quinta-feira, 17 de julho de 2014

V de Vício (XI)




Julio Cortázar, La vuelta al día en ochenta mundos, tomo I,
Madrid: Siglo XXI España Editores, 2007


*


O QUE É GRAVE


Quando não se fala inglês,
ouvir falar de um bom romance policial inglês
que não foi traduzido para alemão.

Ver, quando faz calor, uma cerveja
que não se pode pagar.

Ter um novo pensamento
que não se pode embrulhar num verso de Hölderlin
como fazem os professores.

Em viagem, à noite, ouvir bater as ondas
e dizer para si que elas sempre o fazem.

Muito grave: ser convidado,
quando lá em casa há mais sossego,
o café é melhor
e não é preciso conversar.

O mais grave de tudo:
não morrer no Verão,
quando tudo é claro
e a terra é leve para a enxada.


Gottfried Benn, 50 Poemas,
   versão de Vasco Graça Moura, 
   Lisboa: Relógio D'Água, 1998
     
       
 
[Gottfried Benn em 1932]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A de A poesia é o menos (IV)



ID, "Poem of the river" / Março 014

domingo, 13 de julho de 2014

T de Tratado de Pedagogia (VII)



[Ontem à noite, entre corações.]

sábado, 12 de julho de 2014

C de Cores




Isabel Nogueira e Paulo Furtado, A Kind of Blue,
Lisboa: Alambique, 11 de Julho de 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

P de (Po)ética (L)


ROMANCE OU FALÊNCIA


Posta assim, como uma fraude à escala mundial
a falácia que se esconde nas traseiras
de um título, escrevo como uma puta,
um meteorologista político
que antecipa qualquer vento que sopre
a ouvidos inocentes
as verdades mais inconvenientes

O meu trabalho
é descobrir o nome mais bonito
que se pode dar ao vandalismo,
convencer toda a gente,
como quem esconde o derradeiro eclipse
de que escolher o romance
não é caminhar para a falência


Luís Pedroso, Romance ou Falência,
Lisboa: Artefacto, 2014

F de Fazer Fotografia - LXIX b



quarta-feira, 9 de julho de 2014

I de "I want to ride my bike" (III)


BICICLETA


Por vezes, ocorria-te pensar no destino
que tomavam as carroças dos ciganos,
ou no brilho dos olhos do carteiro, variando
porta a porta, como se tivesse lido as cartas.

Mas aquele era um tempo de certezas. Os pedais
da bicicleta depressa te tiravam qualquer dúvida.

Um dia, porém, emigrou a família do João,
levando-nos à força o melhor dos ciclistas:
a rua parcialmente destruída, toda a gente
debruçada no seu próprio parapeito. E ninguém
se lembrou de nos dizer o que é o mundo. 


Vítor Nogueira, Segunda Voz,
Lisboa: Averno, 2014




Alain Resnais, Hiroshima mon amour (1959) 

R de Rezar na era da técnica (X)




Beau Séjour, 03/03/012

terça-feira, 8 de julho de 2014

P de "Paredes frias" (IV)



 [Lisboa, 18/05/013]

sábado, 5 de julho de 2014

C de Coração arquivista (II)




Exposição "Fotógrafo Artur Pastor"
no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico
(6 de Junho - 31 de Agosto de 2014)



sexta-feira, 4 de julho de 2014

O de "Onde se lê gato" (IX) - Et semper


HOTEL ASTÓRIA, QUARTO 229

                        in memoriam


Há uma roda gigante que não pára, do outro lado do rio. Também a música ao vivo teima em continuar pela noite dentro, poluindo os arredores de Santa Clara e os lençóis inquietos onde já encontraste o sono.


*


Mas já só consigo pensar na roda pequena da vida, que ontem se deteve no corpo de um gato escuro, violentamente terno. Há ausências assim, impronunciáveis. Saber que a dor se irá tornando tolerável, que continuaremos a cumprir a breve sucessão dos dias, é tudo menos um consolo. Será, quando muito, um acréscimo de humilhação, o modo baixo como a vida nos obriga a aceitar o inaceitável. 


