Will McBride, Florença, 1957
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
P de "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" (VII)
[...]
Quero dizer-lhe: Sim, houve problemas, a nossa relação era difícil de perceber, e complicada, mas mesmo assim, queria apenas ter-te aí sentada na cama em que já dormiste algumas noites, agora é a tua parte da sala de estar, queria apenas olhar para o teu rosto, os teus ombros, os teus braços, o teu pulso com o relógio de bracelete dourada, um pouco apertado, enterrando-se na carne, as tuas mãos fortes, a aliança de ouro, as tuas unhas curtas, não tinha de te olhar nos olhos ou de ter qualquer tipo de comunhão, completa ou incompleta, mas ter-te aqui em pessoa, em carne e osso, por algum tempo, pressionando o colchão, enrugando a colcha, com o sol a brilhar atrás de ti, seria muito bom. Talvez te deitasses na cama para leres um pouco durante a tarde, talvez adormecesses. Eu estaria no quarto ao lado, muito perto.
[...]
trad. Inês Dias, Lisboa: Relógio D'Água, 2015
[ID, Sintra/013]
domingo, 15 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
C de Começar o dia com um livro novo (XXXIII)
VIDA PARALELA
Nenhum comboio nos leva
tão longe: uma cidade morta
vive ainda na rara canção.
Escuta as palavras que ensina
e todas as coisas que volta
a mostrar: a noite, o sossego
no quarto emprestado,
as caves com livros
de Charing Cross Road
e o tempo lá fora
tão frio.
Rui Pires Cabral, Morada,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2015
[ID, 'Hyde Park', 014]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
R de Regresso ao Trabalho (LVII)
nas cidades
existem os autocarros.
nas pessoas
existe a tabela dos horários.
as tabelas mal se lêem.
os autocarros às vezes não param.
Nuno Moura, Os livros de [...],
Lisboa: Mariposa Azual, 2000
[ID, Sete Rios, 05/013]
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
P de (Po)ética (LIV)
EM VEZ DE PREFÁCIO
Nos terríveis anos de Iezhov passei dezassete meses nas filas de prisão em Leninegrado. Certa vez alguém identificou-me. Então uma mulher de olhos azuis que estava atrás de mim, que de certeza nunca ouvira o meu nome, saiu desse torpor próprio de todos nós naquela altura e perguntou-me ao ouvido (aí todos falavam num murmúrio):
- É capaz de descrever isto?
E eu respondi:
- Sou.
Então algo parecido com um sorriso perpassou por aquilo que outrora fora o seu rosto.
1 de Abril de 1957
Leninegrado
- ANNA AKHMATOVA
*
Mas a vida é bastante difícil, e sobretudo quando não se consegue achar as palavras.
- ETTY HILLESUM
in Diário, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008
in Diário, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
C de Começar o dia com um livro novo (XXXII)
Virás sempre
fazer com que acredite
que o tempo
nesta procura
não acaba.
Gesto exigente
o teu amor alado.
E nenhum vento que nos perturbe.
Marta Chaves, Perda de Inventário,
com capa de Inês Dias e separata de Maria Manuel Viana,
Lisboa: Alambique, 27 de Janeiro de 2015
[Inês Dias, Sintra, 05/013]
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
N de "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos" - b*
"[...]
se tu soubesses vinhas comigo prò mar.
Vinhas comigo prò mar
embora as nuvens do céu
e os ventos que vêm do este e do oeste, do sul e do norte
digam ao mundo que vai haver o temporal maior que todos!"
- MANUEL DA FONSECA
[ID, Lisboa, 11/02/011]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
P de "Portugal não é um país pequeno"
Tempos idos nada excluem
e a pouca certeza cansa. Cansa
a pobreza das alíneas à volta da idade,
e a vista não alcança.
