[ID, Madrid, Agosto 015]
terça-feira, 13 de outubro de 2015
domingo, 11 de outubro de 2015
P de Poética - LV b
LARGO 2 DE MARÇO
para a Inês Dias
o largo tinha tanto.
o largo tinha tudo.
à noite o largo não era escuro,
e eu tinha as mãos de meu pai
a contar-me, pelos dedos, a luz do dia seguinte.
o largo ficou cheio de tempo,
e sem um sorriso para gastar.
já não há nenhum mistério
na Casa das Palmeiras.
a morte não gosta de palavras com quatro sílabas,
prefere o pó.
Emanuel Jorge Botelho, Fecho as cortinas, e espero,
Lisboa, Averno, 2014
[ID, Casa das Palmeiras, 06/015]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
S de "Solo se pierde lo que no se ama" (IV)
John Ashbery
in Uma Onda e Outros Poemas,
trad. colectiva (Mateus, Junho de 1991), Lisboa: Quetzal, 1992
R de Regresso ao Trabalho - XLVIII b
Ouvida ontem, no Teatro Maria Matos,
a várias vozes e a vários tempos:
[...]
Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
[...]
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
S de 'Solo se pierde lo que no se ama." (III)
"Magoar alguém é um acto de intimidade relutante."
Hanif Kureishi, Intimidade,
trad. Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2015
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
terça-feira, 22 de setembro de 2015
T de Tratado de Pedagogia (LXIV)
Como se alguém teimosamente mudo
ante o esplendor que não se vê de dia
tivesse ignorado os livros de estudo
e saído porta fora da aula de poesia
Como se alguém falhasse a pontaria
frente às imagens raiadas de sonhos
e só tivesse olhos para aquela alegria
que mora dentro de espelhos medonhos
Como se alguém arrancasse a cabeça
e a escondesse no bolso das calças
de forma a que a luz esquecesse depressa
ter entrado sempre por janelas falsas
Como se alguém sem o saber dissesse
adeus muito antes da hora da verdade
e ficasse à esquina de tudo o que acontece
e a peste estourasse na cidade
Vítor Silva Tavares, Púsias,
Porto: Edições 50kg, 2015
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
sábado, 12 de setembro de 2015
T de Tratado de Pedagogia (LXV)
É O DOMÍNIO
É o domínio
de uma luz que dura além do limite
e que ao terminar não oferece
um tempo mínimo para os olhos
se habituarem ao escuro.
Percebo o luar sem olhar para o alto
e a lembrança de certas constelações
(o cinturão de Órion, as três Marias
tão ordenadas) é como a memória
que trago do mar visto pela última vez
há nove anos - eu, animal aleijado
de tudo o que seja sentido cardeal.
Em minha cidade, lugar de origem,
não sei apontar o leste,
desconheço a existência de pássaros migradores
e até do que me é cativo
guardo um conhecimento impreciso:
de onde chegam as aves
que invadem todas de uma vez as árvores
da Praça XV ao entardecer
de um mês preciso, mas qual?
Janeiro e o apogeu do calor?
Junho e as suavidades do frio?
E como dizer que um dia é diferente
do lixo amontoado nas esquinas?
Ver simplesmente é um hábito
que se desaprende e do qual
mal se sente falta; o coração
é uma história contada por um velho
que, se sabe o próprio nome, ignora
o lugar em que nasceu
e, se ainda enxerga os pássaros nos ares,
não sabe se está diante de seres eternos
ou se os contempla em seu último voo.