*


Toquei ontem, pela última vez, na cauda fria de um gato. Chamava-se, neste mundo, Barnabé.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014







[Abril de 2011]

quarta-feira, 2 de julho de 2014

P de "Pelos caminhos da manhã" (IV)


Pelos caminhos da manhã...



[Mikhail Guzhavin, "Wild Flowers in a Field", 1927]


... à tarde.



terça-feira, 1 de julho de 2014

C de "Chama a luz com um assobio" (III)




Ethan e Joel Coen, Inside Llewyn Davis, 2013



Q de "Que a alegria em mim permaneça"


OXFORD STREET, ESQUINA COM ORCHARD STREET:
A GAITA DE BEIÇOS


Se chegássemos à alegria por uma escada de incêndio
tu arranjarias maneira de descer tocando
a música modesta sempre a mesma
que em Setembro na tua cadeira de rodas
se a alegria: duas três frases curtas
sopradas ao passante (e o cabelo
encardido (a sujidade do pobre vista à luz
se arranjasses maneira: um belo salto
cheio de swing

acaso vou agora até ao fim dos meus anos
lembrar-te como estavas
sentado de través tocando con brio
dissimulado à esquina: isto em Setembro
sob o oiro de um sol que bate forte
a música nos beiços (qualquer coisa
de rarefeito e por aí
tão brutalmente alegre - diria comovente (1)

se a alegria: o que chamamos alegria
com o pudor da meia idade
tu aqui tocando por alguns peniques
duas três frases muito curtas
os pombos que baixam da cornija
os autocarros (sopradas como exemplo

se então houvesse um fogo em todos nós
e a tua boca (o sebo no casaco: arranjarias
maneira de levar-nos os que já
não ouvem nem se falam nem
(alegre; sujo e alegre
inquietante neste mundo
onde comemos até o coração


(1) - que esperar da Europa?/ as ruas pardas/ desidratam a imaginação/ o século XXI devia ser amanhã



Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso e outros poemas,
Porto: erva daninha, 1980

C de "Chama a luz com um assobio"*


PARECIA UM MENDIGO


Parecia um mendigo na rua
Garrett. Depois vi melhor, à porta do sete:
vagabundo e músico. Não tinha
instrumentos. Era só assobio e a mão
que batia naquele caixotão. Parava
por vezes essa melodia: ladrava
de cão e o gato imitava.
Olhei-o nos olhos – surpresa brilhava
- e ele respondeu, com largo sorriso.
Retomou a música, com assobiadela:
mais pandeiro cavo no tal papelão.
Passavam caixeiros e a boa crioula,
madames e tipos, bem engravatados.
É isto, Cesário, que marca Lisboa?


Eduardo Guerra Carneiro, A Noiva das Astúrias,
Lisboa, & etc, 2001


* O título do post é um verso de Murilo Mendes.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

M de "My house, I say" (V)


HORTA


Ao domingo, justamente, a cidade está aqui,
mas não existe. Há quem fique para trás
na agitação da fuga, ocupando por exemplo
uma horta varrida pela auto-estrada.

No princípio era apenas uma hipótese
remota, um conjunto de raízes (não se sabe
o número exacto) a descer por uma rocha.
Felizmente, verde-terra e massicote,
misturados na paleta, dão um verde gracioso.

Pacotes de sementes para um jardim
podem desencadear uma avalanche. Olhai bem
para ele agora. O que vai fazer com tudo isto?
Alface, pimentos, batatas, perguntas
de resposta múltipla sobre auto-estima.

Perdida no inferno dos subúrbios,
a horta faz parte de um plano maior:
trazer o tubarão a superfície, encontrar
no viaduto uma espécie de refúgio,  conseguir
escapar à morte no centro comercial.


