segunda-feira, 6 de outubro de 2014

C de Corpo Santo



['God is in the details', Beja 014]



As so with that, I thought I'd take a final walk
The tide of public opinion had started to abate
The neighbours, bless them, had turned out to be all talk
I could see their frightened faces 
peering at me through the gate

I was looking for an end to this, for some kind of closure
Time moved so rapidly, I had no hope of keeping track of it
I thought of my friends who had died of exposure
And I remembered other ones 
Who had died from the lack of it

And in my best shoes I started falling forward down the street
I stopped at a church and jostled through the crowd
And love followed just behind me, panting at my feet
As the steeple tore the stomach from a lonely little cloud

Inside I sat, seeking the presence of a God
I searched through the pictures in a leather-bound book
I found a woolly lamb dozing in an issue of blood
And a gilled Jesus shivering on a fisherman's hook

Babe
It seems so long
Since you've been gone away
And I 
Just got to say
That it grows darker with the day

Back on the street I saw a great big smiling sun
It was a Good day and an Evil day and all was bright and new
And it seemed to me that most destruction was being done
By those who could not choose between the two

Amateurs, dilettantes, hacks, cowboys, clones
The streets groan with little Caesars, Napoleons and cunts
With their building blocks and their tiny plastic phones
Counting on their fingers, with crumbs down their fronts

I passed by your garden, saw you with your flowers
The Camellias, Magnolias and Azaleas so sweet
And I stood there invisible in the panicking crowds
You looked so beautiful in the rising heat

I smell smoke, see little fires bursting on the lawns
People carry on regardless, listening to their hands
Great cracks appear in the pavement, the earth yawns
Bored and disgusted, to do us down

[...]

These streets are frozen now. I come and go
Full of a longing for something I do not know
My father sits slumped in the deepening snow
As I search, in and out, above, about, below

Babe
It seems so long
Since you went away
And I
Just got to say
That it grows darker with the day



domingo, 5 de outubro de 2014

T de de "(um) torso dobrado pela música" (XIV)


O SEGREDO
[Jardim Amália Rodrigues, 1961]


Vão alguns em busca de beleza, dizem.

HERBERTO HELDER


Os meus dedos já souberam
de cor a perfeição.

A morte era o menos.
Só a beleza nos parecia intolerável
se não a despedaçássemos,
voz por voz, compasso a compasso,
numa harmonia mais dócil. Menos urgente
do que os músculos que ensaiávamos
todos os dias sem nos tocarmos.

Agora ouço outras mãos 
a tactear o mesmo mistério e
é como segredar, pianississimo,
ao ouvido de alguém demasiado longe,
quando afinal adormeceste apenas
dentro de mim, com as garras
cravadas ao de leve na memória,


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (X)


NAS TRASEIRAS DO REAL


parque de locomotivas em San Jose
     desconsolado eu deambulava
frente a uma fábrica de tanques
     e sentei-me num banco
junto à baiuca do agulheiro.

Uma flor jazia no feno sobre 
     a estrada asfaltada 
- a assombrosa flor do feno
     pensei eu - tinha um
negro caule crestado e uma
     corola de espinhos sujos
amarelados como polegadas
     da coroa de Jesus e um tufo
de algodão seco e manchado
     no meio tal pincel de barba
usado que jazesse soterrado
     há um ano na garagem.

Amarela flor, amarela e
     flor da indústria,
dura flor aguçada e feia,
     e ainda assim flor,
com a forma da grande Rosa
     amarela dentro da cabeça!
É esta a flor do Mundo.


