terça-feira, 18 de junho de 2013

domingo, 16 de junho de 2013

P de (The) Privacy of Rain - XLVI b


"[...]

Durante alguns breves e fabulosos momentos, são livres.

Não ainda pássaros. Mas já não humanos."


ALLAN GRAUBARD
(pela voz da Ana)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

L de (A) Luz da Sombra (XXXVIII)


Mário Botas
in Aventuras de um Crâneo e outros textos,
Lisboa: Averno, 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

S de Santos Populares (III)



Noite de Santo António / 013


quarta-feira, 12 de junho de 2013

R de Regresso ao Trabalho (LII)




Les très riches heures du Duc de Berry, 1412-1416

segunda-feira, 10 de junho de 2013

E de Epígrafe (IV)



P de Poética (XLVI)





Meu samba não se importa que eu esteja numa
De andar roendo as unhas pela madrugada
De sentar no meio fio não querendo nada
De cheirar pelas esquinas minha flor nenhuma

Meu samba não se importa se eu não faço rima
Se pego na viola e ela desafina
Meu samba não se importa se eu não tenho amor
Se dou meu coração assim sem disciplina

Meu samba não se importa se desapareço
Se digo uma mentira sem me arrepender
Quando entro numa boa ele vem comigo
E fica desse jeito se eu entristecer

domingo, 9 de junho de 2013

P de "Pássaros de acaso" (VI)


O POETA


Não vamos encontrar O Poeta
nas suas palavras. É por isso que
visitamos as suas casas
ou os seus túmulos, ou os seus rios.
Não há espaço num poema
para O Poeta, apenas o dito
e, às vezes, memórias.
Visitamos os países de poetas
estrangeiros para os encontrarmos arruinados,
para testemunharmos, onde antes palavras
havia, entulho, estátuas decapitadas
e aves, aves canoras engaioladas.


John Mateer
in Telhados de Vidro n.º18,
Lisboa: Averno, Maio de 2013




[Bertold Schenkelbach, Drohobycz, 1925–1939]

quarta-feira, 5 de junho de 2013

B de Biorritmo (CLV)


[...] To the question: "What do I do? What do I produce?" there was an honourable, well-wishing, effective answer, at any rate an answer in conscience - for this was the scope of his conscience; but to the question: "Who I am?" there was none. Many human beings have no knowledge of themselves except as effects. They carry within them no reconciliation of these effects, no sense of a realized or realizable individuality, no origin of the notes they give out,. They are neither musicians nor children singing; they are gramophones, mass-produced - effect-makers, good or bad. Of these, some are content, as Severidge was not; they think complacently in terms of effect, as a gramophone might be supposed to think as it came off the production-line. But some are unhappy as a gramophone might be which was aware of music's cause and that it was itself empty of this cause. Severidge resembled such a gramophone. In business, his effect-making had such a perfection which, like all perfection in its own kind, was beautiful , and, while he exercised this faculty, he had a sense of flawlessness, of innocence. He felt then: I am a good man, as a gramophone might feel: I am a good gramophone. But, observing others at school and in later life, he had found that certain men were to him what musicians are to gramophones - often extremely incompetent, but still musicians, aware of music within them; often untrue to their truth but recognizing it as theirs, their very own, the nature of their being, their stem, root and seed, their link with Earth, their unity with Nature, their not.being-lonely, their not-being-sterile-or-dead.
[...]



Charles Morgan, The Judge's Story,
Londres: MacMillan, 1950

sábado, 1 de junho de 2013

R de Rebeca (XVII)


UM CÃO O MAR


Por detrás da persiana o mar
com a imagem de um latido.
Lançado por um cão ago
ra morto. Que novamente
parece um ser humano
a soluçar. Por detrás da
persiana toda a noite
tudo o que se movimenta.

No jardim o vento é um cír
culo à volta da paisagem.
Em torno da figura sonora do
mar. Tudo são as fases
do labirinto. Espaço noctur
no de ninguém. Solidão
rarefeita em ecos.
Odoríferos como o vácuo.



Fiama Hasse Pais Brandão, Âmago I / Nova Arte,
Porto: Limiar, 1985

sexta-feira, 31 de maio de 2013

R de Rasura


[...] 