Vítor Nogueira,  Modo fácil de copiar uma cidade,
Lisboa: & etc, 2011





[Os primeiros produtos da horta.]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

B de Biografia - IV c *


Coberta que fosse
de aves, ficava
num longo dizer

a rapariga. Havia misturado
um perfume a erva brava
e a canela. Nem sei

por que me lembro
do que já queima
os lábios, agora que se dobra

o coração no frio.


José Carlos Soares
in Telhados de Vidro n.º5,
Lisboa: Averno, Novembro de 2005

*

segunda-feira, 23 de junho de 2014

P de Poética (XXXIX)


1: Olhos nos olhos de todos os túneis.
2: As colinas cerúleas de Bolonha.
3: Esse jogo de sombras entre os pórticos.
4: A métrica exacta de Morandi.
5: As janelas abertas do museu.
6: Um vidro sujo frente ao Boticelli.
7: As mãos de David. A altura. O sexo.
8: O mundo inteiro e ninguém (os fantasmas).
9: Delicada aguarela: amanhecer.
0: Túneis no túnel de todos os olhos.



JOSÉ ÁNGEL CILLERUELO
[Trad. Inês Dias]

C de Criatura(s)



Giorgio Morandi


*



Emile Savitry, "Alberto Giacometti dans son atelier", c.1946

domingo, 22 de junho de 2014

R de Rezar na era da técnica (XVII)


FÁBRICA DE SONHOS


Na fábrica dos sonhos
alguém desfaz
o pão nosso de cada dia
sobre um consomé de algas,
enquanto murmura
uma oração que ninguém reza
e se transformou
na música de fundo
de um restaurante chinês
onde os grãos de arroz germinam
em cada colherada.

Já não há religiões
no menu dos domingos
e alguém pede a Deus
que ressuscite no paladar
das suas preces,
que volte a ser real
no suave traço
da caneta gasta do empregado
que anota diligentemente
cada pedido,
para que o enfeitem
com cabelo de anjo
na cozinha.


ANA MERINO
[Trad. Inês Dias]




[Fotograma de Wong Kar-Wai, Chungking Express, 1994]


sábado, 21 de junho de 2014

J de (O) Jardim e a Casa (VI)




Norman Bluhm and Frank O'Hara,
"Meet Me in the Park" (gouache on paper)
in Poem-Paintings, 1960.
© Estates of Norman Bluhm and Frank O'Hara

segunda-feira, 16 de junho de 2014

L de Ler


Cada um regressa aonde pode e ele volta sempre à cara das palavras. Como uma campânula exposta ao seu órgão de luzes procurava o sentido dos nomes, a morte percutida, a fala transformada no som da linguagem, a arte esquecida e excessiva da poesia. Num tempo neutro acordo onde brilha perdido o dia um peixe. Deu passos em volta, feridos que bastasse, disse sim, também eu se quisesse enlouquecia. Bordou páginas e páginas pelos séculos adiante, noites inteiras, entregue a quase toda a vida dessa voz em maton. Quase toda. E concluiu: meu deus, não compreendo nada. Talvez seja louco revulsivo. E meteu-se debaixo do vulcão. Aspirava a esquecer tudo, deixar que a luz viesse do princípio. Era quando morríamos entregues à febre. Alguém tocava um piano velho dentro do copo de vinho que bebia e do fundo do café apenas chegava o inverno sem sons. A viagem ao fim da noite. Tropeçou em muitos lugares, tropeços e tropeços, semáforos trocados, algumas vezes caiu, pouco. Mas nunca mais de lá saiu, do sítio certo. Nem é preciso, está tudo dito, e é definitivo. Faltava acabar a obra, o outro lado do crime. Porque foi assente: apenas o amor e as palavras são dois crimes sem perdão. E é aqui que aparecem cidades indefesas  presságios a tatuar-lhe a alma, a violentar as margens do que já tinha sido o sangue prisioneiro. É um menino musical, um grafonolinho. Fala, fala e fala. Como as crianças que têm medo no escuro e precisam de ouvir nem que seja a sua própria voz. Ela está permanentemente no escuro. Ele é um homem  que tem uma certa dificuldade em ouvir mais de dez por cento do que lhe dizem. Mesmo quando, ou sobretudo quando está a olhar nos olhos de quem fala.  De repente diz qualquer coisa, uma frase, uma palavra, e é a síntese perfeita. O acorde perfeito, já agora. De modo que, veja-se, aconteceu esta coisa um tanto apocalíptica: descobriram que se entendiam segundo as leis de uma energia desregulada - e imagina-se isto aplicado a dois corpos em movimento. Há quem lhe chame paixão, há quem diga que é onde um homem pode começar a morrer. Porque, também já se sabe, agora o combate é de vida ou de morte. O verdadeiro lado donde o crime será fatal. 


