sexta-feira, 29 de agosto de 2014

F de Falar para as paredes - XI b




[...]
She ceased - and buried then her burning cheek
Abashed, among the lillies there, to seek
A shelter from the fervour of His eye;
[...]


Edgar Allan Poe
ilustrado por W. Heath Robinson (1900)


terça-feira, 26 de agosto de 2014

M de Museu Imaginário (XXX)




Passagem por uma exposição imperdível
no CAM - Fundação Calouste Gulbenkian.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

F de Fazer Fotografia (LXXIX)


TERREIRO DO PAÇO


Na minha Lisboa, turistas deflagram
lâmpadas súbitas, que me fotografam.

Noite fechada, na praça acordada
por estas e outras luzes sempre fixas,
um homem perora contra a estátua equestre
como se nela visse a própria sombra.

A vida, a sombra? Perguntas funestas
que me perseguem sem que nunca se mudem.

Na praça funesta, só um veio d'água
desperta ruídos que vêm das ondas
do rio somente riscado por luzes
que avançam silentes da margem oposta.

Com fotografias fixo-me em ausências.
No cais lateral navios atracam.


Ruy Cinatti, Corpo Santo,
sel. e pref. de Manuel de Freitas,
Lisboa: Averno, 2014

sábado, 23 de agosto de 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O de "O poema ensina a cair" (III)


[...]
O resto é um mergulho, em grande estilo, com um pontapé na lua. Tinha o estado de espírito de quem foi atirado do alto da Torre Eiffel. É sabido que, quando caímos, nos tornamos mais inteligentes. Pomos a máquina a dar o rendimento máximo. À passagem pela segunda plataforma inventamos o pára-quedas, mais abaixo concebemos um plano circunstanciado de amortecedor individual e, a dez metros do solo, descobrimos o fim dos fins do imenso problema da gravitação e a máquina de descaroçar a Terra. O pior é que isso já não irá servir para nada.
[...]


Jean Meckert, Abismo e outros contos,
trad. Luís Leitão, 
Lisboa: Antígona, 2013

O de "O poema ensina a cair"


[Ontem à noite, em Lisboa]

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

S de Solidão (ou C de Comunidade) LIX


O que ilumina o mundo e o torna suportável é o habitual sentimento que temos dos nossos laços com ele - e mais particularmente do que nos liga aos seres. As relações com os seres ajudam-nos sempre a continuar porque pressupõem desenvolvimentos, um futuro - e também porque vivemos como se a nossa única tarefa fosse precisamente o manter relações com os seres. Mas nos dias em que nos tornamos conscientes de que não é a nossa única tarefa, sobretudo nos dias em que compreendemos que só a nossa vontade conserva esses seres ligados a nós - deixem de escrever ou de falar, isolem-se e verão como eles fundem em vosso redor - verão como a maioria está na realidade de costas voltadas (não por malícia, mas por indiferença) e que o resto conserva sempre a possibilidade de se interessar por outra coisa; quando imaginamos desta forma tudo quanto entra de contingente, de jogo das circunstâncias, no que costuma chamar-se um amor ou uma amizade, então o mundo regressa à sua noite e nós a esse grande frio de que a ternura humana por um momento nos tinha afastado. 


Albert Camus, Cadernos II,
trad. António Quadros, Lisboa: Livros do Brasil, s/d

A de A poesia é o menos (III)


SOMBRAS


Iluminar o mundo - com palavras.
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.

Mas chovia muito e resguardou-se 
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.

Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder.
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede

e a poesia era, de novo, a única luz. 


