[ID, Moinho Grande, 2013]
domingo, 16 de agosto de 2015
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
sábado, 8 de agosto de 2015
H de História de amor - d
Lívio olha fixamente na direcção de Mónica. Imaginemos um soneto canónico em que um dos versos tem mais quatro ou cinco silabas que os restantes. Sucede o mesmo com este plano, que colocado nas mãos de qualquer montador de qualquer parte do mundo ficaria com uma boa meia dúzia de segundos a menos. Eu penso, todavia, que é preciso querer errar para que se acerte absolutamente.
João César Monteiro, "Quem espera por sapatos de defunto morre descalço"
in Obra Escrita 1, Lisboa: Letra Livre, 2014
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
O de "Onde se lê gato" (X)
"Dormir ao sol, ser o dono da tua pequena ilha ao sol. Governá-la é: dominar o mundo, nada fazer."
Rui Caeiro, 49 espinhas para um gato,
com desenhos de Luis Manuel Gaspar,
Lisboa: Edição do Autor, 1997
terça-feira, 4 de agosto de 2015
N de "Na Casa de Julho e Agosto" (V)
MANHÃ DE AGOSTO
Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo "para esse universo
onde a vida é trocada por palavras".
Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.
Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms - tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.
Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.
E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.
Isabel de Sá, O Duplo Dividido,
Lisboa: &etc, 1993
domingo, 2 de agosto de 2015
R de Revisões da matéria dada (X)
[...] O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma tenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis,
trad. José Colaço Barreiros,
trad. José Colaço Barreiros,
Lisboa: Editorial Teorema, 2002
sábado, 1 de agosto de 2015
quinta-feira, 30 de julho de 2015
L de Ler (XII)
A FERIDA
A enorme ferida na cabeça começou a sarar
No início da sétima semana.Os seus vales escureceram e as suas aldeias sossegaram:
De alegria não me movia nem ousava falar,
Não a curariam os médicos, mas o tempo com a sua perícia paciente.
E continuamente o meu espírito regressava a Tróia.
Após ter navegado pelos mares, de cada vez lutava
Em ambos os lados, partilhando o júbilo da condição
De Helena, e crescendo - para ver Tróia arder -
Como Neoptólemo, esse rapaz obstinado.
Deitado, eu descansava como estava prescrito.
Planeava com os Gregos e fazia sortidas
Diárias com Heitor. Por fim, a minha cama
Transformou-se na tenda de Aquiles, à qual o rústico
Tersitas vinha relatar os inúmeros mortos.
Era eu próprio: sem estar sujeito ao fôlego de outro homem:
O meu único comandante era o inimigo.
E enquanto o cinturão pendia, a espada na bainha,
Tersitas surgia arrastando-se exausto,
Vociferando a morte do meu amigo Pátroclo.
Gritei pelas armas, ergui-me e não cambaleei.
Mas, quando o pensei, a ira da sua nobre dor
Subiu-me à cabeça e, voltando-me, senti
Que toda a minha ferida se abria. De novo
Tive de deixar sarar aqueles vales iluminados pela tempestade.
Thom Gunn
in A Destruição do Nada e Outros Poemas, trad. de Maria de Lourdes Guimarães,
Lisboa: Relógio D'Água, 1993
domingo, 26 de julho de 2015
quarta-feira, 15 de julho de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
C de Começar o dia com um livro novo (XXXVI)
"[...] O vento na chuva, a chuva na cara, a cara no homem, o homem no passo, o passo no caminho. Batman a chegar ao cruzamento, pouco depois das alminhas, defronte do cemitério. E o autor acompanhando, entretido com as imagens, como quem se liberta da sala onde escreve encarcerado, como se toda a liberdade do mundo convergisse num só ponto: o vento na chuva, a chuva na cara, a cara no homem, o homem no passo, o passo no caminho. Lá vai Batman. Tira da algibeira um saco amarfanhado, um saco prontamente cheio, figos que depressa colhe à beira da estrada. O vento na chuva, a chuva na cara, a cara no homem, o homem no passo, o passo no caminho. Toca o telefone da sala. O autor ouve, não olha. Seus olhos são passos no caminho. [...]"