José Amaro Dionísio, O Nome do Mundo
Lisboa: Relógio D'Água, 1996

sexta-feira, 13 de junho de 2014

R de Rezar na era da técnica (XVI)




[Véspera de Santo António 014]

terça-feira, 10 de junho de 2014

P de "Portugal não é um país pequeno." (X)



[ID, Junho 013]


Muro

Embora a literatura se resuma ao gesto desesperado de um eu, ela só faz para mim sentido enquanto abertura ao outro, quer dizer, enquanto busca de um modo de acolher e expressar a condição humana. Este o meu desentendimento radical com o país da língua em que escrevo. Onde vejo mundo, aqui vê-se bairro. Onde vejo humano, aqui vê-se fulano. Onde vejo literatura, aqui vê-se grupo. Eu e o país jamais nos reconheceremos. Frente a frente, sempre o mesmo muro, a mesma violência surda, a mesma sufocação.


Jorge Roque
in Cão Celeste n.º 5, Lisboa, Maio de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

E de Estudos literários comparados (V)


TERNA É A NOITE


Tender is the night
entre arquitecturas brancas
de casas com vedações intrincadas
caminhos de gravilha, suave
é a noite, uma pegada
um rangido, um passo
                                    sopra
azul e líquido o vento
da paixão civilizada
                                 algo
ficou entre as rodas de água 
na praia, uma tábua carcomida
e uma grinalda de algas

                                       vão passar
vinte anos, vinte constelações de cubos
de gelo em copos azulados, então
a harmonia da Europa consistia
num fundo de Bach
                                 e num suicídio
colectivo a cento e oitenta à hora

um alcoolizado levou consigo
o segredo do sofrimento pela impenetrabilidade 
a assepsia da água corrente
                                             e dos dentífricos
destruidores da nicotina
                                        Francis
Scott Fitzgerald, excessivamente inteligente
para engolir o mundo de cada dia
como um espesso melaço sobre as torradas.


Manuel Vázquez Montalbán
[Trad. Inês Dias]

domingo, 1 de junho de 2014

I de (A) Insustentável Leveza do Ser (III)


Post com dedicatória: 
para o Alexandre, a Ana Isabel, a Conceição, a Daniela, a Isabel, o Luis, 
a Maria, a Marta, o Manel, o Ricardo, a Rosa e o Rui.



[ID, Ribatejo / Março 014]

sexta-feira, 30 de maio de 2014

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (L)



Do 'Terrorismo Poético' (cf. Hakim Bey) e do outro
Lisboa / Maio 014

domingo, 25 de maio de 2014

M de "Me, Myself and I"



[18/05/014]

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXVIII)


