segunda-feira, 15 de junho de 2015

A de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências" (III)



[Carlos Botelho, “Retrato de Berta Mendes” - detalhe, 1932]



ATENÇÃO


ATENÇÃO   as aranhas percorrem a cidade 
os vermes infiltram-se   Deus não pára de morrer
Exaustivamente a noite despe-se para o amor 
sujo   baleado   sinistro
Os assassinos rodeiam a mesa de oiro 
pesados de ódio   metálicos   podres
e as múmias falantes completam o seu dia

Estamos cercados de postes 
devorando automóveis   telégrafos
a minha ternura é este avião que passa
este cigarro de treva e limo
Nascemos (ouve-me bem) para alimento da noite 
sem outra voz senão veneno
porque entre os vidros e o horizonte
são doidos e lívidos os sonhos que restam

Chegaram panteras escarlates a moer raiva 
amantes aterrorizados   horas    precipícios
e nem uma pequenina flor ou uma praia
ou um leito para estendermos os cabelos

Só a miséria destas noites    o cansaço deste tempo

E o MAR   entre fumo e chuva 
o AMOR dissolvido sob uma campânula   a VIDA


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015




[ID, Sintra, Maio 011]

domingo, 14 de junho de 2015

P de (Os) Pássaros em Volta (IV)




[ID, '13 de Junho de 2011' - 2015]



sexta-feira, 12 de junho de 2015

quinta-feira, 11 de junho de 2015

D de Dansa (VI)


"The picture that changed everything? When I fell in love with Sabine and she taught me how to dance. After that moment, I stopped taking pictures to prove anything or to be daring. After that moment, I started taking pictures out of love and curiosity. After that moment, I started dancing. [...]"

domingo, 7 de junho de 2015

R de (O) rio da minha aldeia






[...]

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.

[...]


in Ofício Cantante, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009





[ID, Santarém / Julho 010]

sábado, 6 de junho de 2015

V de Vista para um saguão (IV)




[Fotografia da Inês, com ajuda da Lou, em 05/06/015]

quinta-feira, 4 de junho de 2015

quarta-feira, 3 de junho de 2015

E de Espera (XXII)


KM acaba de morrer.
Ele é pequeno e passa diante da minha janela fazendo fumaça no
frio; a boca é grande e ri sozinha quando ele passa.
Não quero que você chegue, amor.
Eu fico aqui inventando a sua demora com sisudez exímia.
Radio on.
Radio on.
Passa carregando a mala pesada.
Mas não chega.
Agora chega.
É aqui o amor?


Ana Cristina Cesar
in Novas Seletas, org. Armando Freitas Filho,
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004





[ID, 'É aqui o amor?', 015]

terça-feira, 2 de junho de 2015

D de Dia mundial da criança




[ID, Azenhas do Mar, 015]

segunda-feira, 1 de junho de 2015

P de Perder a cabeça (III)





TRITÃO
[Jardim da Sereia, séc. XVIII]


Quero-te assim.
Com as pernas que nunca tive
para te seguir
e todos os dedos que fui
amputando, do lado do coração,
em castigo por não te saber tocar. 

Assim, de cabeça finalmente perdida
para te explicar apenas
o essencial - 

não há palavras 
suficientes a este amor. 
E um poema, mesmo de pedra, 
também passa, a menos que 
te ganhe para sempre os olhos. 


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014





[Tritões: Sintra, 30/05/15 e Coimbra, 18/12/11]

sexta-feira, 29 de maio de 2015

R de Regresso ao Trabalho (XLIII)


AUBADE



I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.

The mind blanks at the glare. Not in remorse
- The good not done, the love not given, time
Torn off unused - nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear - no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anasthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small, unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can't escape,
Yet can't accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.


- PHILIP LARKIN

segunda-feira, 25 de maio de 2015

B de Biorritmo (CLVI)




"I used to live in sound [...]"

- THOM GUNN

sábado, 23 de maio de 2015

A de A poesia é o menos (IX)


TORRE


À noite, somos todos mortais outra vez.
Para que serve uma torre de vigia?
Já se sabe que na selva é mesmo assim:
procurar lenha, acender uma fogueira,
manter os mosquitos afastados. 