Cansam as esferas e o céu, o apagão
nas pedras, a cinza num delírio, a terra
toda. Uma mina pegada cansa
a sombra debaixo do alpendre. Cansa
o trabalho, o usufruto, o verdadeiro cansaço. Cansa
quem cante o degelo nos desertos, o arvoredo
esvaído ao que aqui venha esporrar-se. Cansa
a caveira no lixo, a ilusão, o fim perante. Cansa
a distância no que é estar perto. Cansa
a erva da morte. Maré da sorte,
o nada sem vergonha aí ao debrum.
Cansa o verme na figueira. Cansa
a carne de palhaço, cansa
a tanta sede sem assunto.
O voo sem para onde ir
é a falta de ar.
Rui Baião, Insane,
Lisboa: Averno, 2014
[ID, Viana do Castelo, 17/08/2010]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
sábado, 17 de janeiro de 2015
P de Poética - XXXIV c
PAISAGEM EM 78 R.P.M.
A criança abaixa as sobrancelhas
e o sorvete
sobre a cabeça de lata de Camões
esquecida atentamente nos estofos normais de um Packard
Eu sou naquela tarde um ritmo
sabendo de antemão um coração ferido
Sem ser necessariamente elogiado pelos plátanos
ou saltar das fronteiras
de São Paulo para abraçar
as redondilhas da vida pastoral
Os filantropos entraram com o pé direito
na Casa da Aventura Lansquené
e os pardais urravam nos ninhos
feitos com cabelos de Trotsi
as latas de compota riam com as línguas
de fora
o Sol se punha nos meus planos
e
a
nossa
amante ruiva bota no pescoço um
lenço verde de Tolstoi
No alto
do Viaduto o louco colava pedacinhos de céu
na camisa de força
destruindo o horizonte a marteladas
a Morte
é
um
REFRÃO NO CRÂNIO SEM JANELAS
Roberto Piva, Paranoia,
São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2009
[Lisboa, Setembro 2012]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
domingo, 11 de janeiro de 2015
I de "I want to ride my bike" (V)
A pêra
O pote de compota
O cair da tarde
O rio da paisagem
O verde da garrafa
Pousado sobre a mesa
Onde tu e eu estamos
A olhar eternos
Os olhos de quem nos olha
Aqui neste teatro
Venho dos montes
Sê amiga do meu repouso
Se apeteço ser rei
Ter um barco e um cão
E dos meus amigos ser amigo
Sê benigna
Se me amas
António Dacosta, A Cal dos Muros,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1994
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
P de "Pelos caminhos da manhã" (V)
Ir andando por aí sem ti nos nomes, e daí vir, contigo
na ideia. Ser tocado pelo esquecimento de uma lezíria.
Ser a própria trívia. Retornar deserdado,
sem eira à beira de mim.
Rui Baião, Insane,
Lisboa: Averno, 2014
[ID, 'Intercidades', 02/014]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
B de Bom Ano Novo (VIII)
I'M GOING IN
ao piano, um corpo pronto
a nascer tudo de novo
a promessa dedilhada do regresso
àquele ponto de encontro
circular, em que já não recordamos
quem somos, nem por quem
chorámos. aquecemos as mãos
batidas pelo vento, a pele funde-se
aos poucos com as asas, o sangue
com as florestas e os rios.
this is how it starts,
olhamos a manhã ao longe
à espera que nos desenhem um rosto.
Renata Correia Botelho, small song, 2.ª ed.,
com capa e desenhos de Daniela Gomes,
Lisboa: Alambique, 1 de Janeiro de 2015
Lisboa: Alambique, 1 de Janeiro de 2015
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
P de Perda de Inventário
[ID, Santarém, 26 de Dezembro de 2014]
AS CADEIRAS EM QUE NINGUÉM SE SENTA
mesmo à beira do lago,
geralmente dispostas em pares indicando que um casal
se poderá sentar ali e olhar para
a água ou para as grandes árvores frondosas.
O problema é que nunca se vê ninguém
sentado nessas cadeiras abandonadas
embora a dada altura deva ter parecido
um bom lugar para parar e não fazer nada por um momento.