Nessa escuridão vi, e ainda consigo ver, brasas de memória atiradas para o mato ressequido, uma paisagem prestes a arder com uma raiva implacável.


John Mateer, "A  rasura"
in Cão Celeste n.º3, Lisboa, Maio de 2013




[Lisboa, 18/05/013]

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O de "O tempo passa como cinza branda"


CEMITÉRIO INGLÊS


a Álvaro García



Escuta a reza suspensa da cigarra,
a oração do cipreste no seu voo esguio,
o silêncio devoto da cal e do muro
abraçando-se sedentos às plantas.

Aqui há náufragos do mar e da vida,
poetas, párias, amantes que tentaram
deter a brevidade das violetas,
juntos para sempre osso com osso.

O céu explode neste dia de agosto.
Riem as dálias e ouve-se o rumor
da estrada próxima.

Um banco à sombra, a madeira húmida, os pássaros.
Pensas em qual será o teu lugar no mundo.
Continua a rezar por ti a cigarra.



María Paz Moreno, Invernadero,
Sevilha: Renacimiento, 2007

[Trad. ID]
 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

C de Carrosséis (XVI)

O carrossel:
Subi pela primeira vez para um carrossel quando tinha onze anos em Lausana, - pela segunda vez anteontem, nas colinas Vorobiov, o dia do Espírito Santo, com Alia, que agora tem seis anos. Entre estes dois carrosséis - toda uma vida.

*

O carrossel! - A magia! O carrossel! - a felicidade! O primeiro dos sete céus! Repleto de estrelas, carregado de sons, o primeiro pobre e popular céu infantil da terra!
Apenas a sete vershóks do solo - mas o pé já não está sobre a terra! Já não há regresso! É uma sensação de irrevogabilidade, de condenação ao voo, de ter entrado num círculo...
O carrossel é um planeta! Que música de esferas emite a sua coluna que ressoa! Não é a terra que gira sobre o seu próprio eixo, é o céu que gira sobre o seu! A fonte do som está oculta. Depois de nos termos sentado já não vemos nada. Cai-se num carrossel como num torvelinho.
Os leões heráldicos e os cavalos apocalípticos, não são por acaso os fantasmas das feras com as quais Baco inundou o seu navio?
Céu de flagelante - promessa de fidelidade dos planetas - coluna de Memnon sob um sol que não declina... O carrossel!


Marina Tsvietaieva, Indícios Terrestres,
Lisboa: Relógio D'Água, 1995



António Sena da Silva, Lisboa / 1957

terça-feira, 28 de maio de 2013

S de "Semantics won't do" (XXI)



 

domingo, 26 de maio de 2013

sábado, 25 de maio de 2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

P de Poética (XLV)


ESCREVER


Se eu pudesse havia de transformar as palavras
em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra sêca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todos este artifício da composição sintá-
tica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, sêcas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim, ou não.
E, como isto, continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas
do espírito...
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da
pedrada, do tal ataque às coisas certas e negadas...
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gestos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre
vós passaria, transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?


Irene Lisboa, Outono havias de vir,
Lisboa: Seara Nova, 1937




[Lisboa, 18/05/013]

quarta-feira, 22 de maio de 2013

L de (A) Luz da Sombra (XXXVII)




[Sintra, 18/05/013]

domingo, 19 de maio de 2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

P de "Pássaros de acaso" (V)

 

 
 
[...]
The quill from a buzzard
The blood writes the word
I want to know am I the sky
Or a bird
[...]
 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

CANCIÓN FINAL


Las rosas de papel no son verdad
y queman
lo mismo que una frente pensativa
o el tacto de una lámina de hielo.

Las rosas de papel son, en verdad,
demasiado encendidas para el pecho.



Jaime Gil de Biedma, Las personas del verbo,
Barcelona: Seix Barral, 1996

terça-feira, 14 de maio de 2013

T de de "(um) torso dobrado pela música" (XIII)




- um poema de Edna St. Vicent Millay.

domingo, 12 de maio de 2013

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (VII)


"Ainda que fale da decadência, do desaparecimento e do abandono, o seu trabalho é composto de imagens muito belas e sedutoras. Isso não é um paradoxo?

