sábado, 12 de outubro de 2013

T de "Treze maneiras de olhar para um melro" - IV


IV.


Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.




WALLACE STEVENS
[Tradução e fotografia de Inês Dias - Beja, 08/013

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

C de Conhecimento explícito da língua


"[...] Tomemos de uma brasa quente, e a coloquemos na palma da mão. Se eu disser que é a brasa que queima minha mão, estaria incorreto. Para tudo dizer deveria afirmar que o que queima é a negação, pois a brasa contém algo que a minha mão não contém. E é este não que me queima. Mas se minha mão contivesse tudo aquilo que a brasa contém, então seria da mesma natureza do fogo. Neste caso, nem todo fogo do mundo queimaria minha mão. [...]"

trad. de Marcos Beltrão 

domingo, 6 de outubro de 2013

T de "Treze maneira de olhar para um melro" (III)


III.

O melro rodopiava nos ventos de Outono.
Era uma ínfima parte da pantomina.




WALLACE STEVENS
[Tradução e fotografia de Inês Dias - Lisboa, 12/012

A de Andar a pé


Sinto o mesmo em carrosséis, táxis e às vezes autocarros:


"Para Moosbrugger, que pouco se preocupava com o seu conteúdo, este trajecto era uma distracção. Entre dois períodos de cadeia, calmos e sombrios, surgia um tempo diferente, como uma onda de espuma branca e opaca. Fora, aliás, sempre assim que ele vira a liberdade."

Robert Musil, O Homem Sem Qualidades,
Lisboa, Livros do Brasil,  s/d

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

J de (O) Jardim e a Casa - XIX


CANCIÓN DEL DIOS SIN ORILLAS


A Pilar Pardo e Raúl Pizarro



El gorrión precavido
me mira y guarda silencio.
Habita en ese otro lado
al que yo no pertenezco.

Me ve dentro, en su jardín,
llevando atrás a mis muertos,
los que me preguntan cómo
salir de nuevo a lo abierto.

El gorrión precavido
que ve lo que yo no veo
- simas de un Dios sin orillas - 
porque a mí me asusta verlo.


José Mateos, Cantos de vida y vuelta,
Valência, Editorial Pre-Textos, 2013

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

P de (The) Privacy of Rain - XLVIII


 
"[...]
Raios me partam se não fujo!
Desta chuva que me inquieta a memória. Aquela tarde como cascas de ovos a estalar entre os dedos matando possíveis nascentes ou ludibriando os pássaros para voar sobre umas asas escondidas de penas soltas.
Entre luzes de néon e cartazes gigantes, uma sombra muito pálida de alguém que não dormiu. Prestes a despenhar-se. Segura-se nas grades.
[...]"
  
Silvina Rodrigues Lopes, E se-pára, Lisboa, Hiena Editora, 1988


F de Fazer Fotografia (LXVI)


© Paulo Nozolino

domingo, 29 de setembro de 2013

P de (The) Privacy of Rain - XLVII




[...]
Piove en el barrio
en la cheno oscura.
Nubes de atorro
cubren la luna. 

Juná la lluvia en la yeca,
estrilando en la ventana.
Juná al viento e la neblina 
que al ancho río deschavan.

[...]

sábado, 28 de setembro de 2013

E de Estádio


O GRANDE CAÇADOR


O visível revela
uma realidade invisível.
Ano após ano o vazio
dos que desaparecem
atravessa o escudo da vida
e apodera-se dos nossos corpos
Todos os anos conheço gente
que desaparece no café.
Posso invocar os seus nomes,
assinalar o seu vazio.
Por essa frincha da vida
escorre, transparente,
a morte.


Ramón Mayrata, Poemas del Café Estigia,
Madrid, Calambur, 2004
[Trad. ID]

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

T de "Treze maneiras de olhar para um melro" (II)


II.

Eu tinha três ideias em mente,
Tal como uma árvore
Em que estão três melros. 




WALLACE STEVENS
[Trad. e fotografia de Inês Dias - Lisboa, 01/013

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Y de "You must believe in spring" (VII)


ABRIGO DOS CÉUS


Eu tenho desejado ir
Onde as primaveras não falham,
Aos campos onde moscas, atrevidas e astutas, não habitam,
E alguns lírios nascem.

E tenho pedido para estar
Onde nenhuma tempestade há-de chegar,
Onde a corrente verde está abrigada e muda,
E fora da oscilação do mar.