Às vezes há uma pequena mesa
entre as cadeiras onde ninguém
deixou um copo pousado ou um livro com a capa para baixo.
Posso não ter nada com isso,
mas suponhamos haver um dia
em que todos os que colocaram essas cadeiras vagas
numa varanda ou num cais se sentariam nelas
nem que fosse para se lembrarem
daquilo que achavam que valia a pena
ser contemplado das duas cadeiras
lado a lado com uma mesa pelo meio.
As nuvens estariam altas e imponentes nesse dia.
A mulher descola o olhar do seu livro.
O homem toma um gole da sua bebida.
E ouve-se apenas o som do seu olhar,
o marulhar da água do lago, e o canto de um pássaro
depois de outro, gritos de alegria ou de aflição —
o tempo vai passando enquanto se percebe qual.
Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014
[ID, Beja, 3 de Maio de 2014]
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"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
E de Encontro
2.
para a Inês
Encontraram-se
à margem dos seus deslocamentos,
duas figuras capazes de existir e morrer.
Ali,
somados ao lugar que os inventou,
foram peremptórios em reconhecer
a falência da realidade, o que só os tornou
ainda mais coesos.
Sobrepunham-se de tal forma
que os trâmites da experiência se viam instituídos
pelos seus próprios olhos.
Um tocou o outro,
a sensação de se propagarem como
âncoras debaixo de água. Tudo assim lento,
confirmado pela respiração.
Se ainda houvesse ruas,
julgaríamos que era de noite,
que chuviscava,
que tinham roupa um para o outro.
Sentiam-se emergir de um equívoco, alçados
pelo lucro do desejo.
Cruzariam a própria sombra para jurarem isso mesmo:
que existiam, que haveriam de morrer.
Que se tinham encontrado.
Vasco Gato, Napule,
Lisboa: Tea For One, 2011
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
C de Cidades Invisíveis
CHÃO ANTIGO
para o António Manuel Couto Viana
esses lugares imundos – puros, quero eu
dizer – onde a morte entrava
sem ter de pedir licença.
Lugares onde eram por igual sinceros
o sono, o vómito ou a sombra de um abraço
(Mayakovsky e Céline tinham a mesma importância
e a sorte de não serem futebolistas).
É pena que já não possamos
comemorar no chão a derrota
do corpo pela manhã. Ao lavarem
os copos, da última vez, houve duas
ou três gerações que se partiram.
Talvez eu pertencesse a uma delas – mas
isso, ao poema, importa muito pouco.
Há um lugar que escreve sobre
a ausência de todos os lugares.
Tonéis de vários tamanhos
onde inscrevi, por distracção,
o único nome verdadeiro.
Estou a falar, naturalmente,
de tabernas.
Mas talvez não seja apenas isso.
Manuel de Freitas, A Flor dos Terramotos,
com capa de Olímpio Ferreira a partir de fotografia de Sérgio Eloy,
Lisboa: Averno, 2005
[ID, 'Cidades invisíveis', 06/013]
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"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
E de Espera (XXXIX)
POR MUITO QUE LEIAS NOVALIS
Ouro, incenso e mirra.
Por muito que leias Novalis
não vês tornar-se mais poética
nem mais verdadeira
a tua vida. No fundo,
só querias guardar ciosamente
(ias escrever religiosamente) a luz
que dezembro te oferece.
Ouro, incenso e mirra.
E certos direitos duramente conquistados.
O direito de impregnar na pele
a cólera das crianças,
o direito às cavidades irrevogáveis
da tua garganta,
o direito de estenderes na corda
a roupa viva dos dias,
e o de ensopares, na côdea,
os restos de gordura do prato,
escassos poderes, toda a luz
que dezembro te oferece.
Ouro, incenso e mirra
a luz que dezembro te oferece
começa logo a desaparecer.
E, por poucas que sejam, estarão sempre a mais
as palavras deste poema.
