quarta-feira, 9 de julho de 2014

I de "I want to ride my bike" (III)


BICICLETA


Por vezes, ocorria-te pensar no destino
que tomavam as carroças dos ciganos,
ou no brilho dos olhos do carteiro, variando
porta a porta, como se tivesse lido as cartas.

Mas aquele era um tempo de certezas. Os pedais
da bicicleta depressa te tiravam qualquer dúvida.

Um dia, porém, emigrou a família do João,
levando-nos à força o melhor dos ciclistas:
a rua parcialmente destruída, toda a gente
debruçada no seu próprio parapeito. E ninguém
se lembrou de nos dizer o que é o mundo. 


Vítor Nogueira, Segunda Voz,
Lisboa: Averno, 2014




Alain Resnais, Hiroshima mon amour (1959) 

R de Rezar na era da técnica (X)




Beau Séjour, 03/03/012

terça-feira, 8 de julho de 2014

P de "Paredes frias" (IV)



 [Lisboa, 18/05/013]

sábado, 5 de julho de 2014

C de Coração arquivista (II)




Exposição "Fotógrafo Artur Pastor"
no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico
(6 de Junho - 31 de Agosto de 2014)



sexta-feira, 4 de julho de 2014

O de "Onde se lê gato" (IX) - Et semper


HOTEL ASTÓRIA, QUARTO 229

                        in memoriam


Há uma roda gigante que não pára, do outro lado do rio. Também a música ao vivo teima em continuar pela noite dentro, poluindo os arredores de Santa Clara e os lençóis inquietos onde já encontraste o sono.


*


Mas já só consigo pensar na roda pequena da vida, que ontem se deteve no corpo de um gato escuro, violentamente terno. Há ausências assim, impronunciáveis. Saber que a dor se irá tornando tolerável, que continuaremos a cumprir a breve sucessão dos dias, é tudo menos um consolo. Será, quando muito, um acréscimo de humilhação, o modo baixo como a vida nos obriga a aceitar o inaceitável. 


*


Toquei ontem, pela última vez, na cauda fria de um gato. Chamava-se, neste mundo, Barnabé.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014







[Abril de 2011]

quarta-feira, 2 de julho de 2014

P de "Pelos caminhos da manhã" (IV)


Pelos caminhos da manhã...



[Mikhail Guzhavin, "Wild Flowers in a Field", 1927]


... à tarde.



terça-feira, 1 de julho de 2014

C de "Chama a luz com um assobio" (III)




Ethan e Joel Coen, Inside Llewyn Davis, 2013



Q de "Que a alegria em mim permaneça"


OXFORD STREET, ESQUINA COM ORCHARD STREET:
A GAITA DE BEIÇOS


Se chegássemos à alegria por uma escada de incêndio
tu arranjarias maneira de descer tocando
a música modesta sempre a mesma
que em Setembro na tua cadeira de rodas
se a alegria: duas três frases curtas
sopradas ao passante (e o cabelo
encardido (a sujidade do pobre vista à luz
se arranjasses maneira: um belo salto
cheio de swing

acaso vou agora até ao fim dos meus anos
lembrar-te como estavas
sentado de través tocando con brio
dissimulado à esquina: isto em Setembro
sob o oiro de um sol que bate forte
a música nos beiços (qualquer coisa
de rarefeito e por aí
tão brutalmente alegre - diria comovente (1)

se a alegria: o que chamamos alegria
com o pudor da meia idade
tu aqui tocando por alguns peniques
duas três frases muito curtas
os pombos que baixam da cornija
os autocarros (sopradas como exemplo

se então houvesse um fogo em todos nós
e a tua boca (o sebo no casaco: arranjarias
maneira de levar-nos os que já
não ouvem nem se falam nem
(alegre; sujo e alegre
inquietante neste mundo
onde comemos até o coração


(1) - que esperar da Europa?/ as ruas pardas/ desidratam a imaginação/ o século XXI devia ser amanhã



Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso e outros poemas,
Porto: erva daninha, 1980

C de "Chama a luz com um assobio"*


PARECIA UM MENDIGO


Parecia um mendigo na rua
Garrett. Depois vi melhor, à porta do sete:
vagabundo e músico. Não tinha
instrumentos. Era só assobio e a mão
que batia naquele caixotão. Parava
por vezes essa melodia: ladrava
de cão e o gato imitava.
Olhei-o nos olhos – surpresa brilhava
- e ele respondeu, com largo sorriso.
Retomou a música, com assobiadela:
mais pandeiro cavo no tal papelão.
Passavam caixeiros e a boa crioula,
madames e tipos, bem engravatados.
É isto, Cesário, que marca Lisboa?