Daniel Francoy, Calendário,
Lisboa, Artefacto, 2015
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
terça-feira, 8 de setembro de 2015
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
O de "Onde se lê 'gato'..." (XI)
[Mário Botas, Lychee, 1982]
[Telhados de Vidro n.º 20, com capa de Daniela Gomes,
Lisboa, Averno, Setembro de 2015]
Libellés :
"A poesia é o menos.",
"Les yeux du chat",
AVERNO
domingo, 6 de setembro de 2015
N de "No fundo, é isto" (V)
Que venham mais dias
(com os mesmos amigos e o mesmo amor)
e tragam "chão de andar caminho longo a passear".
terça-feira, 1 de setembro de 2015
T de "The days grow short" (XIII)
NOSTALGIA III DO ESPAÇO LIVRE
Era setembro era o sol ao longo do rio sem pressas
arrumado o calor na garagem dos eléctricos então
dispúnhamos das tardes para conversas súbitas
e longas de falar acetinadas o trato negligente
en ville dizíamos quando vier novembro
teremos mel e torradas de pão centeio caseiro
Éramos os rapazes os pensamentos as pontas escuras
do corpo que brilhavam na contraluz verde
das raparigas desembarcadas posto o sol já
noite A travessia curta no barco da Afurada
terminava numa impaciência e subíamos para o 18
com fome direcção Carmo
Carlos Leite, O Desflashar dos Espaços,
Lisboa, Black Sun, 1987
[ID, Lisboa, 'Bom Ano Novo', 014]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
C de Criatura(s) (II)
CRIATURAS
Hamlet descobriu-as nas formas das nuvens,
mas eu vi-as na mobília da infância,
criaturas debaixo das camadas de madeira,
uma escondida num aparador polido,
outra franzindo o olho atrás de uma cadeira,
outra uivando no escritório silencioso de minha mãe,
presa no grão do ácer, congelada em carvalho.
Também via estas silhuetas
no padrão em espiral do papel de parede,
e nos vários verdes de um candeeiro de porcelana,
cada uma parecendo tão melancólica, tão amaldiçoada,
algumas olhando para mim como se soubessem
todos os segredos de um rapaz enigmático.
Muitas vezes estava a sonhar acordado,
deitado na carpete, e uma aparecia junto de mim,
o nariz descomunal, o olhar vazio.
É pois fácil de compreender a minha reacção
esta manhã na praia
quando abriste a tua mão para me mostrares
uma pedra que tinhas apanhado à beira-mar.
“Não vês a cara?” perguntaste tu
enquanto a vaga fria tocava os nossos tornozelos nus.
“Aqui está o olho, a linha da boca, como se estivesse
a fazer uma careta, como se lhe doesse alguma coisa.”
“Bem, talvez seja porque tem um corte
que atravessa o comprimento da testa,
para não mencionar uma espécie de bico retorcido”,
disse eu, tirando-te a aberração da mão e atirando-a
por cima do brilho das ondas azuis
para que assim continuasse a levar a sua vida anormal
no escuro profundo do mar
e parasse de importunar veraneantes inocentes como nós,
parasse de estragar o verão a toda a gente.
Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Averno, 2014
[ID, Madrid, 20/08/015]
terça-feira, 25 de agosto de 2015
S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXII
"[...] É fácil, estando no mundo, viver segundo a opinião do mundo; é fácil, na solidão, viver segundo a nossa, mas tem grandeza aquele que no meio da multidão guarda com uma serenidade perfeita a independência da solidão."
- RALPH WALDO EMERSON
in A Confiança em Si, com trad. de Saul Costa e fotografias de Daniel Costa,
Lisboa, Livros Vendaval, 2001
domingo, 23 de agosto de 2015
sábado, 22 de agosto de 2015
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
terça-feira, 18 de agosto de 2015
domingo, 16 de agosto de 2015
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
sábado, 8 de agosto de 2015
H de História de amor - d
Lívio olha fixamente na direcção de Mónica. Imaginemos um soneto canónico em que um dos versos tem mais quatro ou cinco silabas que os restantes. Sucede o mesmo com este plano, que colocado nas mãos de qualquer montador de qualquer parte do mundo ficaria com uma boa meia dúzia de segundos a menos. Eu penso, todavia, que é preciso querer errar para que se acerte absolutamente.
João César Monteiro, "Quem espera por sapatos de defunto morre descalço"
in Obra Escrita 1, Lisboa: Letra Livre, 2014
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
O de "Onde se lê gato" (X)
"Dormir ao sol, ser o dono da tua pequena ilha ao sol. Governá-la é: dominar o mundo, nada fazer."