LUÍS FILIPE PARRADO
in Merry Little Christmas,
Lisboa: Averno, 24 de Dezembro de 2012
[ID, 'a luz que dezembro te oferece', 12/014]
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
C de Carrosséis (V)
Não enxergas. Quer dizer, olhas para isto e não vês
nada. Em rigor a manhã só desperta com o gesto
de um miúdo. Estender o braço e fazer pontaria.
Há quanto tempo está ali, a observar-te?
À volta de toda a praça, o grande carrossel gira,
o grande ciclo da vida, a morte e o renascimento.
Vozes desconhecidas ecoam por todo o lado, palavras
que se transmitem de uma geração para outra.
Pois bem, o balanço do mar largo continua.
Não te deixes enganar pela harmonia da calçada.
Hoje é dia das mentiras, és capaz de ter razão.
Vítor Nogueira, Mar Largo,
Lisboa: &etc, 2009
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
J de "Jardins sous la pluie" (III)
SONETO PARA CESÁRIO
Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade.
Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las.
Contava-te — sei lá! — desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas...
Duma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.
DINIS MACHADO
[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 01/013]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
domingo, 14 de dezembro de 2014
M de "My house, I say" (III)
Às vezes acordamos felizes. A casa
está sossegada, o quarto
dá para um jardim com as cantarias
caídas e árvores altas e muros de musgo.
O burel das cortinas antepara o céu
opaco sobre prédios urbanos.
O universo, submisso, parece disposto
para proteger; acolhe na manhã
as fachadas com os andares de três janelas,
de duas, de uma apenas; termina
em triângulos difusos na neblina.
O aquecimento irradia dos tubos, a chuva
acaricia os barcos parados, um homem com vara
debruça-se para retirar detritos.
Bandos de pássaros, brandos ventos, tudo pousado.
Abro a blindagem do quarto e ouço
os tijolos, a tinta, as escadas, o corrimão
a sangrar.
JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
in Sloten, Lisboa: Europália, 1991
in Sloten, Lisboa: Europália, 1991
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
E de "E ando na vida à procura / Duma noite menos escura" (V)
NOCTURNO
Meia-noite em Alicante. Da varanda do meu hotel da Calle Mayor, na estreita franja negra que formam, quase se tocando, as cornijas, avisto duas gaivotas que flutuam como farrapos de linho deslizando pelo firmamento.
Uma anémica estrela tirita, solitária e desgraçada, na abóbada do céu.
Pela rua passa um tipo escrevendo uma mensagem num telemóvel. Acabo o cigarro e entro no quarto. Junto da cama, um cartaz anuncia em inglês:
"Há algo melhor do que tornar realidade os seus sonhos. Tornar realidade os dos outros...".
A poesia no século XXI.
Roger Wolfe, Tiempos Muertos,
Barcelona: Huacanamo, 2009
[Trad. ID]
"[...]
Não sei. O amor prevalece. E tem,
como as palavras, uma espécie de evidência física.
Ontem - escrevo-o em Coimbra,
numa fria varanda de hotel - poderia ter sido
uma das noites mais felizes da minha vida.
[...]"
Manuel de Freitas, Ubi Sunt,
Lisboa: Averno, 2014
[Fotografias: ID, Coimbra, 11/014]
Libellés :
"A luz da sombra",
"Porque agora vemos como por espelho",
AVERNO
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
C de Carrosséis (XV)
PERDA DE INVENTÁRIO
Sempre à mesma hora
a morte, e não lhe fixei
ainda o negro subindo
de veludo pela sombra,
pisando a carne.
Talvez alguns sinais:
um céu indigesto,
os pés disformes de todos
os anjos para não saberem
regressar à terra;
a estátua mais triste
da cidade, tão triste
que a avenida parece
prometer, ao fundo,
um circo já desfeito.
Só um mendigo lhe
deixou o seu corpo
por reclamar - o corpo
mais anónimo da cidade -
sob a espera de lona molhada
e o embalo surdo de um Bach
de papelão e cobre miúdo
para solista sem pernas,
esquecido entretanto de
como regressar à alegria.