Novas criaturas surgem da terra, com as narinas mordiscando o ar,
os esquilos abundam e repetem-se como perguntas,
os vermes continuam a investigar até as folhas repetirem quem são,
mas aqui temos apenas uma calma sem estações,
e sem história, que é tédio interrompido pela guerra.
A civilização é impaciência, um frenesi de térmitas
em redor dos formigueiros de Babel, antenas transmissoras
e mensagens; mas aqui o caranguejo-eremita acobarda-se quando encontra
uma sombra e pára até a do eremita.
Um medo escuro da minha sombra alongada, confesso,
para este caranguejo escrever “Europa” é ver aquela criança agachada
junto a um canal sujo em Rimbaud, chaminés, e borboletas, pontes antigas
e as manchas sombrias de resignação à volta dos olhos de carvão
de crianças que se parecem todas com Kafka. Treblinka e Auschwitz
descendo o rio com o fumo de barcaças industriais
e a prosa de uma página a que sacudo as cinzas,
os túmulos dos buracos de caranguejo, a ampulheta dos séculos
que passaram sobre esta baía como o pó soprado pelo harmatão
das nossas tribos, dispersando-se sobre as ilhas,
e a lua erguendo-se na sua procura, como a lanterna de Diógenes
sobre a esfinge do promontório, de equilíbrio e justiça.

Derek Walcott
[Trad. ID]

sábado, 24 de maio de 2014

C de Começar o dia com um livro novo (XXX)


LÍRIOS


Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso. 
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento. 
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
- sem frio nem perda nem desastre - 
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro. 


Rosa Maria Martelo, Matéria,
Lisboa: Averno, 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

N de "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos" (VI)


QUINTAL


Deixou a porta aberta, não deve demorar.
Depois de escurecer costuma respeitar
o recolher obrigatório. Durante o dia, sim,
o bairro é mais pequeno, tem apenas de inserir-se
na colmeia, uma ilha maior, com mais recursos:
algumas calorias para o corpo funcionar.

Dantes havia aqui peixes dourados.
O quintal é agora uma ruína, uma faca velha
cravada no ombro, com a ponta de ferro
a fechar-se atrás de mim. Cruzes fluorescentes
espalhadas pelos cantos sinalizam as paredes
mais instáveis. E ao centro, junto ao tanque,
um pequeno grafito avermelhado. É sangue, não é?

Se não é, podia ser, combinava com o gemido
do baloiço enferrujado, a peça de metal no topo
do sarcófago. Quer dizer, hoje vinha visitá-lo.
Mas a casa aguentará mais do que o peso
de um homem? A memória é um túnel por baixo
da terra antiga. E eu não sei como descer.

Quanta corda ainda temos?


Vítor Nogueira, Modo fácil de copiar uma cidade,
Lisboa: &etc, 2011



[Ribatejo, 18/05/014]

terça-feira, 13 de maio de 2014

sexta-feira, 2 de maio de 2014

E de Espinhas para um gato (XVII)





Brassaï

quinta-feira, 1 de maio de 2014

J de Janelas (VI)


A DE OLHOS ABERTOS


A vida brinca na praça
com o ser que nunca fui
e aqui estou 
dança pensamento
na corda do meu sorriso
e todos dizem que isto passou e é
vai passando
vai passando
o meu coração abre a janela
vida aqui estou 
a minha vida 
o meu sangue só e hirto
fere o mundo
mas quero saber-me viva
mas não quero falar
de morte
nem das suas estranhas mãos


ALEJANDRA PIZARNIK
versões de Maria Sousa, Coimbra, do lado esquerdo, 2014




Mario Giacomelli, série “The Village”, 1958

segunda-feira, 28 de abril de 2014

P de Perder a cabeça (XII)




...ou C de Cabeça nas nuvens:
ID, 27/04/014

sexta-feira, 25 de abril de 2014

R de Regresso ao real (IX)


Eu tentava recordar
esse belo
poema
nunca escrito

formado no seio da noite
e quase maduro
mergulhara
fundido na luz do dia
já não existia

esse poema era verdadeiramente
um poema sobre si próprio
tal como uma pérola
é a descrição de uma pérola
e uma borboleta a descrição de uma borboleta

por instantes tinha-o na ponta da língua
e inquieto esperava
a sua transmutação
em verbo

esse poema evanescente
à luz do dia
fechou-se sobre si próprio
e só às vezes
volta a brilhar com intensidade

mas nunca tento retirá-lo
das suas profundezas obscuras
para o depor sobre a margem lisa
da realidade