Contudo, à luz do dia, sobrevoar o mar largo
sem ser visto, escalar ao menos uma vez
o elevador de Santa Justa.
São pombas, nos beirais, ou são os corvos
da mui nobre cidade de Lisboa?


Vítor Nogueira
in AA.VV., Rua dos Correeiros N.º 60, 1.º Esquerdo,
Lisboa, 22 de Maio de 2013

terça-feira, 19 de maio de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXV)


NIGHTHAWKS AT THE DINER


Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa‑me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase‑silêncio desabrigado e informe.

Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo‑nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual — um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.

Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Só nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagesse de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.
O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.

Daqui a algumas horas esperar‑nos‑á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há‑de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer‑lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
— do lado mais esquivo da morte.

Mas bastam‑me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.


Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com selecção de Rui Pires Cabral,
posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, capa de Luís Henriques 
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa: Alambique, 2015

sexta-feira, 15 de maio de 2015

E de Espiga (IV)




[ID, 'Do it yourself', 05/015]

terça-feira, 12 de maio de 2015

A de A poesia é o menos (VIII)


A poesia é a vida? Pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem
- e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura,
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo dum poeta
a beber, dia a dia, a bica preta,
convencido de si, do seu recheio...
A poesia é a vida? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro,
e a morte se meta de permeio.


Alexandre O'Neill
in Poesias Completas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

quarta-feira, 6 de maio de 2015

U de "Uma arte" (II)




"oh 'cause nothing is lost, it's just frozen in frost
[...]"

quinta-feira, 30 de abril de 2015

M de Música para os meus olhos (XL)




Detalhe de uma colagem de Miguel de Carvalho
em No princípio não era o verbo
Coimbra, DSO, 2015

quarta-feira, 29 de abril de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXIV) *


MEMÓRIA DE AMOR


IV
(Directas)

Ainda não havia televisão a côres.
Todas as noites, víamos a série d'O Fugitivo.
Às vezes, bebíamos café e passávamos o resto 
da noite a fumar e a conversar. 
Não tínhamos pressa.
A paixão defendia-nos do tempo.

Saíamos, eternos, ao clarear do dia, 
para comprar peixe na lota do Cais-do-Sodré
e tomar o pequeno almoço na cantina. 

Não tínhamos nenhuma pressa. 
A paixão defendia-nos do tempo.
Voltávamos, eternos, para casa. 

14.VII.013


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus, 
Lisboa: Averno, 2015




* Com o livro que acaba de chegar da gráfica, 
a Averno completa 100 publicações, entre livros e revistas.
Têm vida(s) lá dentro, que é o mesmo (e muito mais)
que dizer Poesia. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

S de Solidão (ou C de Comunidade) XLI


PRIMAVERA


Chamo-lhe exílio, estar relegado.
Chamo-lhe as províncias.
E é afinal o meu coração.
O meu coração imperfeito que prefere
a distância das pessoas. Prefere
os semi-encontros que não podem levar
à intimidade. Amizades provisórias
que são interrompidas perto do início.
Um prazer em não comunicar.
E por dentro, nem desespero nem saudade.
Um gosto pela solidão. O conhecimento
de que o amor preserva a liberdade ao falhar
sempre. Um exílio por natureza. Onde,
aliás, é que eu poderia ser um cidadão?


JACK GILBERT
[Trad. ID]

sábado, 18 de abril de 2015

N de "Nous deux encore" (IV)




[Postal criado por DG/RPC ]

sexta-feira, 17 de abril de 2015

M de Museu Imaginário - XXVI b




Jim Jarmusch, Os Limites do Controlo, 2009



quarta-feira, 15 de abril de 2015

V de "Vos estis sal terrae"



Rui Caeiro
in Deus e outros animais, Lisboa: Averno, 2015




Sebastião Salgado
em entrevista ao Ípsilon, 10/04/2015

segunda-feira, 13 de abril de 2015

R de Rebeca (XIX)


[...]

Não achas, Mãe? Por exemplo. Há um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si - não saber cuidar de si é ser cão.
Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!

* * *

Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma árvore! quando há uma árvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!

[...]