Gerard Manley Hopkins
in Piolho n.º11, trad. Ricardo Marques,
Edições Mortas / Black Sun Editores, Agosto 2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

T de "Treze maneiras de olhar para um melro"


I.

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.




WALLACE STEVENS
[Trad. e fotografia de Inês Dias - Santarém / Dezembro 012 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) LVII



MEDITAÇÃO IDIOTA NA HORA DE DEITAR-SE SOZINHO


Se disseste, e tens repetido tantas vezes,
que o teu único amor é uma mala,
para que te queixas e protestas
enquanto olhas o tecto sobre tua cama solitária.
Vítima, juiz e enfim e carrasco,
podes ainda sentir que estremeces porque alguém te ama,
mas tu escolheste, de certo modo, esse destino,
e agora deves pagar o preço.
Tu que pronunciaste "amo-te" tantas vezes,
para te rires depois da tua frase,
- o que esperas?, a quem pedes em vão?
Se quando encontras alguém que comparte teus dias,
tuas noites mais terríveis, tua soma de fracassos,
te mete medo dizer-lhe "continuemos sempre juntos",
embora seja uma frase, embora não o creias,
- que final é o teu?, que esperas tu?
E se também te queixas das farsas grotescas
que amiúde, inúteis, constróis
com frívolas histórias, palavras mercenárias,
- o que pretendes? que pedes à vida?
A vida não é um jogo, deves tê-lo compreendido,
e se há algo evidente é que já envelheceste.
Conforma-te e aguenta e não peças milagres,
que o vodka te acompanhe ao silêncio e ao sono.
Aos pés da tua cama, como cadela no cio,
a morte, serviçal, dá-te as boas noites.


Juan Luis Panero
in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, trad. José Bento,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1985

R de Regresso ao Trabalho (LIV)


CELULAR


bem-vindo ao dia, esta é a cela
um relógio cuidará de você

não tente fugir, não se deite
ou ao menos (o que fala e o que 

falta falar) não durma, mantenha
as quinas à distância segura

este é o abrigo ou seu avesso
certo abandono e céu possível


Tarso de Melo, Caderno Inquieto,
São Paulo: Dobra Editorial, 2012

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

T de "The days grow short..." - VII c


SETEMBRO


As uvas prolongam o verão. O sol inteiro condensado no seu açúcar. Nos dias de feira atam-no aos paus que sustêm os toldos. Ainda há quem insista em comprar uma camisola de alças para que o calor não fuja. No poema que o rapaz escreve à sombra de um castanheiro a tarde tem olhos lânguidos. Vê-a passar sem se atrever a dizer-lhe nada. Meninas e meninos fazem fila num escorrega para imaginar que chegam ao céu graças à sua tecnologia. O crepúsculo deixa a inicial de um nome em cada janela aberta à sua frescura.


[Trad. ID] 

domingo, 15 de setembro de 2013

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" - XXX b




São Miguel / Agosto 013

[in Manuel de Freitas, Pontas do mar
com capa e fotografias de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Paralelo W, 5 de Setembro de 2013]

sábado, 14 de setembro de 2013

T de Tratado de Pedagogia - VII b


[...] Desfizemos as malas no dormitório e agora estamos sentadas em rebanho, juntas, sob mapas que representam o mundo inteiro. Há escrivaninhas com tinteiros a transbordar. Aqui serão escritos a tinta os nossos deveres. Mas aqui não sou ninguém. Não tenho rosto. Esta grande comunidade, toda vestida de sarja castanha, roubou-me a identidade. Somos todas insensíveis, hostis. Vou procurar um rosto, um calmo rosto monumental, e vou conceder-lhe o dom da sabedoria, usá-lo por baixo do vestido como um talismã, e então hei-de encontrar (é uma promessa) um pequeno vale numa floresta e aí depositarei a minha provisão de estranhos tesouros. Prometo a mim própria. Assim, já não preciso de chorar. 
[...]"


Virginia Woolf, As Ondas,
trad. Francisco Vale, Lisboa: Relógio D'Água, 1988

domingo, 8 de setembro de 2013

P de Poética (L)


"The blues to me is like being very sad, very sick, going to church, being very happy. There's two kinds of blues, happy blues and then sad blues. I don't know, blues is sort of a mixed-up thing. You just have to feel it. Everything I do sing is part of my life."



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

P de (Po)ética - XLIX c


À BEIRA DE UM MAR PARECIDO


Sim, tenho ouvido dizer
que as grandes causas
são grandes e lucrativas.

Mas prefiro falar
daquele armário azul
encostado ao coração
podre.