San Jose, 1954



Allen Ginsberg, Uivo e outros poemas,
trad. Margarida Vale de Gato,
Lisboa: Relógio D'Água, 2014

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

T de Teacher Was Here


     Desde que sei escrever, medi os anos a partir de Setembro, quando fazia anos e regressava às aulas. Era um mês com cheiro a praias batidas, velas apagadas, mas livros e sonhos intocados. 
     Depois houve um ano em que regressei às aulas como professora. Lembro-me até do momento exacto em que percebi que me apaixonara por esses novos setembros: sei ainda de cor os quase trinta rostos sentados à minha frente a tentar adivinhar o verso seguinte de uma cantiga de amigo, o sorriso deles a abrir-se, o meu a tentar não dar nas vistas. 
     Fui professora em escolas públicas durante quinze anos, anos esses que conto pelo nome das escolas por onde passei. Regressei tantas vezes a casa exausta, impotente perante a carga burocrática; ou as decisões superiores sem olhos e razão no terreno; e sobretudo a dimensão dos problemas das centenas de alunos que nem sempre conseguíamos ajudar. Mas também sei que regressei tão mais vezes a casa de coração cheio. Há coisas que fazemos – e há coisas que fazem de nós aquilo que somos. É disso que falo aqui.

     Este ano decidi tentar mudar de vida. Deixar de esperar por resultados de concursos podres, de ter de aplicar políticas podres, de ser tratada como provisória, residual, incapaz até prova (incapaz) em contrário. Vou enviar currículos, responder a anúncios, procurar traduções e revisões.
     O que não significa que deixe de ser professora; pelo contrário, desejo sinceramente encontrar projectos dignos, que me devolvam algum do idealismo que tive de sacrificar por conta deste outrem. Gostaria que os meus alunos continuassem a aprender a não se resignar ao habitual, ao normalizado e avaliado por exames, ao que nos é simplesmente imposto. Que percebessem que esta é também a minha maneira de lhes explicar que todos temos o direito e o dever de nos reconstruirmos a nós próprios para nos conseguirmos reconstruir em sociedade. Que soubessem – eles e os colegas com quem fui aprendendo – como lhes agradeço, para já, por tudo.



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

R de Rezar na era da técnica (XVIII)


O MAU POEMA


A lição é simples
e basta ouvir uns quantos mestres,
para já não a esquecer no futuro. 
Tu própria a conheces:
a verdadeira arte faz-nos amar a vida;
e embora ensine a dor, e nos possa ferir,
e não consiga tornar-nos mais felizes quando precisamos,
embora nos obrigue a desejar a morte por vezes
- quem o provou o sabe -, a arte, se for autêntica,
reconcilia-nos com a nossa impotência,
infunde-nos uma coragem absurda
para enfrentar o correr dos dias.
De modo que, por tudo isso
e mais algum tópico que tenha esquecido, 
há algo na arte de inevitável que conduz ao amor. 

Mas permite-me agora que esqueça a doutrina.
Retiro tudo aquilo que disse. 
E se o acaso fez com que algum destes versos
te levasse a um sentimento nobre, 
não fui eu quem o instilou neles.
Pensei em desejar-te toda a solidão, toda a cólera,
oferecer-te a ira e o delírio
sem qualquer emenda, sem redenção possível.
Quis que sofresses com o tempo
e que ninguém o soubesse.
Mas já não acho que seja suficiente.
E espero que por isso compreendas agora
na medida certa este meu envio:
se ainda consegues acreditar num poema,
considera-te morta. 


CARLOS MARZAL
[Trad. Inês Dias]


*




[...]

Did you write the book of love
And do you have faith in God above
If the Bible tells you so?
Now do you believe in rock and roll
Can music save your mortal soul
And can you teach me how to dance real slow?

[...]

domingo, 28 de setembro de 2014

C de "Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..."


PAUSA


Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


Antonia Pozzi
in Morte de uma estação, sel. e trad. de Inês Dias,
Lisboa: Averno, 2012




[Ontem,  uma pausa em Santa Cruz, na melhor das companhias]

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O de "O mar, o mar" (VI)


GUERRA & PAZ


Pedidos sacrifícios, as imagens
Foram trazidas na maré, enxutas.
Treme a escada torpe, e o cão ladra -
São os antepassados, fixos,
Na água das janelas.
Que podemos fazer, o fumo
Entra nas casas é preciso
Uma porta que nos leve ao mar.