Rui Caeiro, 49 espinhas para um gato,
com desenhos de Luis Manuel Gaspar,
Lisboa: Edição do Autor, 1997
terça-feira, 4 de agosto de 2015
N de "Na Casa de Julho e Agosto" (V)
MANHÃ DE AGOSTO
Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo "para esse universo
onde a vida é trocada por palavras".
Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.
Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms - tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.
Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.
E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.
Isabel de Sá, O Duplo Dividido,
Lisboa: &etc, 1993
domingo, 2 de agosto de 2015
R de Revisões da matéria dada (X)
[...] O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma tenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis,
trad. José Colaço Barreiros,
trad. José Colaço Barreiros,
Lisboa: Editorial Teorema, 2002
sábado, 1 de agosto de 2015
quinta-feira, 30 de julho de 2015
L de Ler (XII)
A FERIDA
A enorme ferida na cabeça começou a sarar
No início da sétima semana.Os seus vales escureceram e as suas aldeias sossegaram:
De alegria não me movia nem ousava falar,
Não a curariam os médicos, mas o tempo com a sua perícia paciente.
E continuamente o meu espírito regressava a Tróia.
Após ter navegado pelos mares, de cada vez lutava
Em ambos os lados, partilhando o júbilo da condição
De Helena, e crescendo - para ver Tróia arder -
Como Neoptólemo, esse rapaz obstinado.
Deitado, eu descansava como estava prescrito.
Planeava com os Gregos e fazia sortidas
Diárias com Heitor. Por fim, a minha cama
Transformou-se na tenda de Aquiles, à qual o rústico
Tersitas vinha relatar os inúmeros mortos.
Era eu próprio: sem estar sujeito ao fôlego de outro homem:
O meu único comandante era o inimigo.
E enquanto o cinturão pendia, a espada na bainha,
Tersitas surgia arrastando-se exausto,
Vociferando a morte do meu amigo Pátroclo.
Gritei pelas armas, ergui-me e não cambaleei.
Mas, quando o pensei, a ira da sua nobre dor
Subiu-me à cabeça e, voltando-me, senti
Que toda a minha ferida se abria. De novo
Tive de deixar sarar aqueles vales iluminados pela tempestade.
Thom Gunn
in A Destruição do Nada e Outros Poemas, trad. de Maria de Lourdes Guimarães,
Lisboa: Relógio D'Água, 1993
domingo, 26 de julho de 2015
quarta-feira, 15 de julho de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
C de Começar o dia com um livro novo (XXXVI)
"[...] O vento na chuva, a chuva na cara, a cara no homem, o homem no passo, o passo no caminho. Batman a chegar ao cruzamento, pouco depois das alminhas, defronte do cemitério. E o autor acompanhando, entretido com as imagens, como quem se liberta da sala onde escreve encarcerado, como se toda a liberdade do mundo convergisse num só ponto: o vento na chuva, a chuva na cara, a cara no homem, o homem no passo, o passo no caminho. Lá vai Batman. Tira da algibeira um saco amarfanhado, um saco prontamente cheio, figos que depressa colhe à beira da estrada. O vento na chuva, a chuva na cara, a cara no homem, o homem no passo, o passo no caminho. Toca o telefone da sala. O autor ouve, não olha. Seus olhos são passos no caminho. [...]"
Vítor Nogueira, Amanhã logo se vê,
com capa de Adriana Molder e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Averno, 2015
[ID, São Miguel, 26/06/015]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
terça-feira, 7 de julho de 2015
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLVII)
PUZZLE
eu tenho uma tristeza chama-se desemprego
destrói corações esvazia os depósitos
quebra as flechas desse arqueiro que corre pelo bosques
e fecha os postos de correios
eu tenho uma tristeza de fábricas em ruína
uma tristeza
inútil como um puzzle como um mapa sem norte
Pablo García Casado, El Mapa de América,
Barcelona: DVD, 2001
[Fotografia e tradução: ID]
segunda-feira, 6 de julho de 2015
D de "Do outro lado do rio" - b
Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer
Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos.