Eu não sei como é que as pessoas chegam ao meu trabalho, mas sei que, de algum modo, ficam contagiadas por certo modo de ver. E isso resulta de eu conseguir descobrir beleza em algumas das coisas para que olho: é como se ao fim de algum tempo, e para sobreviver, a decadência se transformasse num resto de beleza. Porque, se eu não conseguir amar as coisas que fotografo, não consigo sobreviver."


Entrevista de Nuno Crespo a Paulo Nozolino
in "Revista 2", Público, 12/05/2013



*


"[...] Fiz um curso rápido nas Belas Artes e escolhi Fotografia.

Por causa de um fotógrafo, uma fotografia?

Não. Com 17 anos tinha uma namorada que eu adorava e que acabou tudo. Estávamos no Parque Eduardo VII. Como é que pode ser se eu nem tenho uma fotografia tua? Corri a casa e fui buscar uma Kodak Instamatic do meu pai que ainda tenho. Tirei-lhe várias fotografias e nunca mais a vi. Não estava tudo perdido."


Entrevista de Clara Ferreira Alves a Paulo Nozolino
in "Revista Única", Expresso, 29/01/2011

E de Estado da nação (VI)


[Lisboa, 11/05/013]

sábado, 11 de maio de 2013

 
VISÃO II
 
 
No óculo aparecem ao longe
cidades em chamas:
morrem os fogos ficam as ruínas
 
A quem mais pedir contas
senão a Prometeu
A nossa caixa de fósforos
fechada e bem fechada
sempre assim a mantivemos e podemos
em qualquer altura provar
que não falta nenhum fósforo
para nos ilibarmos.
 
 
Günter Kunert
(tradução de Leopoldina Almeida)
 
 
 


[Fotografia de Ferdinando Scianna, Sicília/1960]
 

P de Poética - XLIII b


sexta-feira, 10 de maio de 2013

P de Paredes frias (II)


TEMPOS VENTOSOS
 
 
Com movimentos desajeitados
as árvores reagem
ao vento
Se não tivessem raízes punham-se
em fuga
escorraçadas e estéreis
em rebanhos desordenados a caminho
dum lugar onde nada nem ninguém
as quisesse vergar
 
Subitamente
que vastidões vazias!
 
 
Günter Kunert
(trad. de João Barrento)
 
 
 
 
[Lisboa, 05/05/013]
 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" - VII

 
 
Danação,
um filme de Béla Tarr (1988)
 


terça-feira, 7 de maio de 2013

domingo, 5 de maio de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXV c


ENTARDECER NO SUBÚRBIO



Aqui o ar circula tranquilo.
Aqui brilha um candeeiro a gás e
ali outro. Aqui cheira a lilases
e ao fumo 
de uma locomotiva perdida.
Os ruídos chegam mais longe
do que de dia, levados
por asas negras.
Atrás da sebe cada palavra dita
é aquilo que era no princípio: um começo.
Assim
só mais tarde os que falam
assumem as suas palavras, de estranhos
passam a vizinhos, rodeiam-se 
dos seus jardins, de ruas acidentadas,
de carris de comboios, de Universo:
Faça-se subúrbio.
Faça-se noite.
Faça-se silêncio. 

Por esta noite
suspendo a criação.


Günter Künert
[Trad. de Fernanda Portela 
in 90 Poemas de Günter Kunert, Lisboa: apáginastantas, 1983]

A de Amor (XXII)


FICÇÃO



Há uma eternidade
tal como a imagino
movimento continuado
dança
ao som de uma canção antiga na penumbra
de um bar velho e sebento
no cheiro a suor e pó-de-arroz
de um par
de um corpo estranho mas íntimo
abraçado em melodia sempre igual
uma valsa lenta talvez
algo arrastada arrebatada
e que também às vezes uma voz escondida
cantasse: Dream a little dream of me
e os nossos lábios se beijassem
como se estivessem
milénios distantes de nós
à luz de candeeiros de resto bem vulgares
que me encadeiam.