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014




[29 de Junho de 2014]

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

S de Solidão (ou C de Comunidade) VI



[Azenhas do Mar, 14/08/14]



Devant l'océan
sous la falaise
sur la paroi de granit

ces mains

ouvertes

Bleues
Et noires

Du bleu de l'eau
Du noir de la nuit

L'homme est venu seul dans la grotte
face à l'océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul

L'homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l'immensité des choses

Et il a crié

Toi qui est nommée toi qui est douée d'identité je t'aime

Ces mains
du bleu de l'eau
du noir du ciel

Plates

Posées écartelées sur le granit gris

Pour que quelqu'un les ait vues

Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui appelait qui criait il y a trente mille ans

Je t'aime

Je crie que je veux t'aimer, je t'aime

J'aimerai quiconque entendra que je crie

Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de granit face au fracas de l'océan

Insoutenable

Personne n'entendra plus

Ne verra

Trente mille ans
Ces mains-là, noires

La réfraction de la lumière fait frémir la paroi de pierre

Je suis quelqu'un je suis celui qui appelait qui criait dans cette lumière blanche

Le désir

le mot n'est pas encore inventé

Il a regardé l'immensité des choses dans le fracas des vagues, l'immensité de sa force

et puis il a crié

Au-dessus de lui les forêts d'Europe,
sans fin

Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts

Toi qui est nommée toi qui es douée d'identité je t'aime d'un amour indéfini

Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse l'océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi

Tout s'écrase

Je t'aime plus loin que toi
J'aimerai quiconque entendra que je crie que je t'aime

Trente mille ans

J'appelle

J'appelle celui qui me répondra

Je veux t'aimer je t'aime

Depuis trente mille ans je crie devant la mer le spectre blanc

Je suis celui qui criait qu'il t'aimait, toi


MARGUERITE DURAS


domingo, 10 de agosto de 2014

Y de "y el sol era un domingo" (III)



P de (Po)ética (LIII)


[...]

Em território
tumultuoso de raízes
a pequena pedra
escreve o seu lugar
húmido
humilde
na terra; esmaga e
não esmaga como um céu
pesado que levitasse sobre
os pequenos animais cegos.

[...]


Manuel Gusmão, Tratado das Figuras
Lisboa, Assírio & Alvim, 2013




Achadinha (São Miguel), 24/08/12

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

S de Solidão (ou C de Comunidade) LVIII




ALBERT CAMUS
in Cadernos III, trad. António Ramos Rosa,
Lisboa, Livros do Brasil, s/d

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

I de "I want to ride my bike" (IV)








Federico Zandomeneghi (1896)



sábado, 2 de agosto de 2014

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXXI)


Era um rapaz que não sabia soletrar a palavra jubiloso. Sentia-se excluído de todas as praças onde as luzes iluminam e os sorrisos jogam lotos inocentes. 
Não perguntem por razões a um sentimento como este. Causas e motivos são formas às quais se não molda o difícil e mudável coração de um rapaz triste, mal versado em amores e descrente das páginas abertas no capítulo dos sonhos.
Era um rapaz viciado na melancolia. Ansiava sempre por regressar aos lugares do bem ausente e aos lugares do mal passado. O futuro não tinha para ele qualquer conotação afectiva: era um posto vazio e sem calor, uma antecâmara do inferno, sala de espera forrada a inox e após a qual nada havia que se pudesse conceber. E o presente, esse, era um confuso aluvião de sentimentos, recordações e penas.

[...]


José Miguel Silva, "Um rapaz novo"
in Telhados de Vidro n.º 3, 
Lisboa: Averno, Novembro de 2004

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

C de Cores (II)


BRANCO


Interessa-me o inconcreto branquejar 
da roupa no estendal (o branco, não)

mais do que o peso da água, ver
que o nada não se vê na água a evaporar

na luz do tecido em contraluz interessa-me
o vazio suspenso do vazio
quando a roupa enforma ao vento e sobe
no arame, interessa o risco que sustém a louca nave,
os voos desabitados e a pequena hora de ninguém.


Rosa Maria Martelo, Matéria,
Lisboa: Averno, 2014







[ID / Afurada 014]



quinta-feira, 31 de julho de 2014

D de "Do outro lado do rio"




[...]

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.