 Gil de Carvalho, De Fevereiro a Fevereiro,
Lisboa: Centelha, 1987




[Santarém / Fevereiro 014]

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

T de Tratado de Pedagogia - LXIII c


ESTRANGULEI O MEU IRMÃO


Estrangulei
O meu irmão
Porque ele não gostava de dormir
Com a janela aberta

Minha irmã
Disse ele antes de morrer
Passei noites inteiras
A ver-te dormir
Debruçado sobre o teu reflexo no vidro.


RENÉ CHAR
[Trad. Inês Dias]

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

T de Tratado de Pedagogia (XXXII)


Termina assim um poema de E. E. Cummings:

I'd rather learn from one bird how to sing
than teach ten thousand stars above how not to dance.

domingo, 21 de setembro de 2014

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

L de Levantar a cabeça (XII)


"[…] Por entre a frincha larga das portadas havia sempre um resto de luz a invadir a penumbra e a expor as arestas das coisas. […]”


  ALEXANDRE SARRAZOLA
in Neófitos, com fotografias de Mafalda Capela,
Lisboa: Averno, 2014




[Santarém, 06/10/12]


"Havia muito a ver também. Certos instantes de ver valiam como 'flores sobre o túmulo': o que se via passava a existir. No entanto Joana não esperava a visão num milagre, nem anunciada pelo anjo Gabriel. Surpreendia-a mesmo no que já enxergara, mas subitamente vendo pela primeira vez, subitamente compreendendo que aquilo vivia sempre. Assim, um cão latindo, recortado contra o céu. Isso era isolado, não precisava de mais nada para se explicar... Uma porta aberta a balançar para lá, para cá, rangendo no silêncio de uma tarde... E de repente, sim, ali estava a coisa verdadeira. Um retrato antigo de alguém que não se conhece e nunca se reconhecerá porque o retrato é antigo ou porque o retrato tornou-se pó - esta sem-intenção modesta provocava nela um momento quieto e bom. Também um mastro sem bandeira, erecto e mudo, fincado num dia de verão - rosto e corpo cegos. Para se ter uma visão, a coisa não precisava de ser triste ou alegre ou se manifestar. Bastava existir, de preferência parada e silenciosa, para nela se sentir a marca. Por Deus, a marca da existência... Mas isso não deveria ser buscado uma vez tudo o que existia forçosamente existia... É que a visão consistia em surpreender o símbolo das coisas nas próprias coisas."


CLARICE LISPECTOR
in Perto do coração selvagem, Lisboa: Livros do Brasil, s/d

domingo, 14 de setembro de 2014

D de Domingologia




[Lisboa / 2013]

R de Regresso ao Trabalho (LVI)




It's the end of the world as we know it
(and I feel fine)


[ID / Lisboa 013]

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

T de "The days grow short" (X)




[...]

Assim que a estação morria,
o mar vinha buscá-la
entre salvas de limos
e restos de outros naufrágios.
Os banheiros desmontavam a praia,
arriando bandeiras friorentas
enquanto eu, rei sem reino
para trocar pelo me cavalo
regressava então ao exílio.

[...]


Inês Dias, "Tempos Vários"
in Da Capo, Lisboa: Averno, 2014





sábado, 6 de setembro de 2014

Q de "Que a alegria em mim permaneça" (VII)


Ontem.
E sempre.



MARC CHAGALL

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

H de "He loved beauty that looked kind of destroyed" (IX)


LA BELLE ET LA BÊTE


Em vez da luva,
o gesto, do cavalo
a fuga, da chave
o ouro, do meu espelho
o outro; em vez de
uma rosa, a rosa.