Manuel de Freitas, Game Over,
com capa de Luis Manuel Gaspar e arranjo gráfico de Olímpio Ferreira,
Lisboa: & etc, 2002




[ID, Santa Cruz, 14/08/013]

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

N de "Na casa de Julho e Agosto" (III)


II. ORLANDO PANTERA
I am a professional



e dançámos
lentos & digestivos

mas tentemos antes passar
o dia a limpo:

o Peugeot 205 vermelho embalado no auto-
rádio a praia pequena a seguir ao Guincho
deserta

o teu peito mulato
contra as ondas o riso ladrado
da cadela entrando e não entrando
no mar

as rochas o mexilhão a navalha
o regresso aos poucos a tua casa
coentros água doce tachos

o lume
onde cozeste o pão
e que ateaste usando as páginas da lista telefónica
- queimando toda a rede fixa de Carcavelos - 
o pássaro
morto na escrivaninha
o desenho a meio

depois a noite a lua

o alpendre onde já não se ouvia o mar
a cadela fingia o sono no tapete suspirava
no fumo dos cigarros

ao fundo do jardim sobre a relva
deixámos várias caixas de sapatos
adaptadas para a fotografia pinhole
abríamos o obturador e o tempo de
exposição era toda a madrugada


Miguel-Manso
in Telhados de Vidro n.º12,
Lisboa: Averno, Maio de 2009

domingo, 25 de agosto de 2013

P de "Postais do fim do mundo" (III)


Dizer tudo um ao outro num diálogo de surdos,
incerto dizer sem dizer o nada onde
a vida não se viva nunca a dizer
a ruína e o mar, o bolor da espuma,
a caliça nos cabelos molhados.


Rui Baião, Rude,
Lisboa: Averno, 2012




[Santarém / Agosto 013]

sábado, 24 de agosto de 2013

H de (A) Humanidade em Agosto (V)


NAUSICAA II


One doesn't know where one has landed.
One knows only: here
the sun never fails to shine.
Soft rush of waves
on the gentle sand of the pale shore:
island rythm.

Naked the other sex 
approaches the new arrivals:
phallic flowering
the mid-day heat
generates.

Life is and death is
very simple: a toothless cowering
at the end, the eye
on the motionless sea, the back
towards the rough cliffs, no more expectations,
no hope: a final recognition 
that the place lost in passage
was no other than
Scheria. 


Günter Kunert
[Trad. Agnes Stein]

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

H de (A) Humanidade em Agosto - III b



[21/08/013]

H de (A) Humanidade em Agosto (III)

I



O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstracção
Que fica uma possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.
Sons de passos ecoam na memória
Descem o caminho que nós não seguimos
Em direcção à porta por nós nunca aberta
Para o jardim de rosas. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
                                   Mas com que propósito
Perturbam o pó numa taça de folhas de rosa
Não sei.
              Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos seguir?
Depressa, disse o pássaro, procurai-os, procurai-os,
Ao voltar da esquina. Pelo primeiro portão,
Para dentro do nosso primeiro mundo, vamos seguir
O ludíbrio do tordo? Para dentro do nosso primeiro mundo.
Ali estavam, graves, invisiveis,
Moviam-se sem pressa, sobre as folhas mortas,
No calor do Outono, pelo ar vibrante,
E o pássaro chamou, em resposta
À inaudível música oculta nos arbustos,
E o invisível relance perpassou, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como convidadas nossas, acolhidas e acolhedoras.
Assim nós e elas avançámos, num padrão formal,
Pela alameda vazia, até ao círculo de buxo,
Para olhar para dentro do lago esvaziado.
O lago seco, o cimento seco, de bordos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita da luz do Sol,
E o lótus subiu, devagar, devagar,
A superfície cintilou do coração da luz,
E ficaram por detrás de nós, reflexos no lago.
Passou então uma nuvem, e o lago ficou vazio.
Ide, disse o pássaro, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Em excitação contidas, a refrear o riso.
Ide, ide, ide, disse o pássaro: a espécie humana
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.


T. S. Eliot, "Burnt Norton", Quatro Quartetos,
trad. Gualter Cunha, Lisboa: Relógio D'Água, 2004

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A de Amizade (III)


"[...] A habit of speech is a deep matter. [...]"