José de Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro,
ed. fac-similada, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005

sábado, 4 de abril de 2015

U de "Uma Correspondência" (II)




Sandro Botticelli, 1490-1492

quinta-feira, 2 de abril de 2015

D de Dansa (V)




António Barahona, Ortographia,
Lisboa, 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A de A poesia é o menos (VII)


Tens direito aos teus rancorzinhos e ao bom proveito que eles te façam e também ao mau, que isso de rancores é igual a estrume: tanto dá tétano como dá flores. 


Rui Caeiro, Deus e outros animais,
Lisboa: Averno, 2015




[ID, 'Parallel Walks', 09/013]

terça-feira, 31 de março de 2015

U de "Uma Correspondência"


VIZINHA


A Ana morreu
nos troncos e nas entradas dos prédios
penduraram avisos
a convocar os tristes para o luto
por ela e por si mesmos
e a treinar os transeuntes
na negação da própria morte
o anjo magro encarregado da alma dela
ainda se demora um pouco no pátio

nos seus últimos tempos tinha ficado cega
talvez fosse castigo 
por ter sido sempre cega
por a sua vista ter sempre retirado
às coisas e aos seres
a beleza
a vida passou-a sem qualquer assombro
os olhos corriam atrás dos defeitos 

no final fez-se branca e fina
como papel 
carregaram-na ao vento com cuidado
e pousaram-na no pó
como num envelope
uma última carta para si mesma


Mordechai Geldman, Teoria do Um, vol. I,
trad. João Paulo Esteves da Silva,
Lisboa: Douda Correria, 2015

D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" (VI)


UMA CORRESPONDÊNCIA



Quando o meu pai morreu,
a minha mãe escreveu-me:
"Somos dois
a quem tenho de sobreviver:
o teu pai e eu."
Não respondi:
há dias em que todos os verbos são culpados.
Não senti nada:
há dias em que todos os sentimentos são falsos.
Mas desci à cave,
escolhi um cachimbo e um velho violino;
ao tirar-lhes o pó,
pedi-lhes que ficassem tristes por mim:
o cachimbo com o seu âmbar torto,
algumas marcas de dentes, o seu ar embaraçado;
o violino muito romântico,
talvez tuberculoso
e falando de um inverno em que a neve fora negra.
Choraram para me servir de exemplo.
Vou escrever à minha mãe:
"Os nossos objectos mais próximos
asseguraram-me que estão inteiramente connosco."


Alain Bosquet, Je ne suis pas un poète d'eau douce,
Paris: Gallimard, 1996

[Trad. ID]

segunda-feira, 30 de março de 2015

S de "Semantics won't do" (XXIV)




[...]
But so is life
[...]

M de Mesa de Amigos - Xb



[29/03/015]

sábado, 28 de março de 2015

E de Espera (XXIII)


BILHETE-POSTAL NEGRO



I

Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos acotovelam-se no cais.


II

Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse é cosido em silêncio.



Tomas Tranströmer, 50 Poemas,
trad. Alexandre Pastor, Lisboa: Relógio D'Água, 2012

sexta-feira, 27 de março de 2015

P de "Postais do fim do mundo" (V)



[ID, 'O rio da minha aldeia', Abril 014]



[...]

Aquilo em ti que te anima
o cão da tua respiração
a faca que são teus olhos,
teus cabelos, teus corvos
aquilo que morde a tua dentição
e vibra fibra músculo enfim,
a tua alma mesmo
e tudo aquilo que é invisível em você
é tragado (invisivelmente)
para o buraco negro.
As cáries, os pergaminhos egípcios,
as colheres que você entortou abrindo latas,
não. Isso definha na terra.
Sete palmos.


Júlia de Carvalho Hansen, A Casa dos Nietzscheanos,
Guimarães: Grisu, 2014

terça-feira, 24 de março de 2015

J de (O) Jardim e a Casa (X)


E maio empregara-se nos jardins com uma velocidade ao pé do esplendor, e tu escrevias errado que não chegara a ser branco, e uma máquina esquecia-se e aparecia o paraíso azul numa parte e amarelo, e as estátuas diziam sempre a minha lembrança da luz, e voltavam-se para a esquerda e para a direita à procura dos perfis, e a tua blusa fremia como se uma nuvem viesse por baixo, e era tudo um instante em redor do exercício cândido, e as mãos ocupavam-se em ter dedos - era maio: afluente do desejo, bom-dia eu estou nu, bom-dia eu estou nua, e o sol tirava o retrato de corpo inteiro, e de repente havia um grito narrativo, e a noite ia de um lado para o outro na voz espantosa de crianças completamente obscuras, e o perfume aterrador do sangue trabalhava na sua voz estrangeira, e as colinas afastavam-se para dar passagem à nossa ausência tremendo de febre - depressa - dizia uma magnólia cega, e o radar indicava os passos queimados em volta do êxtase, e a imprensa redigia a morte entre parênteses distraídos, e virando de leve a cabeça um para o outro não havia auréolas, e partíamos para a virgindade com a vocação de um crime, e já íamos dormindo e sonhando com os pulmões a ferver.