Em vez das ruínas,
o arrepio de um sarcófago
sob a seara, ou
o calor da pegada
em que a mão agora poisa,
primeira pele de uma cobra
a sujar a memória.
Essa beleza de trazer 
a vida na ponta dos dedos
e um exército inteiro
de dois gatos para guardar
fronteira nenhuma.


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014




[ID, 04/05/014]

domingo, 31 de agosto de 2014

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

F de Falar para as paredes - XI b




[...]
She ceased - and buried then her burning cheek
Abashed, among the lillies there, to seek
A shelter from the fervour of His eye;
[...]


Edgar Allan Poe
ilustrado por W. Heath Robinson (1900)


terça-feira, 26 de agosto de 2014

M de Museu Imaginário (XXX)




Passagem por uma exposição imperdível
no CAM - Fundação Calouste Gulbenkian.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

F de Fazer Fotografia (LXXIX)


TERREIRO DO PAÇO


Na minha Lisboa, turistas deflagram
lâmpadas súbitas, que me fotografam.

Noite fechada, na praça acordada
por estas e outras luzes sempre fixas,
um homem perora contra a estátua equestre
como se nela visse a própria sombra.

A vida, a sombra? Perguntas funestas
que me perseguem sem que nunca se mudem.

Na praça funesta, só um veio d'água
desperta ruídos que vêm das ondas
do rio somente riscado por luzes
que avançam silentes da margem oposta.

Com fotografias fixo-me em ausências.
No cais lateral navios atracam.


Ruy Cinatti, Corpo Santo,
sel. e pref. de Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, 2014

sábado, 23 de agosto de 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O de "O poema ensina a cair" (III)


[...]
O resto é um mergulho, em grande estilo, com um pontapé na lua. Tinha o estado de espírito de quem foi atirado do alto da Torre Eiffel. É sabido que, quando caímos, nos tornamos mais inteligentes. Pomos a máquina a dar o rendimento máximo. À passagem pela segunda plataforma inventamos o pára-quedas, mais abaixo concebemos um plano circunstanciado de amortecedor individual e, a dez metros do solo, descobrimos o fim dos fins do imenso problema da gravitação e a máquina de descaroçar a Terra. O pior é que isso já não irá servir para nada.
[...]


Jean Meckert, Abismo e outros contos,
trad. Luís Leitão, 
Lisboa: Antígona, 2013

O de "O poema ensina a cair"


[Ontem à noite, em Lisboa]

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

S de Solidão (ou C de Comunidade) LIX


O que ilumina o mundo e o torna suportável é o habitual sentimento que temos dos nossos laços com ele - e mais particularmente do que nos liga aos seres. As relações com os seres ajudam-nos sempre a continuar porque pressupõem desenvolvimentos, um futuro - e também porque vivemos como se a nossa única tarefa fosse precisamente o manter relações com os seres. Mas nos dias em que nos tornamos conscientes de que não é a nossa única tarefa, sobretudo nos dias em que compreendemos que só a nossa vontade conserva esses seres ligados a nós - deixem de escrever ou de falar, isolem-se e verão como eles fundem em vosso redor - verão como a maioria está na realidade de costas voltadas (não por malícia, mas por indiferença) e que o resto conserva sempre a possibilidade de se interessar por outra coisa; quando imaginamos desta forma tudo quanto entra de contingente, de jogo das circunstâncias, no que costuma chamar-se um amor ou uma amizade, então o mundo regressa à sua noite e nós a esse grande frio de que a ternura humana por um momento nos tinha afastado. 


Albert Camus, Cadernos II,
trad. António Quadros, Lisboa: Livros do Brasil, s/d

A de A poesia é o menos (III)


SOMBRAS


Iluminar o mundo - com palavras.
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.

Mas chovia muito e resguardou-se 
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.

Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder.
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede

e a poesia era, de novo, a única luz. 