Iris Murdoch

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O de "Onde se lê gato" (VIII)




Rui Caeiro, Um Gato no Inferno
com desenhos de Inês Caria,
Lisboa, 2013

terça-feira, 13 de agosto de 2013

U de "Uma promessa do deserto"




[Moinho Grande, 10/08/013]

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

D de "Die schöne Müllerin" (II)


OUTRO ORÁCULO


Diante dos brancos,
reluzentes, metálicos moinhos,
no ar tão limpo do inverno,
põe-se devagar o sol.
Penso no tempo em que não existiam.
Pouco a pouco compreendo que foram dias 
de horizonte mais amplo. Hoje erguem-se
no seu lugar, brutais, estes moinhos
preparados para uma época difícil.
Aproximo-me de um deles: sinto a sua indiferença.
Acaricio o enorme mastro frio,
sinto o amanhã nessa poderosa
linguagem de foice que vai ceifando o ar
com grandes pás que, furiosas, giram 
voltadas para o poente.
Como alguém que dissesse a verdade.


Joan Margarit, Misteriosamente Feliz,
Madrid: Visor, 2009

[Traduzido pela Inês Dias
para a Ana Isabel Soares
e todos os amigos do Moinho Grande]

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

P de (Po)ética - XLIX b


felicidade


Acorda com as mãos em concha
a defender a sombra onde fez casa
e permanece sentado. Os dias passam
na sua claridade e ele, imóvel,
doente de palavras, não as suporta,
não servem para nada. Imóvel,
não quer mais sentir-se ferido,
ameaçado. Dorme e acorda
nessa inactividade. Espera.
E expectante crê que um dia
a luz há-de encher o quarto.
Não se consegue levantar, não
consegue senão a consciência
desse instante vago, olhos fixos
no soalho ou rente às paredes
da casa, atento às sombras a quem, 
horror, sorri. Assim o encontram
dias mais tarde. Como se estivesse
a rezar. Ele, cuja metafísica
era saber que as palavras não são
suficientes para nos tornar mais tristes.


Carlos Bessa, Em Partes Iguais,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

sábado, 3 de agosto de 2013

L de (A) Luz da Sombra - XXXV b




[Guimarães, 1/08/013]

quarta-feira, 31 de julho de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) XXXVII

VII.


Tantos pintores

A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

Tantos escritores

A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros, na cidade
e algures

Tantos mortos no rio

A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito

Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na     para um bocado
não se lhe chegam muito     pode sufocar

Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade


Mário Cesariny, Titânia e a Cidade Queimada,
Lisboa: Publicações D. Quixote, 1977

terça-feira, 30 de julho de 2013

D de "Die schöne Müllerin"


JOÃO E MARIA


O Alentejo não tem caroço, nem casca,
não tem paredes nem teto; certa vez

um velho deixou suas memórias sobre a mesa
todas queimaram, porque os fantasmas lá

não resistem à luz que se lança de altas espigas
para o pátio onde cada faísca risca e dança

entre sobreiros junhos girassóis e dura
mesmo noite adentro. Sente o cheiro

da madeira queimada? São fantasmas, nada.
O mundo é pequeno, o Alentejo é imenso

e lá estava o homem depois de todas as viagens
sem poder dizer de si mesmo algo como:

o dono e seu retorno. Afinal, onde a casa 
o relógio a mulher o cachorro o nome?

O retrato da Virgem a lâmpada a cama onde?
Desdobra-se o horizonte em céus em dunas

de poeira em túnicas no vento em fios
e não há nunca filhos ou amigos ou espelho.

Que lugar a cidade a fidelidade urdindo
desfazendo e outra vez os anéis sem fim

da espera? Indaga os livros os mortos
até que as areias do mar, do mar que

parecia distante,
lentamente - não, de repente - cobrem-lhe

a voz e o tempo. O mundo
é pequeno, o Alentejo é imenso.



Eucanaã Ferraz
in Relâmpago n.º31-32,
Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2013

quinta-feira, 25 de julho de 2013

M de Museu Imaginário - XXIX b

 
 
 
[Coimbra / Julho 013]
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

M de Museu Imaginário (XXIX)




Paul Klee, "Hesitação", 1906

quinta-feira, 18 de julho de 2013

P de Poética (XLIX)


FINAL


Sente o coração bater contra o rio onde o rio já não existe. Que pode fazer um homem que desloca a fronteira nos seus passos? São sons que provocam corredores sem saída, e batem no ar, e roem, e voltam para trás, e recomeçam, e por cima há um odor a cadáver no céu em ruínas. Sim, nem de outrora um pouco de vida. É um esplendor de luto, ponto final. E isso paga-se todos os dias, mesmo quando o dia todo se gasta a fugir disso. Pelo caminho taberna a taberna há sempre uma toalha ferida pelo exílio, e a proximidade das vozes só serve para esconder a manhã inútil. Quanto à literatura, francamente, o cheiro da montra não vale esta bifana em Vendas Novas. Acham pouco? Peçam duas. 