- RUI PIRES CABRAL




[Afurada, Julho 014]

terça-feira, 29 de julho de 2014

H de "História abreviada da literatura portátil" (II)






[...]

There's more to life than books, you know 
But not much more 
Oh, there's more to life than books, you know 
But not much more, not much more 
Oh, you handsome devil 
Oh, you handsome devil 
Ow !


*


Rui Pires Cabral, Oh! Lusitania,
Lisboa: Paralelo W, 2014








terça-feira, 22 de julho de 2014

O de "O mundo está escuro: ilumina-o." (XXX)




"Il ne s'agit pas d'être le feu, mais de se faire um peu de feu

segunda-feira, 21 de julho de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

E de Entre-campos


quinta-feira, 17 de julho de 2014

V de Vício (XI)




Julio Cortázar, La vuelta al día en ochenta mundos, tomo I,
Madrid: Siglo XXI España Editores, 2007


*


O QUE É GRAVE


Quando não se fala inglês,
ouvir falar de um bom romance policial inglês
que não foi traduzido para alemão.

Ver, quando faz calor, uma cerveja
que não se pode pagar.

Ter um novo pensamento
que não se pode embrulhar num verso de Hölderlin
como fazem os professores.

Em viagem, à noite, ouvir bater as ondas
e dizer para si que elas sempre o fazem.

Muito grave: ser convidado,
quando lá em casa há mais sossego,
o café é melhor
e não é preciso conversar.

O mais grave de tudo:
não morrer no Verão,
quando tudo é claro
e a terra é leve para a enxada.


Gottfried Benn, 50 Poemas,
   versão de Vasco Graça Moura, 
   Lisboa: Relógio D'Água, 1998
     
       
 
[Gottfried Benn em 1932]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A de A poesia é o menos (IV)



ID, "Poem of the river" / Março 014

domingo, 13 de julho de 2014

T de Tratado de Pedagogia (VII)



[Ontem à noite, entre corações.]

sábado, 12 de julho de 2014

C de Cores




Isabel Nogueira e Paulo Furtado, A Kind of Blue,
Lisboa: Alambique, 11 de Julho de 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

P de (Po)ética (L)


ROMANCE OU FALÊNCIA


Posta assim, como uma fraude à escala mundial
a falácia que se esconde nas traseiras
de um título, escrevo como uma puta,
um meteorologista político
que antecipa qualquer vento que sopre
a ouvidos inocentes
as verdades mais inconvenientes

O meu trabalho
é descobrir o nome mais bonito
que se pode dar ao vandalismo,
convencer toda a gente,
como quem esconde o derradeiro eclipse
de que escolher o romance
não é caminhar para a falência


Luís Pedroso, Romance ou Falência,
Lisboa: Artefacto, 2014

F de Fazer Fotografia - LXIX b



quarta-feira, 9 de julho de 2014

I de "I want to ride my bike" (III)


BICICLETA


Por vezes, ocorria-te pensar no destino
que tomavam as carroças dos ciganos,
ou no brilho dos olhos do carteiro, variando
porta a porta, como se tivesse lido as cartas.

Mas aquele era um tempo de certezas. Os pedais
da bicicleta depressa te tiravam qualquer dúvida.

Um dia, porém, emigrou a família do João,
levando-nos à força o melhor dos ciclistas:
a rua parcialmente destruída, toda a gente
debruçada no seu próprio parapeito. E ninguém
se lembrou de nos dizer o que é o mundo. 


Vítor Nogueira, Segunda Voz,
Lisboa: Averno, 2014




Alain Resnais, Hiroshima mon amour (1959) 

R de Rezar na era da técnica (X)




Beau Séjour, 03/03/012

terça-feira, 8 de julho de 2014

P de "Paredes frias" (IV)



 [Lisboa, 18/05/013]

sábado, 5 de julho de 2014

C de Coração arquivista (II)




Exposição "Fotógrafo Artur Pastor"
no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico
(6 de Junho - 31 de Agosto de 2014)



sexta-feira, 4 de julho de 2014

O de "Onde se lê gato" (IX) - Et semper


HOTEL ASTÓRIA, QUARTO 229

                        in memoriam


Há uma roda gigante que não pára, do outro lado do rio. Também a música ao vivo teima em continuar pela noite dentro, poluindo os arredores de Santa Clara e os lençóis inquietos onde já encontraste o sono.