Vítor Nogueira, Amanhã logo se vê,
com capa de Adriana Molder e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa: Averno, 2015
[ID, São Miguel, 26/06/015]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
terça-feira, 7 de julho de 2015
E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLVII)
PUZZLE
eu tenho uma tristeza chama-se desemprego
destrói corações esvazia os depósitos
quebra as flechas desse arqueiro que corre pelo bosques
e fecha os postos de correios
eu tenho uma tristeza de fábricas em ruína
uma tristeza
inútil como um puzzle como um mapa sem norte
Pablo García Casado, El Mapa de América,
Barcelona: DVD, 2001
[Fotografia e tradução: ID]
segunda-feira, 6 de julho de 2015
D de "Do outro lado do rio" - b
Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer
Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos.
E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia
O seu eco no coração, morreu o meu hóspede.
Um riso, um sapato, o violino de estar aqui
Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas
E havia segundos que fazíamos explodir
Saltar da lama do tempo, para assim o podermos entender.
Agora foi-se, o seu nome descansa, descansa o tempo
Levanto os pés do caminho e vou andando
Às arrecuas pelo atalho, o eco traz-me
O longe e o perto, eu e nunca, o hóspede-amigo do lado de lá.
Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.
Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes
Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.
Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,
Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.
Robert Schindel
in Telhados de Vidro n.º 11, trad. João Barrento,
sexta-feira, 3 de julho de 2015
quarta-feira, 1 de julho de 2015
quarta-feira, 24 de junho de 2015
sexta-feira, 19 de junho de 2015
C de "Cabeça, coração"
ROSTOS
Baralho a contragosto
Como cartas os rostos,
E todos me são caros.
Às vezes algum tomba,
Inútil procurá-lo.
Desaparece a carta.
Nada sei a respeito.
Entretanto era um rosto
Que eu amava, e tão belo.
Baralho as outras cartas.
O inquieto do meu quarto,
Ou seja, o coração,
A arder continua,
Não já por essa carta,
Por outra em seu lugar.
É um novo semblante.
E o baralho, completo,
Mas sempre desfalcado.
Eis tudo quanto sei,
E ninguém sabe mais.
Jules Supervielle traduzido por Carlos Drummond de Andrade
in Poesia Traduzida, São Paulo, Cosac Naify, 2011
quarta-feira, 17 de junho de 2015
V de "Volto ao jardim"
PASSOS TRISTES
Voltando para a cama aos apalpões depois de mijar
Abro as espessas cortinas e sinto um sobressalto
Ao ver as nuvens velozes e a limpidez da luz.
Quatro da manhã: os jardins de sombras agrestes
Sob um céu cavernoso, espicaçado pelo vento.
Há nisto tudo algo que faz rir,
A lua a correr por entre as nuvens ralas
Como fumo de canhão acaba por se destacar
(Luz cor de pedra aguça as arestas dos telhados)
Elevada, insensata e solitária -
Pastilha do amor! Medalhão da arte!
Oh, lobos da memória! Imensidões! Não,
Virado lá para cima, sinto um leve arrepio.
Esse olhar tão singularmente duro e claro
Tão amplo, tão fixo e penetrante
Traz à memória a intensidade e a dor
De ser jovem; e recorda que nada disso vai voltar,
Mas existe plenamente, noutro sítio, para outros.
Philip Larkin, Uma Antologia,
trad. Maria Teresa Guerreiro, Coimbra: Fora do Texto, 1989
terça-feira, 16 de junho de 2015
segunda-feira, 15 de junho de 2015
A de "aparece de vez em quando uma inês que gostaria de fotografar coincidências" (III)
[Carlos Botelho, “Retrato de Berta Mendes” - detalhe, 1932]
ATENÇÃO
ATENÇÃO as aranhas percorrem a cidade
os vermes infiltram-se Deus não pára de morrer
Exaustivamente a noite despe-se para o amor
sujo baleado sinistro
Os assassinos rodeiam a mesa de oiro
pesados de ódio metálicos podres
e as múmias falantes completam o seu dia
Estamos cercados de postes
devorando automóveis telégrafos
a minha ternura é este avião que passa
este cigarro de treva e limo
Nascemos (ouve-me bem) para alimento da noite
sem outra voz senão veneno
porque entre os vidros e o horizonte
são doidos e lívidos os sonhos que restam
Chegaram panteras escarlates a moer raiva
amantes aterrorizados horas precipícios
e nem uma pequenina flor ou uma praia
ou um leito para estendermos os cabelos
Só a miséria destas noites o cansaço deste tempo
E o MAR entre fumo e chuva
o AMOR dissolvido sob uma campânula a VIDA
António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
Lisboa: Averno, 2015
[ID, Sintra, Maio 011]
domingo, 14 de junho de 2015
sexta-feira, 12 de junho de 2015
quinta-feira, 11 de junho de 2015
D de Dansa (VI)
"The picture that changed everything? When I fell in love with Sabine and she taught me how to dance. After that moment, I stopped taking pictures to prove anything or to be daring. After that moment, I started taking pictures out of love and curiosity. After that moment, I started dancing. [...]"