José Amaro Dionísio
in Telhados de Vidro n.º9,
Lisboa: Averno, Novembro 2007

terça-feira, 16 de julho de 2013

R de Regresso ao Trabalho (LIII)


REGRESSO DE DEOLA


Uma vez mais desceremos à rua a olhar os transeuntes,
também nós seremos transeuntes. Arranjaremos maneira
de nos levantarmos de manhã livres do fastio
da noite e de sairmos para caminhar como antes.
Uma vez mais lá iremos para fumar, encostados à vidraça,
embrutecidos. Mas os nossos olhos serão os mesmos
e os mesmos serão os gestos e as caras. O segredo inútil
que o nosso corpo alberga e nos vela os olhares
morrerá lentamente ao ritmo do sangue
em que tudo desaparece.

Uma manhã sairemos,
já não teremos casa, sairemos para a rua;
o fastio da noite abandonar-nos-á;
vamos tremer por estar sós. Mas vamos querer estar sós.
Fixaremos os transeuntes com o sorriso morto
de quem foi abatido mas não odeia nem grita
porque sabe que de há muito a sorte
- tudo aquilo que foi e será - está inscrita no sangue,
no murmúrio do sangue. E esse eco não mais vibrará.
Ergueremos os olhos para os cravar na rua. 



Cesare Pavese
in O Vício Absurdo, sel. e trad. Rui Caeiro,
Lisboa: & etc, 1990

segunda-feira, 15 de julho de 2013

L de (A) Luz da Sombra (XXXIX)


E então nós os vis
que amávamos a noite
rumorosa, as casas,
os percursos no rio,
as luzes vermelho sujo
desses lugares, a dor
mansa e calada -
arrancámos as mãos
da cadeia viva
e calámo-nos, mas o sangue
fez estremecer o coração,
e não houve mais doçura
nem mais abandono
aos passeios no rio -
não mais servos, soubemos
que estávamos sós e vivos.


Cesare Pavese
in O Vício Absurdo, sel. e trad. Rui Caeiro,
Lisboa: & etc, 1990

sábado, 13 de julho de 2013

Q de "Que a alegria em mim permaneça" (IV)





Sugiero que el más triste de los presos,
tenga derecho a sábanas de seda,
bendita sea la boca que da besos,
y no traga monedas... y no traga monedas.
Propongo corromper al puritano,
espiar en la ducha a las vecinas,
ir a quitarle al Dios de los cristianos,
su corona de espinas, su corona de espinas.

Nada de margaritas a los cuerdos,
hay que engañar a la melancolía,
para bailar el vals de los recuerdos,
llorando de alegría, llorando de alegría.

Y jugar por jugar,
sin tener que morir o matar,
y vivir al revés,
que bailar es soñar con los pies.

Conviene entrar penúltimo en la meta,
de la vuelta a la infancia en patinete,
y fusilar al rey de los poetas,
con balas de juguete, con balas de juguete.
Y luego doctorarse en cremalleras,
como hace la hormiguita por tu espalda,
que se quede a vivir la primavera,
debajo de tu falda, debajo de tu falda.

Hacen falta cosquillas para serios,
pensar despacio para andar deprisa,
dar serenatas en los cementerios,
muriéndonos de risa, muriéndonos de risa.

Y jugar por jugar,
sin tener que morir o matar,
y vivir al revés,
que bailar es soñar con los pies.

La vida no es un bloc cuadriculado,
sino una golondrina en movimiento,
que no vuelve a los nidos del pasado,
porque no quiere el viento, porque no quiere el viento.
Se aconseja dormir a pierna suelta,
lejos de tentaciones de diseño,
que no pase de largo por tu puerta,
el hombre de tus sueños, el hombre de tus sueños.

La rana esconde un príncipe encantado,
tu boca un agridulce de membrillo,
¡qué ganas de un cursillo acelerado,
de besos de tornillo, de besos de tornillo!

Y jugar por jugar,
sin tener que morir o matar,
y vivir al revés,
que bailar es soñar con los pies.

Y jugar por jugar,
sin tener que morir o matar,
y vivir al revés,
que bailar es soñar con los pies
.