Günter Kunert
[Tradução de José Ribeiro da Fonte
in 90 Poemas de Günter Kunert, Lisboa: apáginastantas, 1983]




sábado, 4 de maio de 2013

P de Poética (XLIII)


sexta-feira, 3 de maio de 2013

E de Estado da nação (V)


 
 
Truman Capote, A Árvore da Noite,
Lisboa: Livros do Brasil, s/d

quinta-feira, 2 de maio de 2013

P de Paredes frias




[Lisboa / Abril 013]

terça-feira, 30 de abril de 2013

R de Rebeca (XVI)

 
HISTÓRIA DE CÃO
 
 
eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada


Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação,
2ªed. revista, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005
 
 
 
 
Francis Bacon, "Study of a dog", 1952
 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

E de Epígrafe (III)

 
"[...] É de enlouquecer, se se pensa no caso: dormir, ter um sonho, recordá-lo... e vendê-lo. E correr com o dinheiro à taberna mais próxima! Sabe o que isto parece, menina? Assemelha-se à vida.
[...]"
 
Truman Capote, "O Homem Que Comprava Sonhos / Master Misery"
in A Árvore da Noite, Lisboa: Livros do Brasil, s/d
 
 

domingo, 28 de abril de 2013

M de Museu Imaginário - c



[Ontem, em Lisboa]

sábado, 27 de abril de 2013

M de Museu Imaginário - b



André Malraux, "Le Musée Imaginaire", 1947
 © Maurice Jarnoux

E de Epígrafe - II b


 A PORTA QUE SE FECHA



Tu bem o vês, irmã: estou cansada,
cansada, gasta, enfraquecida,
como o pilar de um portão estreito
à entrada de um imenso pátio;
como um velho pilar
que toda a vida
impediu a violenta fuga
de uma louca aí fechada.
Oh, as palavras prisioneiras
que batem, batem
furiosamente
à porta da alma
e a porta da alma
que pouco a pouco
cruelmente
se fecha!
E todos os dias a passagem se estreita
e todos os dias o assalto é mais forte.
E no último dia
- eu sei-o bem -
no último dia
quando um único raio de luz
se derramar pela fresta restante *
no seio das trevas,
então haverá a onda monstruosa,
o choque terrível,
o uivo mortal
das palavras não nascidas
em direcção ao último sonho de sol.
E depois,
atrás da porta para sempre fechada,
haverá a noite plena,
a frescura,
o silêncio.
E depois,
com os lábios fechados,
com os olhos abertos
sobre o misterioso céu da sombra,
haverá
- tu bem o sabes - 
a paz.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
Lisboa: Averno, 2012






* in Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa: Averno, 2013, p.5

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A de Abril (II)





[Santarém, 25 de Abril de 2013]

S de "Semantics won't do" (XVIII)


quarta-feira, 24 de abril de 2013

C de "(O) começo de um livro..." - ou de um dia (II)


Our share of night to bear,
Our share of morning,
Our blank in bliss to fill,
Our blank in scorning.

Here a star, and there a star,
Some lose their way.
Here a mist, and there a  mist,
Afterwards - day!


in Poems of Emily Dickinson,
com desenhos de Helen Sewell,
Connecticut: The Heritage Press, 1952

terça-feira, 23 de abril de 2013

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXIX)


 
 
[...]
 
my eyes burn and claws rush to fill them
and in the morning after the night
i fall in love with the light
it is so clear i realize
that here at last i have my eyes
[...]
 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXVIII)


     Não aderimos a uma crença por ela ser verdadeira (todas o são), mas porque uma força obscura a isso nos impele. Quando essa força nos abandona, é a prostração, a derrocada, a conversa com aquilo que resta de nós próprios.
     Cioran é um iluminador: um homem ultra-religioso que quase ultraja a religião.
     No intervalo deste quase (equilíbrio no gume de uma lâmina de barba do tamanho do mundo), Cioran conversa com Deus e olha-nos do interior do seu diálogo, tornado, mediante a escrita, num solilóquio subterrâneo.
     Lá, onde ele se movimenta, a luz penetra por múltiplos orifícios: impõe-se reuni-la num único foco com a ajuda das trevas multiplicadas.
     O trecho que cito atrás iluminou-me: é uma luva na minha mão direita; a força obscura, referida por Cioran, é-me absolutamente familiar.
     A iluminação, porém, não anula a sombra: a luz de uma coincidência é fugaz; só subsiste, fulgurante, a recordação perene da surpresa.