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014




[29 de Junho de 2014]

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

S de Solidão (ou C de Comunidade) VI



[Azenhas do Mar, 14/08/14]



Devant l'océan
sous la falaise
sur la paroi de granit

ces mains

ouvertes

Bleues
Et noires

Du bleu de l'eau
Du noir de la nuit

L'homme est venu seul dans la grotte
face à l'océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul

L'homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l'immensité des choses

Et il a crié

Toi qui est nommée toi qui est douée d'identité je t'aime

Ces mains
du bleu de l'eau
du noir du ciel

Plates

Posées écartelées sur le granit gris

Pour que quelqu'un les ait vues

Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui appelait qui criait il y a trente mille ans

Je t'aime

Je crie que je veux t'aimer, je t'aime

J'aimerai quiconque entendra que je crie

Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de granit face au fracas de l'océan

Insoutenable

Personne n'entendra plus

Ne verra

Trente mille ans
Ces mains-là, noires

La réfraction de la lumière fait frémir la paroi de pierre

Je suis quelqu'un je suis celui qui appelait qui criait dans cette lumière blanche

Le désir

le mot n'est pas encore inventé

Il a regardé l'immensité des choses dans le fracas des vagues, l'immensité de sa force

et puis il a crié

Au-dessus de lui les forêts d'Europe,
sans fin

Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts

Toi qui est nommée toi qui es douée d'identité je t'aime d'un amour indéfini

Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse l'océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi

Tout s'écrase

Je t'aime plus loin que toi
J'aimerai quiconque entendra que je crie que je t'aime

Trente mille ans

J'appelle

J'appelle celui qui me répondra

Je veux t'aimer je t'aime

Depuis trente mille ans je crie devant la mer le spectre blanc

Je suis celui qui criait qu'il t'aimait, toi


MARGUERITE DURAS


domingo, 10 de agosto de 2014

Y de "y el sol era un domingo" (III)



P de (Po)ética (LIII)


[...]

Em território
tumultuoso de raízes
a pequena pedra
escreve o seu lugar
húmido
humilde
na terra; esmaga e
não esmaga como um céu
pesado que levitasse sobre
os pequenos animais cegos.

[...]


Manuel Gusmão, Tratado das Figuras, 
Lisboa, Assírio & Alvim, 2013




Achadinha (São Miguel), 24/08/12

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

S de Solidão (ou C de Comunidade) LVIII




ALBERT CAMUS
in Cadernos III, trad. António Ramos Rosa,
Lisboa, Livros do Brasil, s/d

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

I de "I want to ride my bike" (IV)








Federico Zandomeneghi (1896)



sábado, 2 de agosto de 2014

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXXI)


Era um rapaz que não sabia soletrar a palavra jubiloso. Sentia-se excluído de todas as praças onde as luzes iluminam e os sorrisos jogam lotos inocentes. 
Não perguntem por razões a um sentimento como este. Causas e motivos são formas às quais se não molda o difícil e mudável coração de um rapaz triste, mal versado em amores e descrente das páginas abertas no capítulo dos sonhos.
Era um rapaz viciado na melancolia. Ansiava sempre por regressar aos lugares do bem ausente e aos lugares do mal passado. O futuro não tinha para ele qualquer conotação afectiva: era um posto vazio e sem calor, uma antecâmara do inferno, sala de espera forrada a inox e após a qual nada havia que se pudesse conceber. E o presente, esse, era um confuso aluvião de sentimentos, recordações e penas.

[...]


José Miguel Silva, "Um rapaz novo"
in Telhados de Vidro n.º 3, 
Lisboa: Averno, Novembro de 2004

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

C de Cores (II)


BRANCO


Interessa-me o inconcreto branquejar 
da roupa no estendal (o branco, não)

mais do que o peso da água, ver
que o nada não se vê na água a evaporar

na luz do tecido em contraluz interessa-me
o vazio suspenso do vazio
quando a roupa enforma ao vento e sobe
no arame, interessa o risco que sustém a louca nave,
os voos desabitados e a pequena hora de ninguém.