E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia
O seu eco no coração, morreu o meu hóspede.
Um riso, um sapato, o violino de estar aqui
Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas
E havia segundos que fazíamos explodir
Saltar da lama do tempo, para assim o podermos entender.
Agora foi-se, o seu nome descansa, descansa o tempo
Levanto os pés do caminho e vou andando
Às arrecuas pelo atalho, o eco traz-me
O longe e o perto, eu e nunca, o hóspede-amigo do lado de lá.
Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.
Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes
Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.
Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,
Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.
Robert Schindel
in Telhados de Vidro n.º 11, trad. João Barrento,
sexta-feira, 3 de julho de 2015
quarta-feira, 1 de julho de 2015
quarta-feira, 24 de junho de 2015
sexta-feira, 19 de junho de 2015
C de "Cabeça, coração"
ROSTOS
Baralho a contragosto
Como cartas os rostos,
E todos me são caros.
Às vezes algum tomba,
Inútil procurá-lo.
Desaparece a carta.
Nada sei a respeito.
Entretanto era um rosto
Que eu amava, e tão belo.
Baralho as outras cartas.
O inquieto do meu quarto,
Ou seja, o coração,
A arder continua,
Não já por essa carta,
Por outra em seu lugar.
É um novo semblante.
E o baralho, completo,
Mas sempre desfalcado.
Eis tudo quanto sei,
E ninguém sabe mais.
Jules Supervielle traduzido por Carlos Drummond de Andrade
in Poesia Traduzida, São Paulo, Cosac Naify, 2011
quarta-feira, 17 de junho de 2015
V de "Volto ao jardim"
PASSOS TRISTES
Voltando para a cama aos apalpões depois de mijar
Abro as espessas cortinas e sinto um sobressalto
Ao ver as nuvens velozes e a limpidez da luz.
Quatro da manhã: os jardins de sombras agrestes
Sob um céu cavernoso, espicaçado pelo vento.
Há nisto tudo algo que faz rir,
A lua a correr por entre as nuvens ralas
Como fumo de canhão acaba por se destacar
(Luz cor de pedra aguça as arestas dos telhados)
Elevada, insensata e solitária -
Pastilha do amor! Medalhão da arte!
Oh, lobos da memória! Imensidões! Não,
Virado lá para cima, sinto um leve arrepio.
Esse olhar tão singularmente duro e claro
Tão amplo, tão fixo e penetrante
Traz à memória a intensidade e a dor
De ser jovem; e recorda que nada disso vai voltar,
Mas existe plenamente, noutro sítio, para outros.
Philip Larkin, Uma Antologia,
trad. Maria Teresa Guerreiro, Coimbra: Fora do Texto, 1989
terça-feira, 16 de junho de 2015
segunda-feira, 15 de junho de 2015
A de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências" (III)
[Carlos Botelho, “Retrato de Berta Mendes” - detalhe, 1932]
ATENÇÃO
ATENÇÃO as aranhas percorrem a cidade
os vermes infiltram-se Deus não pára de morrer
Exaustivamente a noite despe-se para o amor
sujo baleado sinistro
Os assassinos rodeiam a mesa de oiro
pesados de ódio metálicos podres
e as múmias falantes completam o seu dia
Estamos cercados de postes
devorando automóveis telégrafos
a minha ternura é este avião que passa
este cigarro de treva e limo
Nascemos (ouve-me bem) para alimento da noite
sem outra voz senão veneno
porque entre os vidros e o horizonte
são doidos e lívidos os sonhos que restam
Chegaram panteras escarlates a moer raiva
amantes aterrorizados horas precipícios
e nem uma pequenina flor ou uma praia
ou um leito para estendermos os cabelos
Só a miséria destas noites o cansaço deste tempo
E o MAR entre fumo e chuva
o AMOR dissolvido sob uma campânula a VIDA
António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015
[ID, Sintra, Maio 011]
domingo, 14 de junho de 2015
sexta-feira, 12 de junho de 2015
quinta-feira, 11 de junho de 2015
D de Dansa (VI)
"The picture that changed everything? When I fell in love with Sabine and she taught me how to dance. After that moment, I stopped taking pictures to prove anything or to be daring. After that moment, I started taking pictures out of love and curiosity. After that moment, I started dancing. [...]"
domingo, 7 de junho de 2015
R de (O) rio da minha aldeia
[...]