António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013




  
[Cioran, L'Élan Vers le Pire, fotografias de Irmely Jung,
Paris: Gallimard, 1988]

sábado, 20 de abril de 2013

V de Vista para um saguão (III)

 
 
[o Barnabé a espreitar o regresso da Primavera,
esta manhã.]
 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

E de Encontro (II)


XVI
 
 
À flor da pele. O vermelho esfacelado, a
continuada linha preta, os olhos
vivos ou parados
olham para os degraus sujos da
vida - têm todos a mesma expressão
concentrada e ausente
um ponto, um traço no suceder solene - a
verdade imaterial. E logo
 
a bronquidão asmática dos pombos
a mobilidade leve da arvéola
o clamor de amorio dos pavões. E logo
 
uma grande alegria
quando dois estranhos se encontram, quando
de noite
ao fim de escavarem o túnel das suas vidas -
     em cada extremo, Aleluia - os dedos se encontram, e
logo
a cisterna dos rostos.
 
 
 
João Miguel Fernandes Jorge
in João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Pinheiro, Oferenda,
Porto: Modo de Ler, 2012
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

P de Perder a cabeça (X)


[Paris, 1950]

A de Aniversário (XIII)

 
 
Jacopo da Pontormo, "Retrato de Alexandre de Medicis", séc. XVI
(Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

domingo, 14 de abril de 2013

H de Humanidade (VI)


UMA MORTE RÁPIDA


It is not.
Samuel Beckett


[...]


*


As três ante-câmaras da morte: a "cozinha" 
e "sala" da cesta, e este aquário de restaurante
a quem também poderíamos chamar "despensa". A lagosta
arrasta-se junto ao fundo e bate no vidro
duas vezes, as pinças envoltas em elásticos.

A previsão é de tempestade. Lê-a 
no vidro, meu elegante, moreno e belo estranho;
é a mesma para todos nós afinal -
um breve mergulho: de olhos virados
para o fogo.


Robin Robertson
[Trad. ID]




[Harpo Marx desenhado por Dali,
com uma maçã e uma lagosta na cabeça]

sábado, 13 de abril de 2013

quinta-feira, 11 de abril de 2013

P de "Pássaros de acaso" (III)


ECO



Nada se perdeu, querido ser,
Nada se perde nunca;
A palavra por dizer
Não está exausta, pode ainda ser ouvida.
Música que mancha;
O silêncio permanece...
Oh, o eco está por toda a parte, pássaro inarmadilhável.


Lawrence Durrell, Alexandria,
sel. e trad. Luís Nogueira,
Coimbra: Fenda Edições, 1982

quarta-feira, 10 de abril de 2013

C de Começar o dia com um livro novo (XXV)


SANTOS MÁRTIRES (LX)



e quando (a meio do Inverno) já só contamos com a frialdade dos dias
afundados numa tarde azul - a luz oblíqua desferida sobre a cristaleira -
mantas herdadas de dezembros mais frios afogadas numa feérica luz
de últimos dias («viste o meu espelho»); quase silêncio e a televisão acesa

lá muito em baixo, alguns vultos de casais junto das águas do lago –
à margem da toada dos cães que latem (aqui ao lado) no logradouro vizinho
e dos filhos de estranhos que choram em apartamentos de outros prédios;
(«o espelho») a vaga toada de uma festa no terraço - uma boda de Inverno

apagam-se as gambiarras; um morrão pontuando o reflexo de uma janela -
logo um instante dourado que sobre tudo se abate e (tudo) transforma em silêncio;
fitando a escuridão das águas e as lantejoulas varridas pela brisa para o lodo da margem:
ao fundo da sala, sempre a luz sobre a cristaleira a morrer às nossas costas