*


Mas já só consigo pensar na roda pequena da vida, que ontem se deteve no corpo de um gato escuro, violentamente terno. Há ausências assim, impronunciáveis. Saber que a dor se irá tornando tolerável, que continuaremos a cumprir a breve sucessão dos dias, é tudo menos um consolo. Será, quando muito, um acréscimo de humilhação, o modo baixo como a vida nos obriga a aceitar o inaceitável. 


*


Toquei ontem, pela última vez, na cauda fria de um gato. Chamava-se, neste mundo, Barnabé.


Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014







[Abril de 2011]

quarta-feira, 2 de julho de 2014

P de "Pelos caminhos da manhã" (IV)


Pelos caminhos da manhã...



[Mikhail Guzhavin, "Wild Flowers in a Field", 1927]


... à tarde.



terça-feira, 1 de julho de 2014

C de "Chama a luz com um assobio" (III)




Ethan e Joel Coen, Inside Llewyn Davis, 2013



Q de "Que a alegria em mim permaneça"


OXFORD STREET, ESQUINA COM ORCHARD STREET:
A GAITA DE BEIÇOS


Se chegássemos à alegria por uma escada de incêndio
tu arranjarias maneira de descer tocando
a música modesta sempre a mesma
que em Setembro na tua cadeira de rodas
se a alegria: duas três frases curtas
sopradas ao passante (e o cabelo
encardido (a sujidade do pobre vista à luz
se arranjasses maneira: um belo salto
cheio de swing

acaso vou agora até ao fim dos meus anos
lembrar-te como estavas
sentado de través tocando con brio
dissimulado à esquina: isto em Setembro
sob o oiro de um sol que bate forte
a música nos beiços (qualquer coisa
de rarefeito e por aí
tão brutalmente alegre - diria comovente (1)

se a alegria: o que chamamos alegria
com o pudor da meia idade
tu aqui tocando por alguns peniques
duas três frases muito curtas
os pombos que baixam da cornija
os autocarros (sopradas como exemplo

se então houvesse um fogo em todos nós
e a tua boca (o sebo no casaco: arranjarias
maneira de levar-nos os que já
não ouvem nem se falam nem
(alegre; sujo e alegre
inquietante neste mundo
onde comemos até o coração


(1) - que esperar da Europa?/ as ruas pardas/ desidratam a imaginação/ o século XXI devia ser amanhã



Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso e outros poemas,
Porto: erva daninha, 1980

C de "Chama a luz com um assobio"*


PARECIA UM MENDIGO


Parecia um mendigo na rua
Garrett. Depois vi melhor, à porta do sete:
vagabundo e músico. Não tinha
instrumentos. Era só assobio e a mão
que batia naquele caixotão. Parava
por vezes essa melodia: ladrava
de cão e o gato imitava.
Olhei-o nos olhos – surpresa brilhava
- e ele respondeu, com largo sorriso.
Retomou a música, com assobiadela:
mais pandeiro cavo no tal papelão.
Passavam caixeiros e a boa crioula,
madames e tipos, bem engravatados.
É isto, Cesário, que marca Lisboa?


Eduardo Guerra Carneiro, A Noiva das Astúrias,
Lisboa, & etc, 2001


* O título do post é um verso de Murilo Mendes.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

M de "My house, I say" (V)


HORTA


Ao domingo, justamente, a cidade está aqui,
mas não existe. Há quem fique para trás
na agitação da fuga, ocupando por exemplo
uma horta varrida pela auto-estrada.