Herberto Helder, Vocação Animal,
Lisboa: Publicações D. Quixote, Maio de 1971




segunda-feira, 23 de março de 2015

F de Flor Suficiente (XXI)


CAVACO SILVA, 2011


Um dia, felizmente,
ninguém se vai lembrar deste nome. 






MELINGO, 2011


Não sei o que vos diga.
Vinha do outro lado do mundo
e vestia-se com rosas e arame.

Tinha a poesia no corpo. 

Perante isso – graça 
ou desencanto – 
somos todos meros escriturários.



- Manuel de Freitas
 in Jukebox 3, Teatro de Vila Real, 2012

sexta-feira, 20 de março de 2015

H de História de amor

"É sobre o futuro, stôra."
- hoje, na Escola Secundária Dona Luísa de Gusmão



ESTUDOS CAMONIANOS


Estavas linda, Inês, e Camões
decerto não se importará
se eu disser que tinhas
posta no lugar a carne inteira
do meu futuro desassossego.

Aos poucos vai o corpo apodrecendo,
gentil da terra furor de que esquecemos
notícia e lastro, entretidos a morrer
por novas avenidas velhas
que em breve nos não verão mais,
apartados pela vidinha.

Mas estavas tu linda, Inês,
alheia ou talvez nem tanto
ao cego conhecido engano
que por vezes se dissipa
antes mesmo de existir.


- MANUEL DE FREITAS

quarta-feira, 18 de março de 2015

A de A poesia é o menos - VI b




Quarto desenhado por Paul Poiret, c. 1924.

A de A poesia é o menos (VI)


Caralhos fodam tudo isto os ramos de jacintos,
as margaridas.
Quanto mais árvores melhor. Mais tempo.
Temos os rudimentos destes passos o sonho apontando
um lado, outro lado.
O que nos acontece é o que sucede dentro. Um
pouco a simetria cartesiana, a mulher sentada de
mesa a mesa de café. Faz o que o pensamento faz,
foge por entre os dedos de café em café. Tendo
na evasão a sua natureza
a fluente relação do que ganha perdendo: as alturas
da terra, as alturas do mar.
Porque são tão lentos os passos abandonados ao
simples estudo
e porque diz "será que as coisas hoje acontecem tão
rapidamente?",
seja o que for
fixa a prévia partícula da cor, o medo, o ar, o
antever os vivos. Os vivos acontecem.
A própria respiração era uma brincadeira lançada sobre o
vidro frio da janela,
embora víssemos os que matavam pássaros
em pleno voo.
(As fronteiras estão cuidadosamente guardadas
pelo meu vizinho.)


Há uma paisagem na unha do meu corpo.
Irrelevante paisagem. Maravilhosa paisagem erguendo
luas, o trabalho sobre o corpo.
Quando se começa? Tudo está no seu lugar. Misteriosamente
aquilo com que lidamos não são corpos,
ou serão o nosso regresso aos romances inacabados, à
transparente folha.
O caçador dispara uma e outra vez, outra vez ainda.


João Miguel Fernandes Jorge
in Man Ray, Oito Tiros À Sua Morte (1977)




[Abril 013]

sexta-feira, 13 de março de 2015

P de (Seis Anos de) Pássaros (L)


[...]
de novo os pássaros     voam e recolhem-se
é assim
as tais mãos verdadeiras
se não forem usadas não oferecem grãos de luz
e é neles que se recolhem os pássaros
e os versos  inúteis
um poeta diz qualquer coisa parecida
com o que está além do horizonte
qualquer coisa que houve     não vista     não tocada     necessária
qualquer coisa sossegada para lamber a ferida do desassossego
e pronto     com tanto além nem topamos à frente do nariz
há tanto sal que não salga
míssil para cima     míssil para baixo
os indefesos caindo que nem tordos
os refinados gatunos à janela
os queridos financeiros fritando os miolos entre
a conspiração e as sardinheiras
[...]


