, que as pessoas trocam umas com as outras, mercadoria que se chama congénita fraqueza humana, que é traição, que é tédio, que é apática observância de conveniências, que é mentira, que é dúvida. E depois há umas pequenas alegrias pelo meio, que foram mesmo inventadas para tornar menos monocórdica esta grande e excepcional angústia que é o ferrete do homem contemporâneo (zás, catrapás, foi um lindíssimo fim de período, uma frase de ribalta). Se estou a brincar contigo, Maynard, é para ver se te desfaço a pompa, digo bem, a pompa do chamado juízo crítico, pois tu acabas mesmo por fazer da auto-análise um imenso carnaval de lamentações. Não és corajoso, Maynard, és cobarde. A maioria dos outros, ao menos, são safardanas sem andarem a esconder-se nas esquinas de si próprios, à espera que passe uma aragem de bons sentimentos para nela se refrescarem. Preferem não pensar nisso, e pronto. Comem o que podem, dormem o que podem, deitam-se com as mulheres que podem, que se lixe o resto, que se lixe o resto. Mas tu acabas sempre nisto, Maynard. O inefável tribunal de ti próprio: és o acusado, o juiz, o advogado e o júri. E és o público. És, principalmente, o público, porque estas coisas sem público não têm graça nenhuma. E antes de continuares a desafiar-te, tenho a dizer-te que já sei o que vai acontecer: vais considerar-te culpado, mas tens a atenuante da tal angústia, e isso até é um bocado aristocrático, fica-te muito bem, Beethoven para a esquerda, Proust para a direita, e ainda assim uma grande margem de melancolia, e depois a certeza de que um homem só é verdadeiramente solidário com a sua solidão. Deixem-no passar, diz o povo, deixem-no passar, porque ele sofre muito e é grande, olha o sofrimento bem nos olhos e tem a coragem de continuar a viver. És um narciso da merda, Maynard. As piruetas que tu fazes para demonstrares a ti próprio que não és pior do que os outros.


- Dennis McShade, Requiem para D. Quixote (1967)

B de Biorritmo (XC)

Ouviu-se três noites seguidas. E dançou-se numa delas:

domingo, 29 de maio de 2011

D de Davam grandes passeios aos domingos

DIMANCHE



Entre les rangées d'arbres de l'avenue des Gobelins
Une statue de marbre me conduit par la main
Aujourd' hui c'est dimanche les cinémas sont pleins
Les oiseaux dans les branches regardent les humains
Et la statue m' embrasse mais personne ne nous voit
Sauf un enfant aveugle qui nous montre du doigt.


- Jacques Prévert




H de (The) Heart of Saturday Night

sábado, 28 de maio de 2011

B de Biorritmo (LXXXIX)




[...]
Les escaliers de la butte sont durs aux miséraux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
[...]

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A de Arquitectura

my love is building a building
around you,a frail slippery
house,a strong fragile house
(beginning at the singular beginning

of your smile)a skilful uncouth
prison,a precise clumsy
prison(building thatandthis into Thus,
Around the reckless magic of your mouth)

my love is building a magic,a discrete
tower of magic and(as i guess)

when Farmer Death(whom fairies hate)shall

crumble the mouth-flower fleet
He'll not my tower,
                                          laborious,casual

where the surrounded smile
                                                            hangs

                                                                             breathless


E. E. Cummings
in Selected Poems (Liveright)

I de Infância (II)

Ouviu-se ontem à noite:



Mon enfance passa
De grisailles en silences
De fausses révérences
En manque de batailles
L'hiver j'étais au ventre
De la grande maison
Qui avait jeté l'ancre
Au nord parmi les joncs
L'été à moitié nu
Mais tout à fait modeste
Je devenais indien
Pourtant déjà certain
Que mes oncles repus
M'avaient volé le Far West


Mon enfance passa
Les femmes aux cuisines
Où je rêvais de Chine
Vieillissaient en repas
Les hommes au fromage
S'enveloppaient de tabac
Flamands taiseux et sages
Et ne me savaient pas
Moi qui toutes les nuits
Agenouillé pour rien
Arpégeais mon chagrin
Au pied du trop grand lit
Je voulais prendre un train
Que je n`ai jamais pris


Mon enfance passa
De servante en servante
Je m'étonnais déjà
Qu'elles ne fussent point plantes
Je m'étonnais encore
De ces ronds de famille
Flânant de mort en mort
Et que le deuil habille
Je m'étonnais surtout
D'être de ce troupeau
Qui m'apprenait à pleurer
Que je connaissais trop
J'avais l'œil du berger
Mais le cœur de l'agneau


Mon enfance éclata
Ce fut l'adolescence
Et le mur du silence
Un matin se brisa
Ce fut la première fleur
Et la première fille
La première gentille
Et la première peur
Je volais je le jure
Je jure que je volais
Mon cœur ouvrait les bras
Je n`étais plus barbare


Et la guerre arriva


Et nous voilà ce soir.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

L de Livraria (IV)

A caminho da minha livraria preferida:

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLIX)


Leonora Carrington (1917 - 26 de Maio de 2011)
The Giantess, c. 1947

S de Sete rosas mais tarde (VI)

suppose
Life is an old man carrying flowers on his head.

young death sits in a café
smiling,a piece of money held between
his thumb and first finger

(i say "will he buy flowers" to you
and "Death is young
life wears velour trousers
life totters,life has a beard" i

say to you who are silent.-"Do you see
Life?he is there and here,
or that,or this
or nothing or an old man 3 thirds
asleep,on his head
flowers,always crying
to nobody something about les
roses les bluets
                        yes,
                               will He buy?
Les belles bottes-oh hear
,pas chères")

and my love slowly answered I think so.     But
I think I see someone else

there is a lady,whose name is Afterwards
she is sitting beside young death,is slender;
likes flowers.