Tadeusz Rózewicz
in Inquiétude, Paris: Buchet/Chastel, 2005

[Trad. ID]

segunda-feira, 21 de abril de 2014

C de Começar o dia com um livro novo (XXIX)


Coragem, pediu

para afagar os indícios, desenhar
a preto onde passar
a língua

desfeita pela insónia. Aquela
mão, aquela mão pousada
no poema, atrevia-se

a sufocá-lo.


José Carlos Soares, Igor Dgah,
Coimbra, Debout Sur L'Oeuf, 2014

domingo, 20 de abril de 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

S de Sense of Snow (XIV)




Vincent Gallo, Buffalo '66, 1998

segunda-feira, 7 de abril de 2014

L de (A) Luz da Sombra (XL)




Nazaré / Agosto 013

C de Cicatriz (XIII)


CICLO SEGUNDO


1.


A mulher volta sempre quando
a noite se constrói entre duas
facas _______________.

O seu regaço ondula como
a música. O pássaro que lhe desfaz
os cabelos e lhe sopra na pele,
esconde-se na mesma fogueira
castanha, entre as nuvens.


Jaime Rocha, Lâmina,
Lisboa, Língua Morta, 2014

domingo, 6 de abril de 2014

P de Páscoa Feliz (IV)



Ó DOMINGO RADIOSO DE SOL E CLAMORES


Atravesso a quaresma em paz
Enquanto nevoeiro seco e tormentas
Agonizam o mundo
Meu irmão longínquo

Não estou doente
Vou num sossego
Do lado bom do diabo
Ter com o bando à clareira

Comprei drogas baratas na farmácia
E na Feira do Leite
Os adeptos fazem juras de amor ao clube
Até à morte com urina e abraços

Gosto do domingo
Andar aos peidos
Não produzir
Como deus
Descansam os trabalhadores ao domingo


João Almeida
in LadradorLisboa: Averno, 2012
/ As Condições Locais, Guimarães: Opera Omnia, 2014

sexta-feira, 4 de abril de 2014

M de Música para os meus olhos (XXVII)



[Alcântara, 20/02/12 - e um adjectivo escondido atrás da coluna]



Conheço uma velha parede onde os sonhos se refugiam todos os dias ao fim da tarde. Os mais ambiciosos julgam que a velha parede é um mealheiro, e alguns chegam mesmo a confundi-la com um pote de moedas guardado por mouras encantadas ou onde nasce o arco-íris. 

Incólume à ambição, a parede continua a envelhecer ao ritmo dos sonhos, que a procuram silenciosos e cansados, à medida que o sol se esconde atrás da parede onde se refugiam.

Creio que só as crianças conhecem o verdadeiro segredo da parede. A chave que dá acesso aos sonhos acumulados durante séculos, e que consiste em considerá-la apenas uma velha parede: onde se escondem quando brincam às escondidas e usam como baliza quando jogam à bola. Ou vão ainda mais longe, e garatujam também um sonho na cal da velha parede, com mão incerta mas determinada.


Jorge Fallorca

in Telhados de Vidro n.º11, Lisboa, Averno, 2008.


domingo, 30 de março de 2014

Q de "Que a alegria em mim permaneça" (VI)


ACEITAÇÃO


À parte o céu sem pássaros
os nomes molhados das ruas
as ilhas de outrora submersas todas
como uma lição esquecida de geografia
à parte a minha língua perdida para sempre
vocábulos traduzidos com ajuda de um dicionário
sem história sem terra sem água
à parte a quase dor
do meu terceiro exílio
isto vai.