Alexandre Sarrazola, View-Master,
Lisboa: Língua Morta, 2013

[Obrigada, Alexandre]

terça-feira, 9 de abril de 2013

M de Museu Imaginário - XXVI b


 
[Lisboa / Fevereiro 013]
 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

R de Rebeca (XV)


[05/04/013]

sexta-feira, 5 de abril de 2013

R de (O) rio da minha aldeia (VI)


CASTELO DA PENA
 
 
 
Velha casa de Sintra. À demorada parede
chegou o  musgo do outono.
Trouxe comigo as duas raparigas que
me enviaste, em fotografia, na última
carta. Demorado oval
vindo de longe, rosto que foram no
início do século passado.     À sua
entrada sentaram-se de vestidos brancos com
rendas de Benavente no colar do peito.
 
Deram as mãos, grato sorriso
pelo tempo que lhes foi futuro.     Botas bem
atacadas, espreita a brancura da meia, realce da
pele queimada pelo sol da beira Tejo. Esfolões
na correria.     "Foram avós e entraram
num poema que nunca leste. Uma delas
lembrava-se de ter beijado a mão ao rei Manuel
por altura de uma cheia memorável."
Não sei a desrazão das duas
meninas desenhadas num cenário de rebentação
ribeirinha.     Ondas do mar do Tejo.
Olhos plenos de uma noite serena quando um
rapaz, o remador, lhes falou em voz baixa no vão de uma janela
até perceber qual lhe oferecia o riso mais eterno.
 
Descansa o remador, com uma história de
afogado nos lábios. Vai contar: "esse bocado de
carne"     Nos vidros das janelas
o resplendor da serra bate no espelho
de prata; clarão cerrado no óleo dos retratos.
Não sei que pé direito das raparigas
chutou a morte com um ruído surdo - o
remador, aquele que se põe a contar afogados sonhos
 
desce, sobre a vila, a névoa de outono; as meninas,
amarrotado laço no escuro, submergem na
terra amolecida da lezíria. "Fúcsias envasadas no mês
do inverno", oiço os lábios do remador.
Uma noite longínqua no castelo de Sintra. Remador
de um tempo perdido,
em voz baixa
indica o assento na sombria barca, rema o clamor
no deserto do rio.
 
 
João Miguel Fernandes Jorge, Castelos - I a XXXV,
Lisboa: Averno, 2004
 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXVII)


"[...] A woman came to a window with a candle and some mess she was making, and then that was gone and there was no light anywhere but the moon. [...]"

Gerard Manley Hopkins



Jacques Prévert, "La lune" (colagem)

L de Leituras paralelas (III)

terça-feira, 2 de abril de 2013

S de Sol - b


"J'ai tout donné au soleil
Tout sauf mon ombre"

Guillaume Apollinaire

segunda-feira, 1 de abril de 2013

F de "Falar separa, também."*








* Albert Camus

R de Regresso ao real (VII)

MEU DUPLO


1


A edição que circula de mim pelas ruas
Foi feita sem o meu consentimento.
Existe a meu lado um duplo
Que possui um enorme poder:
Ele imprimiu esta edição da minha vida
Que todo o mundo lê e comenta.

Quando eu morrer a água dos mares
Dissolverá a tinta negra do meu corpo,
Destruindo esta edição dos meus pensamentos, sonhos e amores
Feita à minha revelia.



Murilo Mendes

domingo, 31 de março de 2013

P de Páscoa Feliz (V)

M de Museu Imaginário - X b




[Azulejinhos/Algures junto ao Tejo]

sexta-feira, 29 de março de 2013

B de Biorritmo (LXXI)






En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.


¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.


Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.


Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.


¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.


En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.


¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.


Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.


¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".


En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.

Federico García Lorca, "Pequeño Vals Vienés"

I de Intimidade - II b



[Lisboa, 27/03/13]

I de Intimidade (II)


CADÁVER ESQUISITO HETERODOXO COM JOÃO RODRIGUES NO CAFÉ GELO EM 1961


Intimidade côr de bombazina
a cercar uma aranha de bambú
passa um polícia a cheirar a benzina
parte-se uma vidraça e surges tu

Sobrenadavam carpas na baía
um novo ritmo que vem de Las Vegas
daquele lado já nada se ouvia
quadrilha de gaivotas quase cegas

Por dentro era o som dum violino
por fora havia um vago marulhar
menos que nunca penso no destino
e bebo a tua sombra devagar.