domingo, 7 de junho de 2015
R de (O) rio da minha aldeia
[...]
É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.
[...]
in Ofício Cantante, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009
[ID, Santarém / Julho 010]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
sábado, 6 de junho de 2015
quinta-feira, 4 de junho de 2015
quarta-feira, 3 de junho de 2015
E de Espera (XXII)
KM acaba de morrer.
Ele é pequeno e passa diante da minha janela fazendo fumaça no
frio; a boca é grande e ri sozinha quando ele passa.
Não quero que você chegue, amor.
Eu fico aqui inventando a sua demora com sisudez exímia.
Radio on.
Radio on.
Passa carregando a mala pesada.
Mas não chega.
Agora chega.
É aqui o amor?
Ana Cristina Cesar
in Novas Seletas, org. Armando Freitas Filho,
terça-feira, 2 de junho de 2015
segunda-feira, 1 de junho de 2015
P de Perder a cabeça (III)
TRITÃO
[Jardim da Sereia, séc. XVIII]
Quero-te assim.
Com as pernas que nunca tive
para te seguir
e todos os dedos que fui
amputando, do lado do coração,
em castigo por não te saber tocar.
Assim, de cabeça finalmente perdida
para te explicar apenas
o essencial -
não há palavras
suficientes a este amor.
E um poema, mesmo de pedra,
também passa, a menos que
te ganhe para sempre os olhos.
Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014
[Tritões: Sintra, 30/05/15 e Coimbra, 18/12/11]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
sexta-feira, 29 de maio de 2015
R de Regresso ao Trabalho (XLIII)
AUBADE
I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what's really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
The mind blanks at the glare. Not in remorse
- The good not done, the love not given, time
Torn off unused - nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.
This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear - no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anasthetic from which none come round.
And so it stays just on the edge of vision,
A small, unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.
Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can't escape,
Yet can't accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.
- PHILIP LARKIN
segunda-feira, 25 de maio de 2015
sábado, 23 de maio de 2015
A de A poesia é o menos (IX)
TORRE
À noite, somos todos mortais outra vez.
Para que serve uma torre de vigia?
Já se sabe que na selva é mesmo assim:
procurar lenha, acender uma fogueira,
manter os mosquitos afastados.
Contudo, à luz do dia, sobrevoar o mar largo
sem ser visto, escalar ao menos uma vez
o elevador de Santa Justa.
São pombas, nos beirais, ou são os corvos
da mui nobre cidade de Lisboa?
Vítor Nogueira
in AA.VV., Rua dos Correeiros N.º 60, 1.º Esquerdo,
Lisboa, 22 de Maio de 2013
terça-feira, 19 de maio de 2015
C de Começar o dia com um livro novo (XXXV)
NIGHTHAWKS AT THE DINER
Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa‑me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase‑silêncio desabrigado e informe.
Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo‑nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual — um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.
Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Só nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagesse de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.
O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
Daqui a algumas horas esperar‑nos‑á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há‑de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer‑lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
— do lado mais esquivo da morte.
Mas bastam‑me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.
Manuel de Freitas
in Sunny Bar, com selecção de Rui Pires Cabral,
posfácio de Silvina Rodrigues Lopes, capa de Luís Henriques
e arranjo gráfico de Pedro Santos, Lisboa: Alambique, 2015
Libellés :
"A luz da sombra",
"A poesia é o menos.",
"Nous deux encore",
ALAMBIQUE
sexta-feira, 15 de maio de 2015
terça-feira, 12 de maio de 2015
A de A poesia é o menos (VIII)
A poesia é a vida? Pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem
- e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura,
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo dum poeta
a beber, dia a dia, a bica preta,
convencido de si, do seu recheio...