No princípio era apenas uma hipótese
remota, um conjunto de raízes (não se sabe
o número exacto) a descer por uma rocha.
Felizmente, verde-terra e massicote,
misturados na paleta, dão um verde gracioso.

Pacotes de sementes para um jardim
podem desencadear uma avalanche. Olhai bem
para ele agora. O que vai fazer com tudo isto?
Alface, pimentos, batatas, perguntas
de resposta múltipla sobre auto-estima.

Perdida no inferno dos subúrbios,
a horta faz parte de um plano maior:
trazer o tubarão a superfície, encontrar
no viaduto uma espécie de refúgio,  conseguir
escapar à morte no centro comercial.


Vítor Nogueira,  Modo fácil de copiar uma cidade,
Lisboa: & etc, 2011





[Os primeiros produtos da horta.]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

B de Biografia - IV c *


Coberta que fosse
de aves, ficava
num longo dizer

a rapariga. Havia misturado
um perfume a erva brava
e a canela. Nem sei

por que me lembro
do que já queima
os lábios, agora que se dobra

o coração no frio.


José Carlos Soares
in Telhados de Vidro n.º5,
Lisboa: Averno, Novembro de 2005

*

segunda-feira, 23 de junho de 2014

P de Poética (XXXIX)


1: Olhos nos olhos de todos os túneis.
2: As colinas cerúleas de Bolonha.
3: Esse jogo de sombras entre os pórticos.
4: A métrica exacta de Morandi.
5: As janelas abertas do museu.
6: Um vidro sujo frente ao Boticelli.
7: As mãos de David. A altura. O sexo.
8: O mundo inteiro e ninguém (os fantasmas).
9: Delicada aguarela: amanhecer.
0: Túneis no túnel de todos os olhos.



JOSÉ ÁNGEL CILLERUELO
[Trad. Inês Dias]

C de Criatura(s)



Giorgio Morandi


*



Emile Savitry, "Alberto Giacometti dans son atelier", c.1946

domingo, 22 de junho de 2014

R de Rezar na era da técnica (XVII)


FÁBRICA DE SONHOS


Na fábrica dos sonhos
alguém desfaz
o pão nosso de cada dia
sobre um consomé de algas,
enquanto murmura
uma oração que ninguém reza
e se transformou
na música de fundo
de um restaurante chinês
onde os grãos de arroz germinam
em cada colherada.

Já não há religiões
no menu dos domingos
e alguém pede a Deus
que ressuscite no paladar
das suas preces,
que volte a ser real
no suave traço
da caneta gasta do empregado
que anota diligentemente
cada pedido,
para que o enfeitem
com cabelo de anjo
na cozinha.


ANA MERINO
[Trad. Inês Dias]




[Fotograma de Wong Kar-Wai, Chungking Express, 1994]


sábado, 21 de junho de 2014

J de (O) Jardim e a Casa (VI)




Norman Bluhm and Frank O'Hara,
"Meet Me in the Park" (gouache on paper)
in Poem-Paintings, 1960.
© Estates of Norman Bluhm and Frank O'Hara