Nada pousa, em horas assim,
o suficiente para ser,
por mais que insistamos
em atravessar contra-corrente
as ondas quebradas na calçada,
os sentidos trocados da vida.
E sente-se a amargura,
mesmo de costas voltadas,
como o brilho de uma pérola por
entre as malhas indiferentes da luva.
Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014
[Lisboa, 25/11/12]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
L de (A) Luz da Sombra (XLII)
III
Isto ocorre-me a partir desta observação: nós ainda pintamos os homens sobre fundo dourado, como os primitivos. Detêm-se frente ao indeterminado. Por vezes dourado, por vezes cinza. Às vezes dentro da luz e, muitas vezes, por trás deles, com uma insondável escuridão.
Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas,
trad. Sandra Filipe, Lisboa: Averno, 2011
AMOR
O rapaz na extremidade da carruagem
não parava de olhar para trás
como se estivesse com medo ou à espera de alguém
e, em seguida, ela apareceu na porta de vidro
da carruagem seguinte e ele levantou-se,
abriu a porta e deixou-a entrar
e ela entrou na carruagem levando consigo
uma grande caixa preta
na forma inconfundível de um violoncelo.
Ela parecia um anjo com uma testa alta
e olhos sombrios e os cabelos
estavam presos atrás do pescoço com um laço preto.
E por causa de tudo isso,
ele parecia um pouco estranho
na sua felicidade em vê-la,
enquanto ela estava simplesmente ali,
perfeitamente viva como uma criatura
com um rosto suave que tocava violoncelo.
E a razão pela qual estou a escrever isto
na parte de trás de um envelope
agora que eles deixaram o comboio juntos
é dizer-vos que, quando ela se virou
para colocar o grande e delicado violoncelo
na bagageira superior,
vi-o a olhar para ela
e para o que ela estava a fazer
da mesma forma que os olhos dos santos são pintados
quando estão a olhar para Deus
quando ele está a fazer algo de extraordinário,
algo que o identifica como Deus.
Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014
[Imagem: Giotto]
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
P de Poética (LIV)
DIQUE
A minha mãe chama-me,
um som familiar, de duas notas,
que atravessa os campos
e me encontra aqui
de joelhos num regato,
os braços metidos em lama até aos cotovelos.
Regresso
e tento explicar
o que estive a fazer este tempo todo
tão longe de casa.
"A fazer diques?", vai ela perguntar.
"Ou a fazer poemas sobre fazer diques?"
Hugo Williams, Última Semana,
trad. Pedro Mexia,
Lisboa: Edições Tinta-da-china, 2014
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time"
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
U de "um homem pode o seu coração" - II c
The earl and countess lie in stone,
Their proper habits vaguely shown
As jointed armour, stiffened pleat,
And that faint hint of the absurd—
The little dogs under their feet.
Such plainness of the pre-baroque
Hardly involves the eye, until
It meets his left-hand gauntlet, still
Clasped empty in the other; and
One sees, with a sharp tender shock,
His hand withdrawn, holding her hand.
They would not think to lie so long.
Such faithfulness in effigy
Was just a detail friends would see:
A sculptor’s sweet commissioned grace
Thrown off in helping to prolong
The Latin names around the base.
They would not guess how early in
Their supine stationary voyage
The air would change to soundless damage,
Turn the old tenantry away;
How soon succeeding eyes begin
To look, not read. Rigidly they
Persisted, linked, through lengths and breadths
Of time. Snow fell, undated. Light
Each summer thronged the glass. A bright
Litter of birdcalls strewed the same
Bone-riddled ground. And up the paths
The endless altered people came,
Washing at their identity.
Now, helpless in the hollow of
An unarmorial age, a trough
Of smoke in slow suspended skeins
Above their scrap of history,
Only an attitude remains:
Time has transfigured them into
Untruth. The stone fidelity
They hardly meant has come to be
Their final blazon, and to prove
Our almost-instinct almost true:
What will survive of us is love.