U de "Un Samedi sur la Terre" (II)


72 HORAS


há três dias que todos os dias são sábado de manhã
acaricio a maçaneta da porta a ideia de te ter para sempre



Pablo García Casado, Las afueras,
3.ª ed., Barcelona: DVD Ediciones, 2007

U de "Un Samedi sur la Terre"



O bom e o mau das sextas-feiras à tarde talvez seja a sensação de se ter merecido o descanso, de ter atingido a meta semanal e ao mesmo tempo ver como tantas coisas ficaram no tinteiro. O bom e o mau. O correcto e o incorrecto. Quando o sol desaparece e pressagia a primeira de tantas sextas-feiras escuras porque empurraste a tua vida para um túnel sem saída, porque te transformaste, sem dares conta ou sem quereres fazê-lo, num desses homens que vai às compras de carro para trazer o suficiente para todo o fim-de-semana e que observa as empregadas das lojas com desejo, como se nelas estivesse a resposta, a solução para uma sexta-feira que anoitece e pressagia mais um sábado de rádio, café e livros. A esperança reside nos olhos de quem nos atende. Não, não quero um quilo de batatas, quero-te a ti. 


Ignacio Escuín Borao, Habrá una vez un hombre libre
Barcelona: Huacanamo, 2009

[Trad. ID]

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O de "O mar, o mar" (III)


SEMPRE VENS DO MAR 


Sempre vens do mar
e tens a voz rouca,
e sempre olhos secretos
de água viva, entre as silvas,
e a fronte baixa, como
um céu baixo de nuvens.
Revives de cada vez
como uma coisa antiga
e selvagem, que o coração
já conhecia, calando-se.

De cada vez a dilaceração,
de cada vez a morte.
O mesmo combate de sempre.
Quem aceita o confronto
provou da morte
e leva-a no sangue.
Como bons inimigos
que não se odeiam mais
temos uma mesma
voz, uma mesma dor
e vivemos acossados
debaixo de um céu pobre.
Entre nós não há insídias,
não há coisas inúteis -
combateremos sempre.

Combateremos ainda,
combateremos sempre,
pois perseguimos o sonho
flanqueado pela morte,
e temos a voz rouca,
a fronte baixa e selvagem
e um céu idêntico.
Fomos feitos para isso.
Se um de nós cede ao confronto,
segue-se uma longa noite
que não é nem paz nem trégua
nem é morte verdadeira.
Já não existes. Os braços
debatem-se em vão.

Desde que o coração bata.
Alguém diz um dos teus nomes
e a morte recomeça.
Coisa ignota e selvagem,
renasceste do mar.



Cesare Pavese 
in O Vício Absurdo, sel.e trad. de Rui Caeiro, 
Lisboa: & etc, 1990

A de "A propósito de andorinhas" (II)




[Coimbra, 06/07/013]

quinta-feira, 11 de julho de 2013

P de (Po)ética - XLIX


TRABALHAR CANSA
 
 
 
Atravessar uma rua para fugir de casa
é coisa para um garoto fazer, mas este homem que vagueia
pelas ruas todos os dias já não é um garoto
e não foge de casa.
 
Há tardes de verão
em que as praças ficam vazias frente
ao sol já em declínio, e este homem que chega
por uma avenida de árvores inúteis, detém-se.
Vale a pena estar só, para estar cada vez mais só?
Vaguear é encontrar praças e ruas
vazias. Havia que fazer parar uma mulher,
falar-lhe, convencê-la a viver consigo.
Não ser assim é ficar a falar sozinho. É por isso que às vezes
há bêbedos nocturnos que nos abordam
para contar os projectos de uma vida inteira.
 
Sem dúvida não é ficando à espera na praça deserta
que se encontra alguém, mas aquele que anda pelas ruas
por vezes detém-se. Se fossem dois,
mesmo a andar pelas ruas, a casa estaria
onde essa mulher estivesse e valeria a pena.
De noite a praça torna a ficar deserta
e este homem que passa não vê as casas
entre as luzes inúteis, não levanta os olhos:
sente apenas o empedrado, feito por outros homens
de mãos calosas como as suas.
Não é justo ficar na praça deserta.
Há certamente na rua uma mulher
que, solicitada, daria de boa vontade uma ajuda em casa.
 