Poema e desenho de E. E. Cummings
in Selected Poems (Liveright)


T de Tratado de Pedagogia (XXXI)

may my heart always be open to little
birds who are the secrets of living
whatever they sing is better than to know
and if men should not hear them men are old

may my mind stroll about hungry
and fearless and thirsty and supple
and even if it's sunday may i be wrong
for whenever men are right they are not young

and may myself do nothing usefully
and love yourself so more than truly
there's never been quite such a fool who could fail
pulling all the sky over him with one smile


E. E. Cummings
   in Selected Poems (Liveright)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

C de Carrosséis (XII)

who are you, little i

(five or six years old)
peering from some high

window; at the gold

of november sunset

(and feeling: that if day
has to become night

this is a beautiful way)




Poema e desenho de E. E. Cummings
in Selected Poems (Liveright)


S de Sete rosas mais tarde (V)

[Sintra, Maio 2011]

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A de "até que os fios do coração" (III)

A ÚLTIMA NOITE


V

Conversámos de "coisas amáveis"
mantendo a distância de um deserto
entre as nossas miragens


- António Barahona, Ritual Análogo (1986)

V de Vício (VI)

Já não se fazem contracapas assim:


[1ªedição de Requiem para D. Quixote, de Dennis Mc Shade, aka Dinis Machado,
encontrada numa feira de velharias em Sintra]

H de "Hay que beber para recordar y comer para olvidar" (X)

Miguel, um almoço no "A Raposa", em Sintra, é mais ou menos assim:

[Céu em baixo]

[O couvert]

[Carpaccio tropical]

[Salmão grelhado com crosta de noz, acompanhado por risotto de pesto]

[A conta]

[Céu em cima]

Quanto ao vinho, na 5ª feira descobres por ti próprio como era.

domingo, 22 de maio de 2011

E de Espinhas para um gato (VII)

GATO PRETO


para "Territórios" de Natércia


I

Em busca d'alimento e alado cálculo
continuamente a vadiar esfaimado
II

Senhor do mel e das abelhas negras
eu mesmo: gato preto do telhado
com um caderno e um lápis e este livro
revelado por Deus e aves várias
III


Domino esta cidade com olhar
caçador, friamente árduo,
unido a um ritmo
donde se ouve o mar

Altero o percurso, en-
curto o verso:
quebro o cubo e
certifico-me do vinho
IV


À noite já estou
completamente bêbado:
não sei onde ponho as patas
nem sei pra onde vou
no verso irregular

Mas conheço cada telhado
como a polpa das minhas almo-
fadinhas, e não tropeço
V

E navego
telha a
telha
a técnica a-
prendida
no século das
trevas
trituradas
à trinca
VI


E daqui em diante
a grave prova:
explorar ruínas,
terrenos poluídos,
lixo, baldios, toxinas

Uma estreita passagem
entre a parede e a
pintura permite o
acesso à simetria
VII

E distendo o corpo
a todo o comprimento do eco
na preparação do
salto
VIII

O gato preto no epílogo
do branco
continua em branco:
já mil vezes o disse por
extenso
num ritual análogo



- António Barahona, Ritual Análogo, Lisboa: Edições Rolim, 1986 *



* O gato estava à minha espera em Sintra. O livro também, num alfarrabista.

B de Biorritmo (LXXXVIII)



Candy says
I've come to hate my body
And all that it requires in this world


Candy says
I'd like to know completely
What others so discretely talk about


I'm gonna watch the blue birds fly
Over my shoulder
I'm gonna watch them pass me by
Maybe when I'm older
What do you think I'd see
If I could walk away from me


Candy says
I hate the quiet places
That cause the smallest taste of what will be


Candy says
I hate the big decisions
That cause endless revisions in my mind


I'm gonna watch the blue birds fly over my shoulder
I'm gonna watch them pass me by
Maybe when I'm older
What do you think I'd see
If I could walk away from me


sábado, 21 de maio de 2011

P de (Dois Anos de) Pássaros (XLVII)

Outras andorinhas voltam, não as que
partiram dos beirais, no Outono.
Mudaram no deserto as suas imagens,
e as que volteiam hoje sobre esta água
no passado conheceram outro destino.
Que lugar trarão na memória dos olhos?


- Fiama Hasse Pais Brandão


[Obrigada, Rosa]

sexta-feira, 20 de maio de 2011

B de Biorritmo ( LXXXVII)

Apetecia-nos ouvir ontem:



[...]
Esta casita de muñecas de alterne
este racimo de petalos de sal
este huracan sin ojo que lo gobierne
este jueves este viernes
y el miercoles que vendra
[...]

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O de "O mundo está escuro: ilumina-o" (XIV)


Tazio Secchiaroli, "Federico Fellini 8 1/2", 1963

M de Música para os meus olhos (XII)

M de Mesa de Amigos (VI)



Num jardim de Lisboa, ontem