PHILIP LARKIN
[Fotografias: ID, 03/013]
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
U de "um homem pode o seu coração" - II b
2
Gosto dos teus sinais pela minha casa. O livro de Caspar Friedrich com a capa voltada para cima. O afia-lápis apoiado na face menor como se a desafiar a queda, posição em que nunca imaginei se pudesse equilibrar. O brinco que perdeste e só encontraste o minúsculo fecho que teimei guardar, embora de nada servisse. Nele deponho a alegria de o vir a encontrar e lembrar estas noites de uma felicidade suave, quase invisível. Ficava-te bem esse brinco contra o cabelo curto. Ficava-te bem o sorriso abrigado nos olhos tristes. Toda a noite te falei da morte e tu ouviste-me. Não te afastaste em passos leves, como estou habituado. Tão pouco me refutaste, com medo do que ouvirias. Toda a noite te falei da morte e tu deixaste-me estes sinais de vida. A maior riqueza que me poderias ter legado. Salvaste-me e não sabias.
Jorge Roque, Nu contra nu,
Lisboa: Averno, 2014
[ID, 'Parallel Walks', Julho 013]
Libellés :
"I'm building a still to slow down the time",
AVERNO
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
E de Espera (XXXVI)
AO AMANHECER
As lágrimas não sabem
o que dizem, deixam-se cair
em turvos argumentos,
lembram-se de coisas.
Quase nos estragam as bebidas.
Ao fim de três whiskies,
abres uma porta
e tudo se aclara.
As memórias, os cadernos,
os aprestos do negrume,
ficaram para trás.
Agora já conheces
os fósforos que tens,
abriga-os da chuva de dezembro.
Quem sabe que cigarros
estarão à tua espera.
José Miguel Silva
in Poetas Sem Qualidades, Lisboa: Averno, 2002
sábado, 29 de novembro de 2014
V de Vício - V b
"[...]
Mas eu -
disponho três rosas num vaso chinês:
uma rósea,
outra vermelha,
e outra amarela.
E trabalho a sua disposição.
E então sento-me numa janela virada a sul
e saboreio um vinho clarete com uma pitada de cicuta,
e penso nas noites de Inverno,
e nos ratos selvagens que várias vezes cruzarão
o local que será a minha sepultura."
Amy Lowell, Não eram rosas,
trad. Ricardo Marques,
Lisboa: Língua Morta, 2012
[ID, 'God is in the details', Londres 014]
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
A de "até que os fios do coração" (XVII)
"[...]
mora um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas sou inteligente, só o deixo sair
por vezes, à noite
quando todos dormem.
e digo, sei que estás aí,
não estejas triste.
depois coloco-o de volta
mas ele canta suavemente
não o deixo morrer
e adormecemos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
[...]"
Charles Bukowski
traduzido por Fábio Neves Marcelino e ilustrado por Débora Figueiredo
in Fanzine ignota 1, Novembro de 2014
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
R de Regresso ao Trabalho (XLVIII)
ALFONSINA Y EL MAR
Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.
Sabe
Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.
Te
vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
Cinco
sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.
Bájame
la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.
Te
vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
R de Regresso ao Trabalho - XLVIII b
ALFONSINA STORNI ATIRA-SE AO OCEANO
"E sobre a minha cabeça
ardem, no crepúsculo,
as eriçadas pontas do mar"
A. S.
Enquanto saem do mar ou do Tempo as amibas,
os caranguejos pré-históricos e os grandes répteis,
chiantes e lentos como tanques de guerra;
enquanto sai Pizarro com os seus homens e cavalos;
e emerge Ursula Andress, o seu biquini eléctrico e louro
como uma flor carnívora que se colasse ao tacto;
enquanto saem do mar a Vénus de Boticelli, e Crusoé,
e o Nautilus amarelo dos Beatles, e na praia
vêm encalhar baleias e réstias morenas de raparigas
que tomam sol e mate e depois são tomadas por outros;
enquanto emergem do abismo os icebergues cariados do diabo
e entre eles flutua a vida, esse draga-minas velho e escangalhado;
enquanto o mar transborda do mar no meio do estrondo
e o Sumo Ponto já nem ouve os seus próprios pensamentos,
e na praia do cenário já não cabemos todos,
porque todos tropeçamos em todos, e andamos a esbarrar
na vida e nas suas tramóias e no adereço que são as palavras;
eu regresso sem nada e em silêncio a este oceano, hoje laranja
e tépido como o líquido amniótico que banhava as minhas primeiras sestas.