segunda-feira, 16 de junho de 2014

L de Ler


Cada um regressa aonde pode e ele volta sempre à cara das palavras. Como uma campânula exposta ao seu órgão de luzes procurava o sentido dos nomes, a morte percutida, a fala transformada no som da linguagem, a arte esquecida e excessiva da poesia. Num tempo neutro acordo onde brilha perdido o dia um peixe. Deu passos em volta, feridos que bastasse, disse sim, também eu se quisesse enlouquecia. Bordou páginas e páginas pelos séculos adiante, noites inteiras, entregue a quase toda a vida dessa voz em maton. Quase toda. E concluiu: meu deus, não compreendo nada. Talvez seja louco revulsivo. E meteu-se debaixo do vulcão. Aspirava a esquecer tudo, deixar que a luz viesse do princípio. Era quando morríamos entregues à febre. Alguém tocava um piano velho dentro do copo de vinho que bebia e do fundo do café apenas chegava o inverno sem sons. A viagem ao fim da noite. Tropeçou em muitos lugares, tropeços e tropeços, semáforos trocados, algumas vezes caiu, pouco. Mas nunca mais de lá saiu, do sítio certo. Nem é preciso, está tudo dito, e é definitivo. Faltava acabar a obra, o outro lado do crime. Porque foi assente: apenas o amor e as palavras são dois crimes sem perdão. E é aqui que aparecem cidades indefesas  presságios a tatuar-lhe a alma, a violentar as margens do que já tinha sido o sangue prisioneiro. É um menino musical, um grafonolinho. Fala, fala e fala. Como as crianças que têm medo no escuro e precisam de ouvir nem que seja a sua própria voz. Ela está permanentemente no escuro. Ele é um homem  que tem uma certa dificuldade em ouvir mais de dez por cento do que lhe dizem. Mesmo quando, ou sobretudo quando está a olhar nos olhos de quem fala.  De repente diz qualquer coisa, uma frase, uma palavra, e é a síntese perfeita. O acorde perfeito, já agora. De modo que, veja-se, aconteceu esta coisa um tanto apocalíptica: descobriram que se entendiam segundo as leis de uma energia desregulada - e imagina-se isto aplicado a dois corpos em movimento. Há quem lhe chame paixão, há quem diga que é onde um homem pode começar a morrer. Porque, também já se sabe, agora o combate é de vida ou de morte. O verdadeiro lado donde o crime será fatal. 


José Amaro Dionísio, O Nome do Mundo
Lisboa: Relógio D'Água, 1996

sexta-feira, 13 de junho de 2014

R de Rezar na era da técnica (XVI)




[Véspera de Santo António 014]

terça-feira, 10 de junho de 2014

P de "Portugal não é um país pequeno." (X)



[ID, Junho 013]


Muro

Embora a literatura se resuma ao gesto desesperado de um eu, ela só faz para mim sentido enquanto abertura ao outro, quer dizer, enquanto busca de um modo de acolher e expressar a condição humana. Este o meu desentendimento radical com o país da língua em que escrevo. Onde vejo mundo, aqui vê-se bairro. Onde vejo humano, aqui vê-se fulano. Onde vejo literatura, aqui vê-se grupo. Eu e o país jamais nos reconheceremos. Frente a frente, sempre o mesmo muro, a mesma violência surda, a mesma sufocação.


Jorge Roque
in Cão Celeste n.º 5, Lisboa, Maio de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

E de Estudos literários comparados (V)


TERNA É A NOITE


Tender is the night
entre arquitecturas brancas
de casas com vedações intrincadas
caminhos de gravilha, suave
é a noite, uma pegada
um rangido, um passo
                                    sopra
azul e líquido o vento
da paixão civilizada
                                 algo
ficou entre as rodas de água 
na praia, uma tábua carcomida
e uma grinalda de algas

                                       vão passar
vinte anos, vinte constelações de cubos
de gelo em copos azulados, então
a harmonia da Europa consistia
num fundo de Bach
                                 e num suicídio
colectivo a cento e oitenta à hora

um alcoolizado levou consigo
o segredo do sofrimento pela impenetrabilidade 
a assepsia da água corrente
                                             e dos dentífricos
destruidores da nicotina
                                        Francis
Scott Fitzgerald, excessivamente inteligente
para engolir o mundo de cada dia
como um espesso melaço sobre as torradas.


Manuel Vázquez Montalbán
[Trad. Inês Dias]

domingo, 1 de junho de 2014

I de (A) Insustentável Leveza do Ser (III)


Post com dedicatória: 
para o Alexandre, a Ana Isabel, a Conceição, a Daniela, a Isabel, o Luis, 
a Maria, a Marta, o Manel, o Ricardo, a Rosa e o Rui.