Eduardo Guerra Carneiro, A Noiva das Astúrias,
Lisboa, & etc, 2001


* O título do post é um verso de Murilo Mendes.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

M de "My house, I say" (V)


HORTA


Ao domingo, justamente, a cidade está aqui,
mas não existe. Há quem fique para trás
na agitação da fuga, ocupando por exemplo
uma horta varrida pela auto-estrada.

No princípio era apenas uma hipótese
remota, um conjunto de raízes (não se sabe
o número exacto) a descer por uma rocha.
Felizmente, verde-terra e massicote,
misturados na paleta, dão um verde gracioso.

Pacotes de sementes para um jardim
podem desencadear uma avalanche. Olhai bem
para ele agora. O que vai fazer com tudo isto?
Alface, pimentos, batatas, perguntas
de resposta múltipla sobre auto-estima.

Perdida no inferno dos subúrbios,
a horta faz parte de um plano maior:
trazer o tubarão a superfície, encontrar
no viaduto uma espécie de refúgio,  conseguir
escapar à morte no centro comercial.


Vítor Nogueira,  Modo fácil de copiar uma cidade,
Lisboa: & etc, 2011





[Os primeiros produtos da horta.]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

B de Biografia - IV c *


Coberta que fosse
de aves, ficava
num longo dizer

a rapariga. Havia misturado
um perfume a erva brava
e a canela. Nem sei

por que me lembro
do que já queima
os lábios, agora que se dobra

o coração no frio.


José Carlos Soares
in Telhados de Vidro n.º5,
Lisboa: Averno, Novembro de 2005

*

segunda-feira, 23 de junho de 2014

P de Poética (XXXIX)


1: Olhos nos olhos de todos os túneis.
2: As colinas cerúleas de Bolonha.
3: Esse jogo de sombras entre os pórticos.
4: A métrica exacta de Morandi.
5: As janelas abertas do museu.
6: Um vidro sujo frente ao Boticelli.
7: As mãos de David. A altura. O sexo.
8: O mundo inteiro e ninguém (os fantasmas).
9: Delicada aguarela: amanhecer.
0: Túneis no túnel de todos os olhos.



JOSÉ ÁNGEL CILLERUELO
[Trad. Inês Dias]

C de Criatura(s)



Giorgio Morandi


*



Emile Savitry, "Alberto Giacometti dans son atelier", c.1946

domingo, 22 de junho de 2014

R de Rezar na era da técnica (XVII)


FÁBRICA DE SONHOS


Na fábrica dos sonhos
alguém desfaz
o pão nosso de cada dia
sobre um consomé de algas,
enquanto murmura
uma oração que ninguém reza
e se transformou
na música de fundo
de um restaurante chinês
onde os grãos de arroz germinam
em cada colherada.

Já não há religiões
no menu dos domingos
e alguém pede a Deus
que ressuscite no paladar
das suas preces,
que volte a ser real
no suave traço
da caneta gasta do empregado
que anota diligentemente
cada pedido,
para que o enfeitem
com cabelo de anjo
na cozinha.


ANA MERINO
[Trad. Inês Dias]




[Fotograma de Wong Kar-Wai, Chungking Express, 1994]


sábado, 21 de junho de 2014

J de (O) Jardim e a Casa (VI)




Norman Bluhm and Frank O'Hara,
"Meet Me in the Park" (gouache on paper)
in Poem-Paintings, 1960.
© Estates of Norman Bluhm and Frank O'Hara