A poesia é a vida? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro,
e a morte se meta de permeio.
Alexandre O'Neill
in Poesias Completas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000
quarta-feira, 6 de maio de 2015
quinta-feira, 30 de abril de 2015
quarta-feira, 29 de abril de 2015
C de Começar o dia com um livro novo (XXXIV) *
MEMÓRIA DE AMOR
IV
(Directas)
Ainda não havia televisão a côres.
Todas as noites, víamos a série d'O Fugitivo.
Às vezes, bebíamos café e passávamos o resto
da noite a fumar e a conversar.
Não tínhamos pressa.
A paixão defendia-nos do tempo.
Saíamos, eternos, ao clarear do dia,
para comprar peixe na lota do Cais-do-Sodré
e tomar o pequeno almoço na cantina.
Não tínhamos nenhuma pressa.
A paixão defendia-nos do tempo.
Voltávamos, eternos, para casa.
14.VII.013
António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2015
* Com o livro que acaba de chegar da gráfica,
a Averno completa 100 publicações, entre livros e revistas.
Têm vida(s) lá dentro, que é o mesmo (e muito mais)
que dizer Poesia.
Libellés :
"A poesia é o menos.",
"Nous deux encore",
AVERNO
segunda-feira, 27 de abril de 2015
S de Solidão (ou C de Comunidade) XLI
PRIMAVERA
Chamo-lhe exílio, estar relegado.
E é afinal o meu coração.
O meu coração imperfeito que prefere
a distância das pessoas. Prefere
os semi-encontros que não podem levar
à intimidade. Amizades provisórias
que são interrompidas perto do início.
Um prazer em não comunicar.
E por dentro, nem desespero nem saudade.
Um gosto pela solidão. O conhecimento
de que o amor preserva a liberdade ao falhar
sempre. Um exílio por natureza. Onde,
aliás, é que eu poderia ser um cidadão?
JACK GILBERT
[Trad. ID]
sábado, 18 de abril de 2015
sexta-feira, 17 de abril de 2015
quarta-feira, 15 de abril de 2015
V de "Vos estis sal terrae"
Rui Caeiro
in Deus e outros animais, Lisboa: Averno, 2015
Sebastião Salgado
em entrevista ao Ípsilon, 10/04/2015
segunda-feira, 13 de abril de 2015
R de Rebeca (XIX)
[...]
Não achas, Mãe? Por exemplo. Há um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si - não saber cuidar de si é ser cão.
Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!
* * *
Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma árvore! quando há uma árvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!
[...]
José de Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro,
ed. fac-similada, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005
sábado, 4 de abril de 2015
quinta-feira, 2 de abril de 2015
quarta-feira, 1 de abril de 2015
A de A poesia é o menos (VII)
Tens direito aos teus rancorzinhos e ao bom proveito que eles te façam e também ao mau, que isso de rancores é igual a estrume: tanto dá tétano como dá flores.
Rui Caeiro, Deus e outros animais,
Lisboa: Averno, 2015
[ID, 'Parallel Walks', 09/013]
terça-feira, 31 de março de 2015
U de "Uma Correspondência"
VIZINHA
A Ana morreu
nos troncos e nas entradas dos prédios
penduraram avisos
a convocar os tristes para o luto
por ela e por si mesmos
e a treinar os transeuntes
na negação da própria morte
o anjo magro encarregado da alma dela
ainda se demora um pouco no pátio
nos seus últimos tempos tinha ficado cega
talvez fosse castigo
por ter sido sempre cega
por a sua vista ter sempre retirado
às coisas e aos seres
a beleza
a vida passou-a sem qualquer assombro
os olhos corriam atrás dos defeitos
no final fez-se branca e fina
como papel
carregaram-na ao vento com cuidado
e pousaram-na no pó
como num envelope
uma última carta para si mesma
Mordechai Geldman, Teoria do Um, vol. I,
trad. João Paulo Esteves da Silva,
Lisboa: Douda Correria, 2015
D de "Deve ser com certeza um sítio muito triste" (VI)
UMA CORRESPONDÊNCIA
Quando o meu pai morreu,
a minha mãe escreveu-me:
"Somos dois
a quem tenho de sobreviver:
o teu pai e eu."