 
Cesare Pavese
in O Vício Absurdo, sel. e trad. de Rui Caeiro,
Lisboa: & etc, 1990
 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

M de Museu Imaginário (XIX)


No princípio eram só as sombras a crescer da treva e a amortalhar arbustos e penedos; uma luz de prata mate assomava-se por detrás da penha cimeira e começavam a perceber-se os contornos às pedras e os dorsos às cabras que corriam sempre para diante. O sol ergueu-se por detrás das fragas inclinadas ao nascente e o vento rasou tudo de uma luz dourada que retumbou por sobre a esteva, o rebanho e os olhos do rapaz e do homem, parados nos baixios da chã que se estendia branda planalto acima. Quando ela estava com eles, as cabras corriam sempre para diante; o pêlo crespo a roçar nas folhas e nos ramos; a luz a incendiar as chagas das flores voltadas para o céu. As cabras atravessavam as estevas, largadas planalto acima, e a resina colava-se-lhes ao pêlo; depois era tocá-las para o sopé, fechá-las no cercado e passar o dia inteiro a pentear-lhes panças e cachaços até ficar a resina apartada do pêlo comprido das cabras - para unturas e bálsamos - e sempre as flores lá em cima, pétalas brancas, corolas amarelas e as chagas varridas pelo alívio do poente.

[...]


Alexandre Sarrazola, "Glória"
in Telhados de Vidro n.º18, Lisboa: Averno, 2013




Pellizza da Volpedo, "Il sole"
(o quadro de 1904 que aparece na capa de um dos livros da minha vida)

domingo, 7 de julho de 2013

O de "Onde se lê gato" - c


DA CUMPLICIDADE


há janelas atrás dos gatos
e outras
são narrativas das nossas mentes

há narrativas que julgamos
serem a verdade de outras janelas
onde se vê passar o silêncio

mas os silêncios 
são cúmplices e conjugam-se
nos sentidos mais felinos em que só o homem confia

espelhadas e saqueadas ficam
pelos movimentos das janelas vizinhas
é o poema de um gato negro à janela.



Miguel de Carvalho
in Telhados de Vidro n.º18,
Lisboa: Averno, Maio 2013

sexta-feira, 5 de julho de 2013

PRESSÁGIO DE QUEM ESTEVE NO CASAMENTO DE HERA



há sempre um jardim na memória
do Mundo, como se nada existisse
sem o sabor dos frutos

e tudo acontece
quando uma maçã de oiro
desce para os dias
num galho de sorte

ninguém disse aos deuses
que a noite tem luz
ou que a morte do chão
trai a semente

é por isso que o oiro
nem sempre é de lei
quando uma promessa de afago
cai da alegria.


Emanuel Jorge Botelho
in Urbano, Hespérides,
ed. do autor,  2012

quinta-feira, 4 de julho de 2013

R de Rebeca (XVIII)


QUANDO A SEMENTE É VOCÊ


abraçado à mão
abraçado ao cão
abraçado ao caco de corpo
sob o cobertor de feltro

agora curvado
arrasado sobre o banco
do último vagão

os pés pelas mãos
a cabeça vazia
a cabeça entre as mãos

até que um nada
torcicolo ou cólica
comprime a vértebra fatal
enrola a língua
aperta o bulbo, desfaz o giro
e o chão se levanta
cobra seus direitos
morde-lhe os grãos

tempo de plantio
quando a semente
é você



Fabio Weintraub
in Telhados de Vidro n.º 18,
Lisboa: Averno, Maio 2013

R de Realizar - XI b





terça-feira, 2 de julho de 2013

F de Fazer Fotografia - XIII h *




"[...]

Ao pensar no que sinto, sempre que contemplo uma grande fotografia, recordo que, nesse fugidio instante, sou invadido por um fulgurante maravilhamento, uma impressão de comunhão e de re-encontro, como se durante esse momento, nada de mau me pudesse acontecer e a imagem me emprestasse, por um segundo, a ilusão de uma imortalidade. Estas jubilosas constatações levaram-me a concluir que o propósito de uma imagem fotográfica deveria ser o de transmitir essa euforia, independentemente do que ela representa.

[...]"


Gérard Castello Lopes - fotografia e texto
in Perto da Vista,
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984

*

segunda-feira, 1 de julho de 2013

P de Poética (XLVIII)


guarda no seixo
o teu maior segredo
e deixa-o lavar-se
pla água do rio
que banhou pitonisas e freiras
deixa-o
plo porfiar das cantigas
que a água por onde ele rola
aclara as vozes
traz a sede às raparigas
deixa-o e foge
e esquece o que rola
redondo, como a tua barriga


Ana Paula Inácio, As Vinhas de Meu Pai,
Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2000




F de Fazer Fotografia (LXXVI)




Ed Van Wijk, "At the beach", Holanda, 1950s

domingo, 30 de junho de 2013

C de Começar o dia com um livro novo (XXVI)


CAPÍTULO PRIMEIRO


Para chegar ao fundo do beco os raios de sol descem a direito ao longo das paredes frias, mantidas de pé apenas à custa das arcadas que atravessam a tira de céu azul carregado. 