Rosa Maria Martelo, Matéria,
Lisboa: Averno, 2014







[ID / Afurada 014]



quinta-feira, 31 de julho de 2014

D de "Do outro lado do rio"




[...]

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.


- RUI PIRES CABRAL




[Afurada, Julho 014]

terça-feira, 29 de julho de 2014

H de "História abreviada da literatura portátil" (II)






[...]

There's more to life than books, you know 
But not much more 
Oh, there's more to life than books, you know 
But not much more, not much more 
Oh, you handsome devil 
Oh, you handsome devil 
Ow !


*


Rui Pires Cabral, Oh! Lusitania,
Lisboa: Paralelo W, 2014








terça-feira, 22 de julho de 2014

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXX)




"Il ne s'agit pas d'être le feu, mais de se faire um peu de feu

segunda-feira, 21 de julho de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

E de Entre-campos


quinta-feira, 17 de julho de 2014

V de Vício (XI)




Julio Cortázar, La vuelta al día en ochenta mundos, tomo I,
Madrid: Siglo XXI España Editores, 2007


*


O QUE É GRAVE


Quando não se fala inglês,
ouvir falar de um bom romance policial inglês
que não foi traduzido para alemão.

Ver, quando faz calor, uma cerveja
que não se pode pagar.

Ter um novo pensamento
que não se pode embrulhar num verso de Hölderlin
como fazem os professores.

Em viagem, à noite, ouvir bater as ondas
e dizer para si que elas sempre o fazem.

Muito grave: ser convidado,
quando lá em casa há mais sossego,
o café é melhor
e não é preciso conversar.

O mais grave de tudo:
não morrer no Verão,
quando tudo é claro
e a terra é leve para a enxada.


Gottfried Benn, 50 Poemas,
   versão de Vasco Graça Moura, 
   Lisboa: Relógio D'Água, 1998
     
       
 
[Gottfried Benn em 1932]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A de A poesia é o menos (IV)



ID, "Poem of the river" / Março 014

domingo, 13 de julho de 2014

T de Tratado de Pedagogia (VII)



[Ontem à noite, entre corações.]

sábado, 12 de julho de 2014

C de Cores




Isabel Nogueira e Paulo Furtado, A Kind of Blue,
Lisboa: Alambique, 11 de Julho de 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

P de (Po)ética (L)


ROMANCE OU FALÊNCIA


Posta assim, como uma fraude à escala mundial
a falácia que se esconde nas traseiras
de um título, escrevo como uma puta,
um meteorologista político
que antecipa qualquer vento que sopre
a ouvidos inocentes
as verdades mais inconvenientes

O meu trabalho
é descobrir o nome mais bonito
que se pode dar ao vandalismo,
convencer toda a gente,
como quem esconde o derradeiro eclipse
de que escolher o romance
não é caminhar para a falência


Luís Pedroso, Romance ou Falência,
Lisboa: Artefacto, 2014

F de Fazer Fotografia - LXIX b



quarta-feira, 9 de julho de 2014

I de "I want to ride my bike" (III)


BICICLETA


Por vezes, ocorria-te pensar no destino
que tomavam as carroças dos ciganos,
ou no brilho dos olhos do carteiro, variando
porta a porta, como se tivesse lido as cartas.

Mas aquele era um tempo de certezas. Os pedais
da bicicleta depressa te tiravam qualquer dúvida.

Um dia, porém, emigrou a família do João,
levando-nos à força o melhor dos ciclistas:
a rua parcialmente destruída, toda a gente
debruçada no seu próprio parapeito. E ninguém
se lembrou de nos dizer o que é o mundo. 