Não respondi:
há dias em que todos os verbos são culpados.
Não senti nada:
há dias em que todos os sentimentos são falsos.
Mas desci à cave,
escolhi um cachimbo e um velho violino;
ao tirar-lhes o pó,
pedi-lhes que ficassem tristes por mim:
o cachimbo com o seu âmbar torto,
algumas marcas de dentes, o seu ar embaraçado;
o violino muito romântico,
talvez tuberculoso
e falando de um inverno em que a neve fora negra.
Choraram para me servir de exemplo.
Vou escrever à minha mãe:
"Os nossos objectos mais próximos
"Os nossos objectos mais próximos
asseguraram-me que estão inteiramente connosco."
Alain Bosquet, Je ne suis pas un poète d'eau douce,
Paris: Gallimard, 1996
[Trad. ID]
segunda-feira, 30 de março de 2015
sábado, 28 de março de 2015
E de Espera (XXIII)
BILHETE-POSTAL NEGRO
I
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos acotovelam-se no cais.
II
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse é cosido em silêncio.
Tomas Tranströmer, 50 Poemas,
trad. Alexandre Pastor, Lisboa: Relógio D'Água, 2012
sexta-feira, 27 de março de 2015
P de "Postais do fim do mundo" (V)
[ID, 'O rio da minha aldeia', Abril 014]
[...]
Aquilo em ti que te anima
o cão da tua respiração
a faca que são teus olhos,
teus cabelos, teus corvos
aquilo que morde a tua dentição
e vibra fibra músculo enfim,
a tua alma mesmo
e tudo aquilo que é invisível em você
é tragado (invisivelmente)
para o buraco negro.
As cáries, os pergaminhos egípcios,
as colheres que você entortou abrindo latas,
não. Isso definha na terra.
Sete palmos.
Júlia de Carvalho Hansen, A Casa dos Nietzscheanos,
Guimarães: Grisu, 2014
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
terça-feira, 24 de março de 2015
J de (O) Jardim e a Casa (X)
E maio empregara-se nos jardins com uma velocidade ao pé do esplendor, e tu escrevias errado que não chegara a ser branco, e uma máquina esquecia-se e aparecia o paraíso azul numa parte e amarelo, e as estátuas diziam sempre a minha lembrança da luz, e voltavam-se para a esquerda e para a direita à procura dos perfis, e a tua blusa fremia como se uma nuvem viesse por baixo, e era tudo um instante em redor do exercício cândido, e as mãos ocupavam-se em ter dedos - era maio: afluente do desejo, bom-dia eu estou nu, bom-dia eu estou nua, e o sol tirava o retrato de corpo inteiro, e de repente havia um grito narrativo, e a noite ia de um lado para o outro na voz espantosa de crianças completamente obscuras, e o perfume aterrador do sangue trabalhava na sua voz estrangeira, e as colinas afastavam-se para dar passagem à nossa ausência tremendo de febre - depressa - dizia uma magnólia cega, e o radar indicava os passos queimados em volta do êxtase, e a imprensa redigia a morte entre parênteses distraídos, e virando de leve a cabeça um para o outro não havia auréolas, e partíamos para a virgindade com a vocação de um crime, e já íamos dormindo e sonhando com os pulmões a ferver.
Herberto Helder, Vocação Animal,
Lisboa: Publicações D. Quixote, Maio de 1971
segunda-feira, 23 de março de 2015
F de Flor Suficiente (XXI)
CAVACO SILVA, 2011
Um dia, felizmente,
ninguém se vai lembrar deste nome.
MELINGO, 2011
Não sei o que vos diga.
Vinha do outro lado do mundo
e vestia-se com rosas e arame.
Tinha a poesia no corpo.
Perante isso – graça
ou desencanto –
somos todos meros escriturários.
- Manuel de Freitas
in Jukebox 3, Teatro de Vila Real, 2012
in Jukebox 3, Teatro de Vila Real, 2012
sexta-feira, 20 de março de 2015
H de História de amor
"É sobre o futuro, stôra."