Aris Alexandrou (trad. Gil de Carvalho) 
in Telhados de Vidro n.º13, 
Lisboa: Averno, Novembro de 2009

sexta-feira, 28 de março de 2014

M de Música para os meus olhos (XXXIX)


COIN, 1994


Gostava de poder dizer não
ao ruído do mundo.
Mas já recolhem o lixo, choveu demasiado,
e eu aperto sem convicção
o cinto verde que me cala o estômago.

Estaríamos, até, a falar da morte
- não fosse este o vigésimo
domingo a seguir à Trindade.
Tronos e dominações mo dizem,
numa rua de Lisboa que
fica, às vezes, tão perto de Leipzig.

Não abdicarei, é claro,
"dos escuros abismos do pecado"
- que em alemão se dizem doutra maneira.

Pecado, maior, é tentar traduzir a música.


Manuel de Freitas, Büchlein Für Johann Sebastian Bach,
 Lisboa: Assírio & Alvim, 2003

terça-feira, 25 de março de 2014

D de Dansa (IV)


[...]


III


Eu, que amei Pina Bausch muito antes
do português comum,
e ouvi depois
os novos-ricos a gritarem "bravo"
contra o seu rosto onde passava tudo
o que eles não entendiam,
gostava de pedir em alemão
"Tanzt", como ela pediu.
Estive uma vez
com uma rapariga da Holanda
que fez uma audição em Wuppertal.
"Make me laugh", eis o que Pina disse.

A rapariga,
é claro,
não entrou.
Mas não falava disso com despeito.
Brilhava, tarde fora, e não devido
à chuva que caía em Amesterdão.

Brilhava e eu não sei se, como os outros,
se esqueceu, entretanto,
de dançar.


Hélia Correia 
in Telhados de Vidro n.º18,
Lisboa, Averno, 2013

segunda-feira, 17 de março de 2014

E de Estudos literários comparados (IV)





Wong Kar Wai, Fallen Angels (1995) 

domingo, 16 de março de 2014

E de Estudos literários comparados (III)




Robert Bresson, Au Hasard Balthazar (1966)

sábado, 15 de março de 2014

B de BIRDS, BEASTS AND FLOWERS




     If I go alone,
I’ll lie in the wildflowers
     and dream of you


 Rod Willmot
in The Haiku Anthology: English Language Haiku by Contemporary American and Canadian Poets 
(Anchor Books, 1974)





['Pelos caminhos da manhã', 30/05/010]

quinta-feira, 6 de março de 2014

R de Rezar na era da técnica (XV)


CHURCH GOING


Once I am sure there's nothing going on
I step inside, letting the door thud shut.
Another church: matting, seats, and stone,
And little books; sprawlings of flowers, cut
For Sunday, brownish now; some brass and stuff
Up at the holy end; the small neat organ;
And a tense, musty, unignorable silence,
Brewed God knows how long. Hatless, I take off
My cycle-clips in awkward reverence,

Move forward, run my hand around the font.
From where I stand, the roof looks almost new -
Cleaned, or restored? Someone would know: I don't.
Mounting the lectern, I peruse a few
Hectoring large-scale verses, and pronounce
'Here endeth' much more loudly than I'd meant.
The echoes snigger briefly. Back at the door
I sign the book, donate an Irish sixpence,
Reflect the place was not worth stopping for.

Yet stop I did: in fact I often do,
And always end much at a loss like this,
Wondering what to look for; wondering, too,
When churches fall completely out of use
What we shall turn them into, if we shall keep
A few cathedrals chronically on show,
Their parchment, plate and pyx in locked cases,
And let the rest rent-free to rain and sheep.
Shall we avoid them as unlucky places?