Sabem como gosto de dar uma espreitadela aos bastidores.
Deixo-vos com o vosso desembarque diário na Normandia.
Não me acordem até o espectáculo e o mundo acabarem.
Jesús Jiménez Domínguez, Frecuencias,
Madrid: Visor, 2012
[Trad. ID]
Libellés :
"Porque agora vemos como por espelho",
Biorritmo
domingo, 23 de novembro de 2014
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
U de "um homem pode o seu coração" (III)
PEQUENOS CRIMES ENTRE AMIGOS
Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.
Podes até queimá-lo -
com cuidado, por favor -
quando estiver mais frio;
ou enterrar os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.
Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014
[Detalhe de Francisco Zurbarán / 1655]
terça-feira, 18 de novembro de 2014
U de "um homem pode o seu coração" (II)
SEGUNDA AUSÊNCIA DE MADRID
aqui estamos, sonho, a caminho.
um punho plantado ou uma árvore a descoberto
com o sabor de um longo passado (o que é um passado?)
ruminando saliva pesada, olhando fixamente
as acrobacias mortais
um homem pode o seu coração
aqui estamos, sonho,
aqui estamos, boneca de papel,
cigarro, coração transcorrendo
igual a uma núvem
tenho por referência um válido herói
ou a pedra ligeiramente solta
na espessa parede
o homem pode o seu coração:
o que tem a verdade - a viva ou se assemelhe
a que tem a lua indique a ilha
ou seja o seu limite
Manuel de Castro (17 de Novembro de 1934 - 1971)
in Paralelo W, edição de autor, 1958
Josef Sudek
domingo, 16 de novembro de 2014
F de Família
LAPINHA
Para a Lorena Correia Botelho
Às 21h25 a ilha fecha,
o último pássaro metálico
deixando para trás os portões
encerrados das lagoas.
É um tempo de aranhas
esquecidas das teias, aves
suspensas no voo, amigos
que invocam em silêncio as estações
e recordam ainda a Criação,
camada por camada.
Sobre os homens desce então
uma redoma de nuvens, que a estrela
única vem selar. Cada um risca
as fronteiras do sonho com sebes
de hortênsias ou muros de basalto,
esperando depois que as três
voltas do milhafre não o surpreendam
entre as espigas altas do mundo.
E o medo torna-se subitamente
navegável, mar de minúsculas
e carnudas conchas estendido
a nossos pés, para que possamos
sempre caminhar sobre
as águas.
Inês Dias, Da Capo,
Lisboa: Averno, 2014
[Detalhe de uma lapinha feita por Lorena Correia Botelho - um poema.]
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
P de Postais (VII)
DORMIR NO TECTO
É tão calmo o tecto!
É a Place de la Concorde.
O pequeno lustre de cristal
está apagado, a fonte está às escuras.
Não há vivalma no parque.
Mais abaixo, onde o papel de parede se descolou,
o Jardin des Plantes tem os portões fechados.
Aquelas fotografias são animais.
A vegetação e as flores poderosas sussurram;
sob as folhas os insectos escavam.
Temos de passar sob o papel de parede
para encontrar o insecto-gladiador,
lutar com uma rede e um tridente,
e deixar a fonte e a praça
Mas oh, se pudéssemos dormir ali em cima...
- ELIZABETH BISHOP
[Trad. Inês Dias]
[Postais oferecidos no Paralelo W]
terça-feira, 11 de novembro de 2014
A de "Ai meu amor se bastasse"
BWV 988
Talvez tudo fosse diferente
se o mundo tivesse começado tão bem
como as variações Goldberg.