[ID, Ribatejo / Março 014]

sexta-feira, 30 de maio de 2014

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (L)



Do 'Terrorismo Poético' (cf. Hakim Bey) e do outro
Lisboa / Maio 014

domingo, 25 de maio de 2014

M de "Me, Myself and I"



[18/05/014]

E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XXVIII)


Novas criaturas surgem da terra, com as narinas mordiscando o ar,
os esquilos abundam e repetem-se como perguntas,
os vermes continuam a investigar até as folhas repetirem quem são,
mas aqui temos apenas uma calma sem estações,
e sem história, que é tédio interrompido pela guerra.
A civilização é impaciência, um frenesi de térmitas
em redor dos formigueiros de Babel, antenas transmissoras
e mensagens; mas aqui o caranguejo-eremita acobarda-se quando encontra
uma sombra e pára até a do eremita.
Um medo escuro da minha sombra alongada, confesso,
para este caranguejo escrever “Europa” é ver aquela criança agachada
junto a um canal sujo em Rimbaud, chaminés, e borboletas, pontes antigas
e as manchas sombrias de resignação à volta dos olhos de carvão
de crianças que se parecem todas com Kafka. Treblinka e Auschwitz
descendo o rio com o fumo de barcaças industriais
e a prosa de uma página a que sacudo as cinzas,
os túmulos dos buracos de caranguejo, a ampulheta dos séculos
que passaram sobre esta baía como o pó soprado pelo harmatão
das nossas tribos, dispersando-se sobre as ilhas,
e a lua erguendo-se na sua procura, como a lanterna de Diógenes
sobre a esfinge do promontório, de equilíbrio e justiça.

Derek Walcott
[Trad. ID]

sábado, 24 de maio de 2014

C de Começar o dia com um livro novo (XXX)


LÍRIOS


Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.
Depois, nem isso. 
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento. 
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
- sem frio nem perda nem desastre - 
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro. 


Rosa Maria Martelo, Matéria,
Lisboa: Averno, 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

N de "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos" (VI)


QUINTAL


Deixou a porta aberta, não deve demorar.
Depois de escurecer costuma respeitar
o recolher obrigatório. Durante o dia, sim,
o bairro é mais pequeno, tem apenas de inserir-se
na colmeia, uma ilha maior, com mais recursos:
algumas calorias para o corpo funcionar.

Dantes havia aqui peixes dourados.
O quintal é agora uma ruína, uma faca velha
cravada no ombro, com a ponta de ferro
a fechar-se atrás de mim. Cruzes fluorescentes
espalhadas pelos cantos sinalizam as paredes
mais instáveis. E ao centro, junto ao tanque,
um pequeno grafito avermelhado. É sangue, não é?

Se não é, podia ser, combinava com o gemido
do baloiço enferrujado, a peça de metal no topo
do sarcófago. Quer dizer, hoje vinha visitá-lo.
Mas a casa aguentará mais do que o peso
de um homem? A memória é um túnel por baixo
da terra antiga. E eu não sei como descer.

Quanta corda ainda temos?


Vítor Nogueira, Modo fácil de copiar uma cidade,
Lisboa: &etc, 2011



[Ribatejo, 18/05/014]

terça-feira, 13 de maio de 2014

sexta-feira, 2 de maio de 2014

E de Espinhas para um gato (XVII)





Brassaï

quinta-feira, 1 de maio de 2014

J de Janelas (VI)


A DE OLHOS ABERTOS


A vida brinca na praça
com o ser que nunca fui
e aqui estou 
dança pensamento
na corda do meu sorriso
e todos dizem que isto passou e é
vai passando
vai passando
o meu coração abre a janela
vida aqui estou 
a minha vida 
o meu sangue só e hirto
fere o mundo
mas quero saber-me viva
mas não quero falar
de morte
nem das suas estranhas mãos


ALEJANDRA PIZARNIK
versões de Maria Sousa, Coimbra, do lado esquerdo, 2014




Mario Giacomelli, série “The Village”, 1958