António Barahona, O Som do Sôpro,
Lisboa: Poesia Incompleta, 2011

segunda-feira, 25 de março de 2013

C de "C'était lors de mon premier arbre" (II)


[...]
Hoje, se vou a Benfica, não encontro Benfica. Os pavões calaram-se, não sobra nenhuma cegonha na palmeira dos Correios (já não existe a palmeira dos Correios e a quinta dos Lobo Antunes foi vendida), o senhor Silvino, o senhor Florindo e o senhor Jardim morreram, ergueram prédios no lugar das casas, mas eu suspeito que por baixo destes edifícios de cinco e seis e sete e oito e nove andares, num ponto qualquer sob estas marquises e estas sucursais de banco, o senhor Paulo ainda conserta, com guitas e caniços, as asas dos pardais, a dona Maria Salgado ainda trota, de vivenda em vivenda, com a Sagrada Família, na sua redoma embaciada, o Lafaeite e o Jaurés jogam ao virinhas, na Calçada do Tojal, cercados de vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. Não há pavões nem cegonhas e contudo a acácia dos meus pais, teimosa, resiste. Talvez que só a acácia resista, que só ela sobeje desse tempo como o mastro, furando as ondas, de um navio submerso. A acácia basta-me. Arrasaram as lojas e os pátios, não tocam o "Papagaio Louro" no sino, mas a acácia resiste. Resiste. E sei que se fechar os olhos e encostar a orelha ao seu tronco, hei-de ouvir a voz da minha mãe a chamar
- Antóóóóóóóónio
e um miúdo ruço atravessará o quintal, com um saco de berlindes na algibeira, passará por mim sem me ver, e sumir-se-á lá em cima, no quarto, a sonhar que ao menos a mulher do Sandokan não o obrigaria nunca a comer puré de batata nem sopa de nabiças durante o tormento do jantar.


António Lobo Antunes, "Elogio do Subúrbio"
in Crónicas, Lisboa: Publicações D. Quixote, 1995

sábado, 23 de março de 2013

I de "I'm building a still to slow down the time" - b


Não interessa se falho na tarefa,
ao fim e ao cabo o imutável sempre
continuará imutável, e nada
somo ou tiro. A lua estará quieta
despertando-me sempre. Enquanto as margens
continuarão rasgadas pelo mar.
O sol continuará esse implacável
assombro. Sempre haverá uma aranha
a vomitar cristal e seda juntos.
Sempre haverá névoa. E continuará
a feroz ternura das tuas mãos.


Amalia Bautista, Estou Ausente,
trad. Inês Dias, 
Lisboa: Averno, 2013




[Lisboa, 19/03/13]

Y de "You must believe in spring" (VI)



Vittore Carpaccio, "Retrato de um cavaleiro", 1510
[Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid]

sexta-feira, 22 de março de 2013

Y de "You must believe in spring" (V)


 
 
"Winter weather is not my soul
But the biding for spring
[...]"
 

quinta-feira, 21 de março de 2013

L de Leituras paralelas (II)


[Hoje, a caminho do trabalho.]

quarta-feira, 20 de março de 2013

Y de "You must believe in spring" (IV)


AS ANDORINHAS



As andorinhas giram miram viram, piam piadas, microfilmam a nuvem, sobrevoam casos, sobrevoam casa, quebram fios, quebram copos, falam mal de mim, falam mal de mim. Não existe mam, não existe mem, não existe mom, não existe mum. Portanto elas falam mal de mim. Giram, miram, piram.

As an-dorinhas: na minha infância houve uma Dorinha quase sem peitos, mas cheirava bem. Quebrava sempre copos. 

O céu é adorável, andorinhável, andorável, acoplável com a terra, inquebrantável.

Ditado pisano: "per l'Annunziata la rondine è arrivata; e se non è arrivata per strada o è malata."


Murilo Mendes




[Hoje, no regresso da Primavera e da família de andorinhas que mora no saguão.]

terça-feira, 19 de março de 2013