segunda-feira, 16 de junho de 2014

L de Ler


Cada um regressa aonde pode e ele volta sempre à cara das palavras. Como uma campânula exposta ao seu órgão de luzes procurava o sentido dos nomes, a morte percutida, a fala transformada no som da linguagem, a arte esquecida e excessiva da poesia. Num tempo neutro acordo onde brilha perdido o dia um peixe. Deu passos em volta, feridos que bastasse, disse sim, também eu se quisesse enlouquecia. Bordou páginas e páginas pelos séculos adiante, noites inteiras, entregue a quase toda a vida dessa voz em maton. Quase toda. E concluiu: meu deus, não compreendo nada. Talvez seja louco revulsivo. E meteu-se debaixo do vulcão. Aspirava a esquecer tudo, deixar que a luz viesse do princípio. Era quando morríamos entregues à febre. Alguém tocava um piano velho dentro do copo de vinho que bebia e do fundo do café apenas chegava o inverno sem sons. A viagem ao fim da noite. Tropeçou em muitos lugares, tropeços e tropeços, semáforos trocados, algumas vezes caiu, pouco. Mas nunca mais de lá saiu, do sítio certo. Nem é preciso, está tudo dito, e é definitivo. Faltava acabar a obra, o outro lado do crime. Porque foi assente: apenas o amor e as palavras são dois crimes sem perdão. E é aqui que aparecem cidades indefesas  presságios a tatuar-lhe a alma, a violentar as margens do que já tinha sido o sangue prisioneiro. É um menino musical, um grafonolinho. Fala, fala e fala. Como as crianças que têm medo no escuro e precisam de ouvir nem que seja a sua própria voz. Ela está permanentemente no escuro. Ele é um homem  que tem uma certa dificuldade em ouvir mais de dez por cento do que lhe dizem. Mesmo quando, ou sobretudo quando está a olhar nos olhos de quem fala.  De repente diz qualquer coisa, uma frase, uma palavra, e é a síntese perfeita. O acorde perfeito, já agora. De modo que, veja-se, aconteceu esta coisa um tanto apocalíptica: descobriram que se entendiam segundo as leis de uma energia desregulada - e imagina-se isto aplicado a dois corpos em movimento. Há quem lhe chame paixão, há quem diga que é onde um homem pode começar a morrer. Porque, também já se sabe, agora o combate é de vida ou de morte. O verdadeiro lado donde o crime será fatal. 


José Amaro Dionísio, O Nome do Mundo, 
Lisboa: Relógio D'Água, 1996

sexta-feira, 13 de junho de 2014

R de Rezar na era da técnica (XVI)




[Véspera de Santo António 014]

terça-feira, 10 de junho de 2014

P de "Portugal não é um país pequeno." (X)



[ID, Junho 013]


Muro

Embora a literatura se resuma ao gesto desesperado de um eu, ela só faz para mim sentido enquanto abertura ao outro, quer dizer, enquanto busca de um modo de acolher e expressar a condição humana. Este o meu desentendimento radical com o país da língua em que escrevo. Onde vejo mundo, aqui vê-se bairro. Onde vejo humano, aqui vê-se fulano. Onde vejo literatura, aqui vê-se grupo. Eu e o país jamais nos reconheceremos. Frente a frente, sempre o mesmo muro, a mesma violência surda, a mesma sufocação.


Jorge Roque
in Cão Celeste n.º 5, Lisboa, Maio de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

E de Estudos literários comparados (V)


TERNA É A NOITE


Tender is the night
entre arquitecturas brancas
de casas com vedações intrincadas
caminhos de gravilha, suave
é a noite, uma pegada
um rangido, um passo
                                    sopra
azul e líquido o vento
da paixão civilizada
                                 algo
ficou entre as rodas de água 
na praia, uma tábua carcomida
e uma grinalda de algas

                                       vão passar
vinte anos, vinte constelações de cubos
de gelo em copos azulados, então
a harmonia da Europa consistia
num fundo de Bach
                                 e num suicídio
colectivo a cento e oitenta à hora

um alcoolizado levou consigo
o segredo do sofrimento pela impenetrabilidade 
a assepsia da água corrente
                                             e dos dentífricos
destruidores da nicotina
                                        Francis
Scott Fitzgerald, excessivamente inteligente
para engolir o mundo de cada dia
como um espesso melaço sobre as torradas.


Manuel Vázquez Montalbán
[Trad. Inês Dias]

domingo, 1 de junho de 2014

I de (A) Insustentável Leveza do Ser (III)


Post com dedicatória: 
para o Alexandre, a Ana Isabel, a Conceição, a Daniela, a Isabel, o Luis, 
a Maria, a Marta, o Manel, o Ricardo, a Rosa e o Rui.



[ID, Ribatejo / Março 014]