Abel Neves, Úsnea,
Lisboa: Averno, 2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

F de Fazer Fotografia (LII)




Adília Lopes, Manhã,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2015


*


APANHADOR DE PIRILAMPOS


A poluição dos escapes
os herbicidas
foram-vos empurrando
para fora
do Pinheiro Manso

antiga minha luz
particular
em noites doces
procuro-vos
e nada encontro
senão lixo
entre as folhas

fazeis-me
tanta falta
neste mundo escuro


FERNANDO ASSIS PACHECO

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

V de Vida




Will McBride, Florença, 1957



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (VII)





[...]
Quero dizer-lhe: Sim, houve problemas, a nossa relação era difícil de perceber, e complicada, mas mesmo assim, queria apenas ter-te aí sentada na cama em que já dormiste algumas noites, agora é a tua parte da sala de estar, queria apenas olhar para o teu rosto, os teus ombros, os teus braços, o teu pulso com o relógio de bracelete dourada, um pouco apertado, enterrando-se na carne, as tuas mãos fortes, a aliança de ouro, as tuas unhas curtas, não tinha de te olhar nos olhos ou de ter qualquer tipo de comunhão, completa ou incompleta, mas ter-te aqui em pessoa, em carne e osso, por algum tempo, pressionando o colchão, enrugando a colcha, com o sol a brilhar atrás de ti, seria muito bom. Talvez te deitasses na cama para leres um pouco durante a tarde, talvez adormecesses. Eu estaria no quarto ao lado, muito perto. 
[...]


trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2015





[ID, Sintra/013]

domingo, 15 de fevereiro de 2015

P de Pele




Fernando Assis Pacheco, Nausicaah!,
Lisboa, ed. do autor, 1984

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXIII)


VIDA PARALELA


Nenhum comboio nos leva
tão longe: uma cidade morta

vive ainda na rara canção.
Escuta as palavras que ensina

e todas as coisas que volta
a mostrar: a noite, o sossego

no quarto emprestado,
as caves com livros

de Charing Cross Road
e o tempo lá fora

tão frio.


Rui Pires Cabral, Morada, 
Lisboa: Assírio & Alvim, 2015




[ID, 'Hyde Park', 014]

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

R de Regresso ao Trabalho (LVII)


nas cidades
existem os autocarros.

nas pessoas
existe a tabela dos horários.

as tabelas mal se lêem.

os autocarros às vezes não param.


Nuno Moura, Os livros de [...],
Lisboa: Mariposa Azual, 2000





[ID, Sete Rios, 05/013]

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

P de (Po)ética (LIV)


EM VEZ DE PREFÁCIO

Nos terríveis anos de Iezhov passei dezassete meses nas filas de prisão em Leninegrado. Certa vez alguém identificou-me. Então uma mulher de olhos azuis que estava atrás de mim, que de certeza nunca ouvira o meu nome, saiu desse torpor próprio de todos nós naquela altura e perguntou-me ao ouvido (aí todos falavam num murmúrio):
- É capaz de descrever isto?
E eu respondi:
- Sou.
Então algo parecido com um sorriso perpassou por aquilo que outrora fora o seu rosto.


1 de Abril de 1957
Leninegrado



- ANNA AKHMATOVA


*


Mas a vida é bastante difícil, e sobretudo quando não se consegue achar as palavras.


- ETTY HILLESUM
in Diário, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

C de Começar o dia com um livro novo (XXXII)


Virás sempre
fazer com que acredite
que o tempo
nesta procura
não acaba.

Gesto exigente
o teu amor alado.

E nenhum vento que nos perturbe.


Marta Chaves, Perda de Inventário,
com capa de Inês Dias e separata de Maria Manuel Viana, 
Lisboa: Alambique, 27 de Janeiro de 2015




[Inês Dias, Sintra, 05/013]

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

B de Biorritmo - XX b


"[...]
Ya sé, no me digás, tenés razón,
la vida es una herida absurda
[...]"