[...]



Italo Calvino, O Atalho dos Ninhos de Aranha,
Lisboa: Portugália Editora, s/d

sábado, 29 de junho de 2013

F de "(Une) Famille d'Arbres - II b




"(...)
Está bom tempo aí e há muitas rosas?"

- De Rainer Maria Rilke para Lou Andréas-Salomé

(e da Inês para o Abel)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

S de Solidão (ou C de Comunidade) LVI


TECENDO A MANHÃ



Um galo sòzinho não tece uma manhã:
êle precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


2.


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no tôldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, tôldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.



João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 27 de junho de 2013

C de Cicatriz (II)



Bert Stern (1929 - 25/06/013)

P de Poética (XLVII)

A europa dos lugares indiferentes, dos aeroportos que se assemelham a longos corredores, fechados a intervalos rectangulares, por rectângulos a preto, o silêncio camuflado de alguns passos, a sombra pintada nas paredes, como nas auto-estradas as gralhas nos separadores de vidro, rodeia-nos a mentira, uma voz chama de nenhum lugar, uma voz transparente, que existe como uma casa, não uma casa mas, a minha casa, ou uma macieira, não uma macieira mas, aquela macieira que, no último verão não deu maçãs, ou um lagarto, não um lagarto mas, aquele lagarto que, no dia dos meus sete anos apanhei, bicho verde, com os flancos sarapintados de azul, que se estorcia na minha mão, que abria e fechava a boca, uma voz que é, só uma voz, sem boca nem corpo que lhe dêem a imperfeição de uma dor, ou de alguém que lhe responda, esta voz ouve-se como a luz se espalha, nestes corredores penitenciários, luz e voz não vêm de uma lâmpada nem de um altifalante, estão por todo o lado, estamos nelas, avançamos por elas, e elas avançam connosco, ou melhor, atravessamos sempre a mesma voz e a mesma luz,
[...]


Rui Nunes, Uma Viagem no Outono,
Lisboa: Relógio D'Água, Junho de 2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

C de Cidades Invisíveis


VENICE II


After its demise
they will say of Venice
(and you know who)
there never was a city
on the lagoon

All invention

And those who conquered Byzantium
those were the Germans
those earlier legends
(Frankish knights with parachutes)
describe only
an imagined place
It is only a scheme
for a canalization project
Nevertheless after some time
on the horizon of forgetfulness
San Marco's domes emerge
the Doge's Palace
the Piazza with two pillars
and
the prisons became filled
with people who believe
they have boated
on the Grand Canal.



Günter Kunert
[Trad. Agnes Stein]

domingo, 23 de junho de 2013

P de "Paredes frias" (V)




[Lisboa, 23/06/013]

sexta-feira, 21 de junho de 2013

C de Cicatriz (XII)



 
 
Rui Caeiro, No Martim Moniz com o meu pai,
Lisboa: Landscapes d'Antanho, Junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

S de "Semantics won't do" (XXII)


E de "É assim que se faz a História. Sem palavras a mais." (XLVI)


a insubmissão é uma arma apontada para os grandes horizontes
que são de todos nós para tudo o que nunca fomos nem seremos
quando um esquecimento nos vem à memória
a insubmissão é cortarmos o pescoço para podermos verdadeiramente cantar
a insubmissão é um marinheiro desgovernado
que encontra no mar uma mulher-serpente e lhe dá de comer
como se tivessem ambos as pálpebras silenciosas e a boca entreaberta.


Mário Botas
in Aventuras de um crâneo e outros textos,
Lisboa: Averno, 2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

P de (The) Privacy of Rain - IX b


CRY OF THE BAT


As they fly swiftly through the twilight, here, there, everywhere, their screech is loud but only they themselves can hear it. The tops of trees and barns, dilapidated church spires throw back the echo which heard in flight reports on the kind of obstacles that lie before them and where the way is clear. With their voice removed they are left helpless to find their way; bumping against everything, flying into walls, they drop to the ground, dead. Without voice they are overcome by what otherwise they destroy, now prevailing in increasing numbers: vermin.


Günter Kunert
in Windy Times, trad. Agnes Stein,
New York: Red Dust, 1983