Or, after dark, will dubious women come
To make their children touch a particular stone;
Pick simples for a cancer; or on some
Advised night see walking a dead one?
Power of some sort will go on
In games, in riddles, seemingly at random;
But superstition, like belief, must die,
And what remains when disbelief has gone ?
Grass, weedy pavement, brambles, buttress, sky,

A shape less recognisable each week,
A purpose more obscure. I wonder who
Will be the last, the very last, to seek
This place for what it was; one of the crew
That tap and jot and know what rood-lofts were?
Some ruin-bibber, randy for antique,
Or Christmas-addict, counting on a whiff
Of gown-and-bands and organ-pipes and myrrh?
Or will he be my representative,

Bored, uninformed, knowing the ghostly silt
Dispersed, yet tending to this cross of ground
Through suburb scrub because it held unspilt
So long and equably what since is found
Only in separation - marriage, and birth,
And death, and thoughts of these - for which was built
This special shell? For, though I've no idea
What this accoutred frowsty barn is worth,
It pleases me to stand in silence here;

A serious house on serious earth it is,
In whose blent air all our compulsions meet,
Are recognized, and robed as destinies.
And that much never can be obsolete,
Since someone will forever be surprising
A hunger in himself to be more serious,
And gravitating with it to this ground,
Which, he once heard, was proper to grow wise in,
If only that some many dead lie round.


- PHILIP LARKIN



terça-feira, 4 de março de 2014

domingo, 2 de março de 2014

F de Fazer Fotografia (LIII)






Henri Rousseau, "Noite de Carnaval" (1886) e "Vista de Malakoff" (1908)

sábado, 1 de março de 2014

C de "Car les fleurs sont périssables"




Gabriel Cornelius Ritter von Max 
(1840 – 1915)



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

P de "Pássaros de acaso" (VIII)


Agora anoto cada vez mais a fadiga,
E dela falo cada vez menos.
Oh! tímidas capturas da minha alma,
Alegre e cálido tropel.

Que géneros de pássaros inventas para ti?
A quem os ofereces, ou será que os vendes?
Acaso habitas ninhos do presente
E do presente é a voz do teu cantar?

Regressa, alma minha, e extrai-me a pena;
Que cante velhas glórias o transístor.
Diz-me, alma, como é que via
A vida o voo do falcão?

Enquanto a neve, vinda do nada,
Revoluteia num qualquer confim,
Pinta sobre a morte, rua minha,
E no teu grito, ave, fala de viver.

Já vês, enquanto eu caminho, tu voas,
Alheia ao nosso mal-estar.
Já vês, eu sigo a minha vida, enquanto tu bates as asas
Gritando, alarmada, num qualquer lugar.


Joseph Brodsky
in Um Ateu no Campo, versões de João Rodrigues,
Lisboa, Edições Pirata, 2000

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

E de Espinhas para um gato (XVI)



Samuel Beckett

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

C de "Canção da vida" (II)


THE CAGE


O nosso carro não vai muito longe,
só aqui à volta onde já se sabe o caminho
como dizem que sabem os cavalos. Na avenida
com os paralelos enfeitados pela chuva, no sossego
das cercanias onde até o ar nos tarda.

Nós fomos prometidos ao amor pela terna mistificação
dos livros, mas como se faz escuro
sobre os mastros da serra, como nos apoucam
estes dias. Provamos a tristeza dos cafés
no princípio das aldeias, descemos na paisagem
onde o céu negoceia com a lama. Ao volante a estrada é curta
e tu levas a minha música ao colo, quem mais o faria por mim?


Rui Pires Cabral, Música Antológica & Onze Cidades,
Lisboa: Editorial Presença, 1997

M de Manhã submersa







quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

C de "Canção da vida"


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

domingo, 9 de fevereiro de 2014

R de "Rezar na era da técnica" (XIV)


A RELIGIÃO FUTURA


O futuro da religião reside no mistério do toque.
A mente é intocável, assim como a vontade, assim como o espírito.
Primeiro vem a morte, depois a verdadeira solidão, que é permanente
e então o renascimento do toque.


D. H. Lawrence, Amores-perfeitos,
sel. e trad. de Ricardo Marques, não (edições), 2014