É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.
[...]
in Ofício Cantante, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009
[ID, Santarém / Julho 010]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
sábado, 6 de junho de 2015
quinta-feira, 4 de junho de 2015
quarta-feira, 3 de junho de 2015
E de Espera (XXII)
KM acaba de morrer.
Ele é pequeno e passa diante da minha janela fazendo fumaça no
frio; a boca é grande e ri sozinha quando ele passa.
Não quero que você chegue, amor.
Eu fico aqui inventando a sua demora com sisudez exímia.
Radio on.
Radio on.
Passa carregando a mala pesada.
Mas não chega.
Agora chega.
É aqui o amor?
Ana Cristina Cesar
in Novas Seletas, org. Armando Freitas Filho,
terça-feira, 2 de junho de 2015
segunda-feira, 1 de junho de 2015
P de Perder a cabeça (III)
TRITÃO
[Jardim da Sereia, séc. XVIII]
Quero-te assim.
Com as pernas que nunca tive
para te seguir
e todos os dedos que fui
amputando, do lado do coração,
em castigo por não te saber tocar.
Assim, de cabeça finalmente perdida
para te explicar apenas
o essencial -
não há palavras
suficientes a este amor.
E um poema, mesmo de pedra,
também passa, a menos que
te ganhe para sempre os olhos.
Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014
[Tritões: Sintra, 30/05/15 e Coimbra, 18/12/11]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
sexta-feira, 29 de maio de 2015
R de Regresso ao Trabalho (XLIII)
AUBADE
I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
The mind blanks at the glare. Not in remorse
- The good not done, the love not given, time
Torn off unused - nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.
This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear - no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anasthetic from which none come round.
And so it stays just on the edge of vision,
A small, unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.
Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can't escape,
Yet can't accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.
- PHILIP LARKIN
segunda-feira, 25 de maio de 2015
sábado, 23 de maio de 2015
A de A poesia é o menos (IX)
TORRE
À noite, somos todos mortais outra vez.
Para que serve uma torre de vigia?
Já se sabe que na selva é mesmo assim:
procurar lenha, acender uma fogueira,
manter os mosquitos afastados.
Contudo, à luz do dia, sobrevoar o mar largo
sem ser visto, escalar ao menos uma vez
o elevador de Santa Justa.
São pombas, nos beirais, ou são os corvos
da mui nobre cidade de Lisboa?
Vítor Nogueira
in AA.VV., Rua dos Correeiros N.º 60, 1.º Esquerdo,
Lisboa, 22 de Maio de 2013
terça-feira, 19 de maio de 2015
C de Começar o dia com um livro novo (XXXV)
NIGHTHAWKS AT THE DINER
Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa‑me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase‑silêncio desabrigado e informe.
Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo‑nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual — um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.
Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Só nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagesse de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.
O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
Daqui a algumas horas esperar‑nos‑á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há‑de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer‑lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
— do lado mais esquivo da morte.
Mas bastam‑me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.
Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com selecção de Rui Pires Cabral,
posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, capa de Luís Henriques
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa: Alambique, 2015
Libellés :
"A luz da sombra",
"A poesia é o menos.",
"Nous deux encore",
ALAMBIQUE
sexta-feira, 15 de maio de 2015
terça-feira, 12 de maio de 2015
A de A poesia é o menos (VIII)
A poesia é a vida? Pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem
- e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura,
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo dum poeta
a beber, dia a dia, a bica preta,
convencido de si, do seu recheio...
A poesia é a vida? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro,
e a morte se meta de permeio.
Alexandre O'Neill
in Poesias Completas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000
quarta-feira, 6 de maio de 2015
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