Não sei, não quero saber, não faço ideia.
Eu, que da arte nada quero,
estou há vários meses sem escrever
um poema. Mas agora, aqui,
sou trespassado por uma cama
demasiado larga e pelo olhar
negro do gato que se apieda, talvez,
de mim. De uma certa ideia de mim
que acorda às quatro da manhã
para a mais ampla noção de vazio.
Felizes, mais ninguém, os que
se matam e não têm um gato
a servir fixo de remorso
nas dobras sujas dos lençóis.
Esses, apenas, que não procuram
de rastos a certeza de outro dia.
O amor? Talvez, quando um cadáver
se recria e afaga penosamente
a morte de que de uma maneira ou
de outra se morre. Quem me dera ser
menos realista, menos real,
menos permeável ao desgosto.
Mas a verdade é esta: partiste
a meio da noite, fodemos pouco e mal
e quando a janela me guilhotinou
já um táxi te levava
para longes terras da cidade em pânico.
É tudo – sabes? – tão dolorosamente simples.
A mão que não quer esperar-me,
o rumor sórdido dos bares,
a certeza de que a vida, a vida,
não deveria ser exactamente assim.
Reúno, numa espécie de voz,
esses estilhaços. Sei que não vale
a pena, sempre o soube.
Há os que se despedem e os que não.
E, indiferentemente, progridem
as diferentes coisas. Carteiros
matinais, aviões, poetas que dão
corda à musa e escolhem
devagar o timbre da gravata.
Estão no seu direito, partilham
o bem comum, a cidadania do terror.
E eu, infelizmente, existo. Abro
outra lata de cerveja, sob
o olhar reprovador do gato. Sim,
gostava de ser felino – uma coisa
mansa, dolorosa, ao abrigo da tormenta.
Mas li demasiados livros, fumo
pelo menos três maços e não me
parece que volte a acreditar em Deus
(se nem Bach me convence, estou perdido).
E, porém, há nisto uma simplicidade
atroz. A demorada asfixia
das veias, percutindo a noite, a certeza
óbvia de que não estás aqui.
Que música, sequer, me redimiria
agora? Vou morrer assim,
de costas para os espelhos. A sabê-lo.
Deve ser isso, a dor.
O cancro da manhã infiltrando-se
pela janela, como se eu pudesse
num mundo adiado, palco já sem mim.
Ou o olhar que te viu e deixou
de ver e percebeu subitamente
que um corpo, um corpo apenas,
é matéria de desastre, pronúncia errada.
A música, claro, se tivéssemos
música, qualquer coisa assim.
Em vez disso, os órgãos acomodam-se
ao suplício dos minutos, desagregam-se.
E bastarias tu – ninguém, porque
ninguém basta. É um erro – mas gostamos
tanto – pensar que um rosto nos salvará
disto que não sabemos ser, de nós.
Esse pronome pessoal, o inferno.
E é estranho, no mínimo, que o mundo
saiba acontecer, apesar. O silêncio desta dor
devia calar o universo, dinamitar arredores.
Mas não, desiste. Desiste até de desistir.
Não será este o último poema, por mais
que o julgues ou sintas (e os versos,
para ti, foram sempre sentimentos vãos).
Acordarás sinistro, quase vertical,
para as tabernas disponíveis.
Dizem que abusas. Talvez.
Como explicar-lhes, a esta hora,
que nessa retórica gasta
comprometes a vida toda?
Nunca te leram – ou mal. E o grito
permanece incólume no susto da manhã,
nas paredes mais escuras que encontrares.
O mais estranho não é a literatura,
o solene esgar da poesia.
Mais estranho, sempre, é sobreviver
a isto, fingir que não, sorrir.
Enquanto o olhar negro negro
de um gato testemunha a tua morte
e se despede melhor do que tu
da música e dos dias e da música.
Qualquer coisa assim.
Manuel de Freitas, [Sic],
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002
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