- hoje, na Escola Secundária Dona Luísa de Gusmão
Estavas linda, Inês, e Camões
decerto não se importará
se eu disser que tinhas
posta no lugar a carne inteira
do meu futuro desassossego.
Aos poucos vai o corpo apodrecendo,
gentil da terra furor de que esquecemos
notícia e lastro, entretidos a morrer
por novas avenidas velhas
que em breve nos não verão mais,
apartados pela vidinha.
Mas estavas tu linda, Inês,
alheia ou talvez nem tanto
ao cego conhecido engano
que por vezes se dissipa
antes mesmo de existir.
- hoje, na Escola Secundária Dona Luísa de Gusmão
ESTUDOS CAMONIANOS
Estavas linda, Inês, e Camões
decerto não se importará
se eu disser que tinhas
posta no lugar a carne inteira
do meu futuro desassossego.
Aos poucos vai o corpo apodrecendo,
gentil da terra furor de que esquecemos
notícia e lastro, entretidos a morrer
por novas avenidas velhas
que em breve nos não verão mais,
apartados pela vidinha.
Mas estavas tu linda, Inês,
alheia ou talvez nem tanto
ao cego conhecido engano
que por vezes se dissipa
antes mesmo de existir.
- MANUEL DE FREITAS
quarta-feira, 18 de março de 2015
A de A poesia é o menos (VI)
Caralhos fodam tudo isto os ramos de jacintos,
as margaridas.
Quanto mais árvores melhor. Mais tempo.
Temos os rudimentos destes passos o sonho apontando
um lado, outro lado.
O que nos acontece é o que sucede dentro. Um
pouco a simetria cartesiana, a mulher sentada de
mesa a mesa de café. Faz o que o pensamento faz,
foge por entre os dedos de café em café. Tendo
na evasão a sua natureza
a fluente relação do que ganha perdendo: as alturas
da terra, as alturas do mar.
Porque são tão lentos os passos abandonados ao
simples estudo
e porque diz "será que as coisas hoje acontecem tão
rapidamente?",
seja o que for
fixa a prévia partícula da cor, o medo, o ar, o
antever os vivos. Os vivos acontecem.
A própria respiração era uma brincadeira lançada sobre o
vidro frio da janela,
embora víssemos os que matavam pássaros
em pleno voo.
(As fronteiras estão cuidadosamente guardadas
pelo meu vizinho.)
Há uma paisagem na unha do meu corpo.
Irrelevante paisagem. Maravilhosa paisagem erguendo
luas, o trabalho sobre o corpo.
Quando se começa? Tudo está no seu lugar. Misteriosamente
aquilo com que lidamos não são corpos,
ou serão o nosso regresso aos romances inacabados, à
transparente folha.
O caçador dispara uma e outra vez, outra vez ainda.
sexta-feira, 13 de março de 2015
P de (Seis Anos de) Pássaros (L)
[...]
de novo os pássaros voam e recolhem-se
é assim
as tais mãos verdadeiras
se não forem usadas não oferecem grãos de luz
e é neles que se recolhem os pássaros
e os versos inúteis
um poeta diz qualquer coisa parecida
com o que está além do horizonte
qualquer coisa que houve não vista não tocada necessária
qualquer coisa sossegada para lamber a ferida do desassossego
e pronto com tanto além nem topamos à frente do nariz
há tanto sal que não salga
míssil para cima míssil para baixo
os indefesos caindo que nem tordos
os refinados gatunos à janela
os queridos financeiros fritando os miolos entre
a conspiração e as sardinheiras
[...]
Abel Neves, Úsnea,
Lisboa: Averno, 2015
Libellés :
"Pour faire le portrait d'un oiseau",
AVERNO
sábado, 21 de fevereiro de 2015
F de Fazer Fotografia (LII)
A poluição dos escapes
os herbicidas
foram-vos empurrando
para fora
do Pinheiro Manso
antiga minha luz
particular
em noites doces
procuro-vos
e nada encontro
senão lixo
entre as folhas
fazeis-me
tanta falta
neste mundo escuro
FERNANDO ASSIS PACHECO
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