Vítor Nogueira, Segunda Voz,
Lisboa: Averno, 2014




Alain Resnais, Hiroshima mon amour (1959) 

R de Rezar na era da técnica (X)




Beau Séjour, 03/03/012

terça-feira, 8 de julho de 2014

P de "Paredes frias" (IV)



 [Lisboa, 18/05/013]

sábado, 5 de julho de 2014

C de Coração arquivista (II)




Exposição "Fotógrafo Artur Pastor"
no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico
(6 de Junho - 31 de Agosto de 2014)



sexta-feira, 4 de julho de 2014

O de "Onde se lê gato" (IX) - Et semper


HOTEL ASTÓRIA, QUARTO 229

                        in memoriam


Há uma roda gigante que não pára, do outro lado do rio. Também a música ao vivo teima em continuar pela noite dentro, poluindo os arredores de Santa Clara e os lençóis inquietos onde já encontraste o sono.


*


Mas já só consigo pensar na roda pequena da vida, que ontem se deteve no corpo de um gato escuro, violentamente terno. Há ausências assim, impronunciáveis. Saber que a dor se irá tornando tolerável, que continuaremos a cumprir a breve sucessão dos dias, é tudo menos um consolo. Será, quando muito, um acréscimo de humilhação, o modo baixo como a vida nos obriga a aceitar o inaceitável. 


*


Toquei ontem, pela última vez, na cauda fria de um gato. Chamava-se, neste mundo, Barnabé.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014







[Abril de 2011]

quarta-feira, 2 de julho de 2014

P de "Pelos caminhos da manhã" (IV)


Pelos caminhos da manhã...



[Mikhail Guzhavin, "Wild Flowers in a Field", 1927]


... à tarde.



terça-feira, 1 de julho de 2014

C de "Chama a luz com um assobio" (III)




Ethan e Joel Coen, Inside Llewyn Davis, 2013



Q de "Que a alegria em mim permaneça"


OXFORD STREET, ESQUINA COM ORCHARD STREET:
A GAITA DE BEIÇOS


Se chegássemos à alegria por uma escada de incêndio
tu arranjarias maneira de descer tocando
a música modesta sempre a mesma
que em Setembro na tua cadeira de rodas
se a alegria: duas três frases curtas
sopradas ao passante (e o cabelo
encardido (a sujidade do pobre vista à luz
se arranjasses maneira: um belo salto
cheio de swing

acaso vou agora até ao fim dos meus anos
lembrar-te como estavas
sentado de través tocando con brio
dissimulado à esquina: isto em Setembro
sob o oiro de um sol que bate forte
a música nos beiços (qualquer coisa
de rarefeito e por aí
tão brutalmente alegre - diria comovente (1)

se a alegria: o que chamamos alegria
com o pudor da meia idade
tu aqui tocando por alguns peniques
duas três frases muito curtas
os pombos que baixam da cornija
os autocarros (sopradas como exemplo

se então houvesse um fogo em todos nós
e a tua boca (o sebo no casaco: arranjarias
maneira de levar-nos os que já
não ouvem nem se falam nem
(alegre; sujo e alegre
inquietante neste mundo
onde comemos até o coração


(1) - que esperar da Europa?/ as ruas pardas/ desidratam a imaginação/ o século XXI devia ser amanhã



Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso e outros poemas,
Porto: erva daninha, 1980

C de "Chama a luz com um assobio"*


PARECIA UM MENDIGO


Parecia um mendigo na rua
Garrett. Depois vi melhor, à porta do sete:
vagabundo e músico. Não tinha
instrumentos. Era só assobio e a mão
que batia naquele caixotão. Parava
por vezes essa melodia: ladrava
de cão e o gato imitava.
Olhei-o nos olhos – surpresa brilhava
- e ele respondeu, com largo sorriso.
Retomou a música, com assobiadela:
mais pandeiro cavo no tal papelão.
Passavam caixeiros e a boa crioula,
madames e tipos, bem engravatados.
É isto, Cesário, que marca Lisboa?


Eduardo Guerra Carneiro, A Noiva das Astúrias,
Lisboa, & etc, 2001


* O título do post é um verso de Murilo Mendes.