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

N de "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos" - b*


"[...]
se tu soubesses vinhas comigo prò mar.
Vinhas comigo prò mar
embora as nuvens do céu
e os ventos que vêm do este e do oeste, do sul e do norte
digam ao mundo que vai haver o temporal maior que todos!"


- MANUEL DA FONSECA




[ID, Lisboa, 11/02/011]

*

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

P de "Portugal não é um país pequeno"


Tempos idos nada excluem
e a pouca certeza cansa. Cansa
a pobreza das alíneas à volta da idade,
e a vista não alcança.
Cansam as esferas e o céu, o apagão
nas pedras, a cinza num delírio, a terra
toda. Uma mina pegada cansa
a sombra debaixo do alpendre. Cansa
o trabalho, o usufruto, o verdadeiro cansaço. Cansa
quem cante o degelo nos desertos, o arvoredo
esvaído ao que aqui venha esporrar-se. Cansa
a caveira no lixo, a ilusão, o fim perante. Cansa
a distância no que é estar perto. Cansa
a erva da morte. Maré da sorte,
o nada sem vergonha aí ao debrum.
Cansa o verme na figueira. Cansa
a carne de palhaço, cansa
a tanta sede sem assunto.
O voo sem para onde ir
é a falta de ar.


Rui Baião, Insane,
Lisboa: Averno, 2014




[ID, Viana do Castelo, 17/08/2010]

sábado, 17 de janeiro de 2015

P de Poética - XXXIV c


PAISAGEM EM 78 R.P.M.


                                A criança abaixa as sobrancelhas
e o sorvete
                                                                sobre a cabeça de lata de Camões
esquecida atentamente nos estofos normais de um Packard
                                Eu sou naquela tarde um ritmo
                sabendo de antemão um coração ferido
Sem ser necessariamente elogiado pelos plátanos
                                                                  ou saltar das fronteiras
                de São Paulo para abraçar
                     as redondilhas da vida pastoral
Os filantropos entraram com o pé direito
                          na Casa da Aventura Lansquené
                              e os pardais urravam nos ninhos
                                   feitos com cabelos de Trotsi

                          as latas de compota riam com as línguas
                                 de fora
                          o Sol se punha nos meus planos
    a 
          nossa 
amante ruiva bota no pescoço um
lenço verde de Tolstoi
                          No alto
                          do Viaduto o louco colava pedacinhos de céu
                                                                                  na camisa de força
                          destruindo o horizonte a marteladas 
                                  a Morte
                                           é
                                                    um
                              REFRÃO NO CRÂNIO SEM JANELAS


Roberto Piva, Paranoia
São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2009




[Lisboa, Setembro 2012]

domingo, 11 de janeiro de 2015

I de "I want to ride my bike" (V)


A pêra
O pote de compota
O cair da tarde
O rio da paisagem
O verde da garrafa
Pousado sobre a mesa
Onde tu e eu estamos
A olhar eternos
Os olhos de quem nos olha
Aqui neste teatro






Venho do mar
Venho dos montes
Sê amiga do meu repouso

Se apeteço ser rei
Ter um barco e um cão
E dos meus amigos ser amigo

Sê benigna
Se me amas



António Dacosta, A Cal dos Muros,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1994

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

P de "Pelos caminhos da manhã" (V)


Ir andando por aí sem ti nos nomes, e daí vir, contigo
na ideia. Ser tocado pelo esquecimento de uma lezíria.
Ser a própria trívia. Retornar deserdado,
sem eira à beira de mim.


Rui Baião, Insane,
Lisboa: Averno, 2014






[ID, 'Intercidades', 02/014]

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

B de Bom Ano Novo (VIII)


I'M GOING IN


ao piano, um corpo pronto
a nascer tudo de novo

a promessa dedilhada do regresso
àquele ponto de encontro
circular, em que já não recordamos
quem somos, nem por quem

chorámos. aquecemos as mãos
batidas pelo vento, a pele funde-se
aos poucos com as asas, o sangue
com as florestas e os rios.

this is how it starts,
olhamos a manhã ao longe
à espera que nos desenhem um rosto.


Renata Correia Botelho, small song, 2.ª ed., 
com capa e desenhos de Daniela Gomes,
Lisboa: Alambique, 1 de Janeiro de 2015